Crónica: Nuno Nepomuceno na cidade do Vaticano

Conto
A Morte do Papa, o novo livro de Nuno Nepomuceno
Nuno Nepomuceno regressou à escrita e ao género que lhe é mais caro.
A Morte do Papa coloca-nos no epicentro do Vaticano e envolve-nos num dos maiores mistérios da história da Igreja Católica: um papa, eleito num conclave surpreendente, é encontrado morto 33 dias depois.

Para aguçar a curiosidade daquela que se adivinha uma leitura compulsiva e plena de reviravoltas, o escritor desafiou-nos a percorrer alguns dos lugares icónicos por onde decorre a trama partilhando uma crónica inédita:
 
A CIDADE DOS SANTOS:
Nuno Nepomuceno na cidade do Vaticano

Protegidos por umas sapatilhas confortáveis, os meus pés continuaram a percorrer o passeio apressadamente. Sentia-me ansioso por chegar, enquanto caminhava pelas ruas da cidade sob um Sol intenso, que brilhava isolado no meio de um céu azul sem nuvens. Era a segunda vez que estava em Roma e não me recordava que fosse tão quente. De resto, permanecia exatamente na mesma.

Era o corrupio infernal de carros, que mal davam hipóteses aos peões de atravessarem a estrada; as lambretas a buzinar, orgulhosas da sua fluidez; e as pessoas, cujo burburinho das conversas que mantinham se elevava ao demais. Não conheço povo tão expansivo como os italianos. Aquilo é que é alegria.

Acabado de sair de um restaurante pequeno, percorri os poucos metros que me faltavam e cruzei uma avenida larga, correndo no meio dos automóveis. Encostei-me a um muro alto, pousando sobre ele o par de fatias de pizza embrulhadas em papel que carregava na mão. O rio Tibre separava-me do Vaticano. Ladeado por duas freiras que tiravam uma selfie, com o domo da basílica a ver-se ao fundo, observei as margens baixas, dominadas por bancos de areia. Imaginei o corpo de um jovem guarda suíço preso na vegetação, acabado de vir à superfície, trazido pelas águas castanhas. Sou um homem de muitos crimes e no livro que estava a escrever, A Morte do Papa , já tinha cometido vários.

Entrei na cidade rodeado por santos. A Ponte de Sant’ Angelo fora nomeada depois de um anjo ter aparecido sobre o castelo com o mesmo nome, o que justificou as estátuas que passaram a decorar os parapeitos. De resto, arriscaria dizer que aquela era a única presença divina naquele acesso pedonal pejado de transeuntes. De mendigos a comerciantes de recordações e outras bugigangas, havia por ali de tudo um pouco.

Não era a primeira vez que estava em Itália e, por isso, não demorei muito a atravessar o rio e entrar na pequena cidade-estado tão independente do país que a circunscreve ao ponto de ser dotada uma fronteira e de leis próprias. Sejamos crentes ou não, ir ao Vaticano é uma experiência que recomendo a todos, quanto mais não seja pela oportunidade de saber como é. Apesar das lojas que inundam a Via della Conciliazone, da impressão com que podemos ficar de que tudo ali é excessivamente comercializado, pouco é comparável à sensação de ir percorrendo aquela avenida larga no meio de um turbilhão de turistas, padres e outros elementos do clero, enquanto em frente a nós, calma e imperturbável, a Basílica de São Pedro vai crescendo, aproximando-se.

É grande, imponente, feita de pedra branca, com uma magnitude indescritível, que nos faz ficar parados a olhar para ela. Mas ainda hoje, vários meses depois de lá ter estado, quando escrevo este artigo, as imagens que me ficaram não foram as da grandiosidade do edifício. Sim, a quantidade impressionante de pessoas que atrai. Movidas pela fé, caminhavam entre os braços da colunata, entrando ou saindo da igreja, formando dois corredores humanos impressionantes.

Passei algum tempo na praça, andando por lá à procura de erros no que já tinha escrito. Ia tirando fotografias e estudando os ângulos de visão a partir dos vários pontos que identificava. Os guardas suíços parados no Arco dos Sinos tinham uma vista desobstruída sobre o obelisco, as fontes e o Palácio Apostólico? Sim. Como seria a visão a partir do alto do domo? Só havia uma forma de sabê-lo. Tinha de entrar.

Várias filas e ainda muito mais tempo depois, consegui fazê-lo. O percurso para subir até ao cimo não era fácil e, já que tinha tempo, resolvi aproveitar a experiência plenamente. Às vezes, tenho a tendência para complicar, confesso. E naquele dia em particular sentia-me extraordinariamente ousado e destemido. Sim, é isso mesmo em que estão a pensar. Perante a hipótese de comprar um de dois bilhetes, pelas escadas, ou pelo elevador, fiz a escolha mais óbvia, claro.

Com as pernas doridas de subir tantos degraus, lá acabei por chegar à varanda do domo da basílica. Os meus companheiros de viagem, outros seres humanos corajosos como eu, amontoavam-se, afoitos, na varanda estreita e, como tal, protegida por uma rede. Sofro de algumas vertigens. Nada grave, mas, mesmo assim, o suficiente para que usasse de alguma cautela, deambulando por ali sem me aproximar muito. Mas quando o fiz, fiquei maravilhado.

Lá em baixo, a Praça de São Pedro estendia-se perante mim, levando-me de regresso a Roma, que se via no horizonte. Vieram-me imediatamente ao pensamento duas imagens poderosas.

A primeira, foi aquele lugar santo, que tinha aos meus pés, cheio de pessoas. Era uma sensação de um poder indescritível. Depois, vi um homem vestido de branco com os braços abertos na direção dos crentes. Acolhia-os, sorrindo-lhes, recentemente eleito. À sua frente, o céu azul transformava-se num manto escuro, raiado de vermelho, como se fosse sangue, e um bando de corvos entrava na cidade, pousando sobre as estátuas que vigiavam a colunata.

Lutando contra a tempestade poderosa que se abatia subitamente sobre a cidade dos santos, o meu Papa conseguia ver perante si algo inesperado. Era a noite da sua morte.

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