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Amor Estragado

de Ana Bárbara Pedrosa
Livro eBook
Editor: Bertrand Editora, maio de 2023 ‧
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Dois irmãos contam a dissolução de uma família. Manel casou com Ema, e foi até que a morte os separasse como enfim os separou - pelas mãos dele. Habituado ao álcool e incapaz de lidar com as frustrações, não era a ele que mãe e irmãos deviam o amor sem reservas? Zé, casado, agora com três filhos, não vê no sangue uma desculpa para a vida do irmão. Pela mão da violência, que é pedra de toque, assistimos a uma família cujos laços se desfazem. E à vida transformada noutra coisa.

Com uma linguagem crua e destemida, que não raras vezes desarma o leitor, Amor Estragado é um romance sobre a família enquanto território a proteger, a traição da vida adulta face às certezas da infância, a inveja, o desgosto, a degradação que o vício impõe e o que custa perder um lugar de honra. E inevitavelmente sobre a culpa - do homem que mata e de quem não o impede.

«Este livro é uma lufada de juventude, no meio da mesmice da nossa literatura contemporânea.»
Itamar Vieira Junior

«Uma escrita singular que impressiona pelo arrojo e versatilidade, pelo tom coloquial que nunca se perde.»
José Riço Direitinho, Público

«É coisa séria, sensual, bem escrita.»
Francisco José Viegas, Correio da Manhã

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«Literatura, esse animal a chafurdar», uma crónica

Irrita-me que se procure na literatura uma resposta, que se veja no virar de uma página um caminho. E irrita-me que se julgue que um escritor é um messias, um profeta da moral, um salvador – um catequista que traz uma lição ou uma mensagem. Quem escreve tem de enterrar as mãos na lama.
Na literatura, procuro sempre a falha. Não me interessa se é a minha ou a dos outros, antes encontrar a frincha na moral, a vergonha de um dissimulado, o buraco negro na paisagem. Gosto de pensar o romance como monstro vivo a estripar entranhas: depois do exercício da escrita, há vísceras, sangue, horror; há a vida sem capacetes, pensos rápidos, folhinhos cor-de-rosa. A literatura, ao nascer, trouxe à vida o que se fingia estar escondido – o que é recalcado aparece no papel escancarado, e o romance é uma retroescavadora a vasculhar no lodo.
Leva-se ao terreno literário o que não se pode admitir, explora-se a sensibilidade, a quebra de expectativas. Nisto, pouco será mais humano, mais amplo e mais filho-da-mãe do que a inveja. Tê-la passa sempre por ter de fingir que não se a tem. É uma coisa muito linda, pois não? Um monstro cheio de fome a rasgar o estômago com os dentes.   Está nos primórdios da vida, e da tradição escrita também. No Génesis, lá está ele: Caim, que não tinha quase ninguém à volta e escolheu o homem mais próximo para invejar até morrer por dentro. Ora, quem morre por dentro tem a necessidade de matar. Uma espécie de kill your darlings levada aos extremos. Um homem matava-se a tentar fazer com que a terra cuspisse qualquer coisa, e havia um Deus gatuno que lhe deitava a oferta ao lixo. E depois o outro – plácido, calmo – que mais nada fazia para além de passear gado pelos campos, que oferecia um carneiro aceite de bom grado. Nesta situação, claro que o primeiro gajo nem quis saber de que o segundo era irmão dele: foi pegar numa pedra e limpar-lhe o sebo, a ver se se limpava também o sebo que tinha em torno das artérias coronárias. Desta sensação que come, nasceu no imaginário ocidental a Humanidade: o homem, marcado pela inveja que levou ao assassinato, teve de fugir dali, encontrar uma mulher, fundar povos. Na Bíblia, somos todos filhos do pecado capital da inveja – muito mais incisivo do que comer uma maçã que só servia para enfeitar um jardim. Em meia dúzia de traços, compôs-se uma história inteira, e disse-se tanto disto que é a massa humana: por vezes, a própria falha leva a querer partir o outro. E, perante a História, nem é preciso a explicação: basta ver para o impacto parecer capaz de partir ossos.
A tragédia de Caim foi ser humano. E o mesmo se passou com Otelo, seu filho, nosso pai. A vida foi-lhe tão trágica que parecia encravada logo ao nascer. Ali, o monstro a corroer por dentro teve o mesmo efeito que com Caim – comeu tanta coisa de um peito descarnado que lhe pôs nas mãos um crime irreversível. Depois de matar por ciúmes Desdémona, sua esposa, já não havia nada que o safasse. Para tanta dor duradoura, estrangulamento tão veloz. Criara-se ali um diz-que-disse, e Otelo vira Desdémona na cama. Acusara-a de traição, mas de que vale uma negação para quem acusa? Um cego, bem se sabe, é incapaz de ver, e não há sentimento carniceiro que acalme à mansidão da voz. Que ela negasse a acusação de Otelo enfureceu-o, e a fúria meteu as mãos num pescoço inocente. Ora, quando Otelo se apercebeu do erro, já a irreversibilidade era como uma bola de aço a bater-lhe na cabeça. Portanto, só porque Shakespeare era mesmo, mesmo trágico, Otelo suicidou-se a seguir. Quem nunca? A inveja deu nisto, e ainda por cima de nada.
Ora, caída nas asas da literatura, também eu tive esta pulsão: pegar em alguém consumido por um desejo e que se julgasse injustiçado. Foi terrível, admito – e que maravilha foi. Escrever é esta coisa lixada e boa ao mesmo tempo. Desta vez, nem houve um Deus no céu a preferir um irmão, nem houve um amante a recear a existência de outro. O que criei foi outra coisa: um homem que, pese embora a forma como o álcool o corroía e transformava, achava que o que o afastava do amor dos irmãos e da mãe era a mulher que ele, volta e meia, espancava forte e feio. Este é o Manel de Amor Estragado, a mais infame das minhas personagens – a mais divertida também. Admito que, ao fazê-lo, no sossego de um escritório ou de uma biblioteca, me senti poluída por aquela inveja. Ora, alguém que escreve, ao sentir a mão viscosa do que vem do texto, voa com a vitória – se a sensação existe, é porque a vida é mesmo assim.
Da literatura, um leitor exigente não pode aceitar mantras, nem pode aceitar o desrespeito de um autor que vem com uma mensagem declarada. A escrita é um movimento exploratório, não uma explicação do mundo a ser dada de mão-beijada. E é assim que faz com que as mãos pareçam coisas que nem servem para agarrar. Não tem de servir para nada, muito menos para catequizar. Não tem de apontar um caminho. Só se não sujar as mãos é que é inútil.


Nota:
Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece n.º 10.

Amor Estragado

de Ana Bárbara Pedrosa

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722545310
Editor: Bertrand Editora
Data de Lançamento: maio de 2023
Idioma: Português
Dimensões: 151 x 235 x 18 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 208
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722545310
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Melhor livro dos últimos tempos

David

Completamente impactante. É por causa de livros como este que eu gosto de ler. Mais do que aconselhado! É um livro que considero cada vez mais necessário para levar a sociedade a refletir acerca de um tema tão enraizado na sociedade.

Manel, Zé, Bruno e Paulo

Marisa Martins

Manel, Zé, Bruno e Paulo são irmãos. Esta história é sobre eles, no entanto com destaque para os dois primeiros. Contada a duas vozes, em capítulos alternados, Manel é quem começa a narrativa a anunciar que matou a mulher, faz a caracterização dos irmãos, versa um pouco sobre a infância dos quatro e os relacionamentos com outros familiares. Zé usa as suas primeiras palavras para reagir ao que o irmão acaba de fazer e continuar a viagem ao passado iniciada por Manel. Conhecemos Ema e Marília, as esposas dos irmãos, os filhos de Zé, as profissões e os patrões dos irmãos, o relacionamento com a mãe, os problemas de alcoolismo do Manel, etc. Peças que se encaixam para um desfecho já conhecido. Alcoolismo. Violência doméstica, na perspectiva e voz do agressor que justifica e legitima os seus actos. Famílias destroçadas. A vergonha dos irmãos. Amor. Um Amor que, como o título anuncia, estava estragado na sua essência ou acabou por estragar tudo. Recomendado (com cautela devido aos imensos triggers com álcool e violência). “Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam voltar a dar. Quando se faz uma destas, há que manter a cabeça fria. Qualquer treta pode dar cabo de tudo.” (Pág. 7)

Avassalador

Ler, um prazer adquirido

O primeiro parágrafo deste livro é impactante. E o Manel fica apresentado na bem desenvolvida trama. A perspectiva de um homem com um vício que constrange, intimida e mata. Um homem como outros que infelizmente fazem notícia e que Ana Bárbara Barbosa convence numa escrita coloquial, simples e muito direta. Ultrajante personagem. O Zé é a outra personagem. O que se foca nos seus problemas e desvia o olhar porque não se quer envolver. O típico que quase nega a violência doméstica que sabe que existe. Apática personagem. Perturbador romance que vicia, mesmo quando a tragédia abre a narrativa procuramos saber o contexto. E o depois.

Incrivel

Ana Maria

Melhor livro deste ano. Não queria que terminasse. Sem duvida uma das melhores escritoras da atualidade

SOBRE O AUTOR

Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa é autora de Lisboa, chão sagrado (2019), Palavra do Senhor (2021), Amor estragado (2023), também publicado no Brasil, e Viagens com o Mehdi (2024) – todos com chancela Bertrand Editora. Escreve textos para vários órgãos de imprensa com regularidade, assina crónicas no jornal Mensagem de Lisboa e na revista Sábado e faz crítica literária no Observador. É doutorada em Ciências Humanas, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduada em Linguística e em Economia e Políticas Públicas e licenciada em Línguas Aplicadas. Viveu e estudou em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos. Nos tempos livres, estuda línguas, faz jiu-jítsu e scuba diving – e viaja.

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