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O Nariz

de Nikolai Gogol
Editor: Relógio D'Água, junho de 2024 ‧
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O Nariz é um conto satírico de Gogol, escrito durante a sua estada em São Petersburgo e publicado em 1936 numa revista literária dirigida por Puchkin.

Trata-se da história de um assessor de colégio que desperta uma manhã sem nariz e descobre que ele desenvolveu uma vida própria, até se tornar conselheiro de Estado. O tema deste conto parece ter que ver com a própria experiência de Gogol, que frequentemente ridicularizava nas cartas o seu próprio nariz.
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Livros que me fizeram rir

Durante muito tempo, associei “literatura a sério” a sobrancelhas franzidas e sublinhados densos nas margens. Ler era, para mim, um exercício de concentração quase solene, algo que exigia postura, disciplina e, de preferência, algum sofrimento existencial. Rir alto com um livro parecia incompatível com a ideia de grande obra.
Há um equívoco persistente segundo o qual o riso seria uma forma menor de expressão literária, um adorno leve diante da seriedade dos grandes temas. No entanto, basta percorrer a tradição ocidental para perceber que o humor sempre foi um dos instrumentos mais sofisticados da literatura. A sátira desestabiliza sistemas, a ironia corrói certezas, o absurdo expõe as engrenagens invisíveis do poder e da vaidade humana. Rir é também uma forma de admitir que a realidade, quando observada com atenção, roça frequentemente o grotesco. Dom Quixote de la Mancha, Cervantes Eu percebi cedo esse poder, e lembro-me do livro que me suscitou isso. Foi o Dom Quixote, de Cervantes. Este livro nasce como paródia e termina como fundação do romance moderno. A premissa é aparentemente simples: um fidalgo enlouquece de tanto ler romances de cavalaria e decide tornar-se cavaleiro andante. Contudo, sob a superfície cómica, desenrola-se uma reflexão profunda sobre ficção e construção da realidade.
O humor emerge do descompasso entre visão e mundo. Dom Quixote é alguém que insiste em interpretar o real segundo uma narrativa heroica que já não encontra correspondência histórica. A célebre cena dos moinhos de vento é simultaneamente hilariante e melancólica: rimos da obstinação idealista que recusa a banalidade do mundo.
Sancho Pança, com a sua linguagem proverbial e pragmatismo terreno, oferece contraponto à retórica elevada do amo. No diálogo entre ambos instala-se uma tensão produtiva entre imaginação e materialidade, sonho e sobrevivência. O riso é dialético, ora desmonta o delírio, ora o dignifica. Cervantes questiona a própria fronteira entre loucura e nobreza de espírito. É um dos livros mais importantes para mim.

COMPRO NA WOOK! » As Mentiras que os Homens Contam, de Luís Fernando Veríssimo Quando vivia no Brasil era frequente ir até livrarias e perder lá horas. Lembro-me de pegar num livro específico e de ter verdadeiros ataques de riso. O livro era As Mentiras que os Homens Contam, de Luis Fernando Veríssimo. Com o tom da crónica, que desloca o foco do épico para o microscópico, e sem grandes sistemas filosóficos, este livro trata do quotidiano e das suas pequenas farsas sociais. A mentira, neste contexto, é um mecanismo de autopreservação. As personagens mentem para manter a imagem, evitar constrangimentos ou sustentar fantasias banais. O humor nasce do efeito dominó: uma invenção mínima exige outra, e mais outra, até que a situação se torna insustentável. O que distingue Veríssimo é a precisão do olhar. Ele capta o instante exato em que a tentativa de controle escapa das mãos. Ele tem uma capacidade única de revelar a fragilidade das identidades que construímos para circular socialmente. Veríssimo desnuda a teatralidade contemporânea, aquela que todos praticamos, ainda que discretamente.
COMPRO NA WOOK! » Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis Um livro que me fez rir de forma silenciosa e cúmplice foi o Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Este livro opera uma revolução silenciosa. Ao escolher um narrador defunto, liberta-o das convenções sociais e morais que limitariam um relato em vida. A morte concede franqueza e uma ironia metafísica. Brás Cubas escreve sem necessidade de redenção. Confessa egoísmos, vaidades e mediocridades, mas com uma leveza desarmante. O humor machadiano é subtil, frequentemente metalinguístico, envolve capítulos brevíssimos, interrupções dirigidas ao leitor, digressões inesperadas. Há uma consciência aguda da artificialidade do romance. Mas a ironia é um instrumento crítico. Machado expõe a hipocrisia da elite imperial brasileira, a vacuidade das ambições políticas e a superficialidade das relações afetivas. O riso que provoca é sofisticado, cúmplice.

COMPRO NA WOOK! » Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll Alice no País das Maravilhas é outro dos livros da minha vida, e isso deve-se muito à carga humorística, sobretudo pelo uso do paradoxo. Lewis Carroll constrói uma lógica alternativa onde as regras existem apenas para serem subvertidas. O nonsense opera uma reorganização radical da linguagem.
Os diálogos são labirintos semânticos e as personagens, caricaturas de autoridade e rigidez. A Rainha de Copas grita sentenças antes de julgamentos, o Chapeleiro Louco encena um chá interminável onde o tempo se desintegra. Alice, tentando aplicar racionalidade vitoriana àquele universo, encontra apenas instabilidade.
O humor de Carroll reside no desajuste entre expectativa e resultado. Ao brincar com paradoxos matemáticos e jogos linguísticos, revela a fragilidade dos sistemas que tomamos como absolutos. O riso surge do espanto, e o espanto, por sua vez, conduz à consciência de que a lógica social também pode ser arbitrária.

COMPRO NA WOOK! » O Nariz, de Nikolai Gógol O Nariz, de Nikolai Gógol, foi outro livro que li na adolescência e do qual me lembro muitas vezes. Leva o absurdo ao limite do grotesco. Um funcionário público descobre que o próprio nariz adquiriu autonomia e circula pela cidade ostentando uma posição hierárquica superior. A comicidade decorre da reação social: ninguém questiona a impossibilidade do facto, o escândalo reside na perda de status. O protagonista sofre pela despromoção simbólica. Gógol expõe, com humor cruel, a obsessão burocrática pela classificação e pelo título. O surrealismo deste livro antecipa tendências modernas, mas mantém raízes firmes na crítica social. O riso é desconcertante. Nasce do improvável, mas revela algo profundamente plausível: a dependência da identidade ao reconhecimento externo.

COMPRO NA WOOK! » Estes autores, separados por geografias e séculos, partilham uma convicção implícita: que o riso é um instrumento de conhecimento. Ao exagerar, inverter ou deslocar a realidade, revelam a sua estrutura íntima.
Cervantes questiona a fronteira entre ideal e loucura. Veríssimo expõe a teatralidade quotidiana. Machado transforma a morte em ponto de observação privilegiado da vida. Carroll desorganiza a lógica para revelar a arbitrariedade das normas. Gógol grotescamente dramatiza a obsessão por status.
A literatura humorística, longe de ser leve, exige precisão intelectual e permite que encaremos as nossas ilusões, hierarquias e certezas com uma lucidez sorridente.

O Nariz

de Nikolai Gogol

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897834530
Editor: Relógio D'Água
Data de Lançamento: junho de 2024
Idioma: Português
Dimensões: 111 x 161 x 4 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 64
Tipo de produto: Livro
Coleção: Contos Singulares
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Contos
EAN: 9789897834530

Texto original

Sara Inês

"O Nariz", de Nikolai Gogol, é uma sátira brilhante e absurda sobre o orgulho, a vaidade e a burocracia. A narrativa é ao mesmo tempo hilariante e inquietante, mostrando como o ridículo pode revelar verdades profundas sobre a condição humana. A escrita de Gogol é viva e inventiva, e a história, apesar de curta, fica na memória pela sua originalidade.

Um nariz com vida própria

SD

E se uma parte do nosso corpo ganhasse vida? É esta a premissa base e precária, mas esta pequena obra tem muito mais subjacente. Para ler, reler e refletir. Somos tanto. Feitos de tantas peças. E por vezes esquecemo-nos que o mais simples é o essencial.

SOBRE O AUTOR

Nikolai Gogol

Nikolai Gógol, autor clássico da literatura russa, nasceu a 20 de março de 1809 (1 de abril pelo nosso calendário gregoriano) na província de Poltava (Ucrânia), no seio de uma família de médios proprietários rurais (1200 hectares e 200 servos da gleba). Partiu jovem para Petersburgo, onde começou por ocupar sucessivos empregos em ministérios, foi professor, ao mesmo tempo que ia escrevendo e publicando em revistas. Passou grande parte da sua vida em viagens pelo estrangeiro e pela Rússia.
Das suas obras destacam-se as coletâneas de contos Noites na Granja ao Pé de Dikanka (1831-32), Mírgorod (1835), os Contos de São Petersburgo («Avenida Névski» [1834], «Diário de um Louco» [1834], «O Nariz» [1836], «O Retrato» [1841] «O Capote» [1841], e «A Caleche» [1836]) e as peças de teatro O Inspector (1836) e O Casamento (1842). O romance Almas Mortas, do qual só o primeiro tomo ficou completo, foi publicado em 1842.
Depois de uma lenta agonia, Nikolai Gógol morreu de doença nervosa e desespero espiritual a 21 de fevereiro (4 de março pelo nosso calendário) de 1852.

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