Dar a Morte

de Jacques Derrida
Editor: Palimage, junho de 2013 ‧
15,90€
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Apesar das aparências, apesar do sinal do dom, apesar de uma passagem esperada entre o tempo e a morte, apesar da aparição, furtiva, é verdade, do narrador de La Fausse Monnaie (Baudelaire), Dar a Morte não é ainda o segundo tomo anunciado de Donner le Temps. I. La Fausse Monnaie (Galilée, Paris, 1991).
A figura para sempre dominante é aqui Abraão: aquele que, antes de mais, é certo, recebe três homens junto aos Castanheiros de Mambré, os enviados de Deus, e lhes dá hospitalidade para inaugurar a sua tradição. Mas Abraão é também aquele que, no fim de contas, sabe dever calar-se no Monte de Moriá antes de o anjo, um outro enviado, interromper a morte que, para a dar a Deus, ele se aprontava a dar ao seu filho preferido, Isaac - a menos que seja, em terra do Islão, Ismael de Ibraim.
Como interpretar o segredo de Abraão e a lei do seu silêncio? Porque parece ele incomensurável com o interdito, que parece reduzir ao mutismo todos os seus, todos aqueles e todas aquelas a quem, aliás, ele não confia jamais nada: e Sara e Isaac, e Agar e Ismael - tão cedo mandados embora? A estes quatro próximos, que se queria fazer passar por figurantes, nós lembrá-los-emos discretamente para o centro da cena.
Não se sabe mais como entender o indecifrável deste momento inaudito. Não se sabe mais reinterpretá-lo. Não se sabe mais, porque não é mais uma questão de saber, quem pode autorizar­-se a reinterpretar o número infinito das interpretações que desde sempre dão aqui à costa em vista das costas ou soçobram no fundo dos abismos que se abrem à nossa memória, aí se descobrindo e encobrindo ao mesmo tempo.
Ora nós somos esta memória, por ela prevenidos e intimados. Inspeccionados no alto mar antes do naufrágio. Ela consigna-nos uma herança irrevocável. Nós podemos, é certo, denegá-la, ela permanece justamente inegável - e continua a ditar uma certa leitura do mundo. Do que um «mundo» quer dizer. Ou mesmo da mundialização hoje em dia da confissão, do arrependimento e do perdão. Abraão, sugere a literatura de Kierkegaard, teria pedido perdão a Deus: não por tê-lo traído, mas por lhe ter obedecido!
História da Europa, da responsabilidade, da subjectividade ou do segredo, possibilidade da literatura, tais seriam talvez alguns nomes, entre outros - ou apelidos -, destes desafios.
E o mais do que Um. E a questão de saber porque é que, na sua filiação abraâmica, a literatura teria de pedir perdão - por não querer dizer. E porque é que Deus teria ainda de jurar.
Reunidos em torno do corpus bíblico, alguns grandes veladores são escutados. Todos homens. Disputam-se a noite: Kierkegaard, em primeiro lugar, Kierkegaard indefinidamente, e Kafka sobre­tudo, e Melville, mas também Patocka, a seguir a Platão, Nietzsche, Heidegger, Lévinas.

Jacques Derrida

Dar a Morte

de Jacques Derrida

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897030703
Editor: Palimage
Data de Lançamento: junho de 2013
Idioma: Português
Dimensões: 162 x 232 x 11 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 196
Tipo de produto: Livro
Coleção: Skiagraphia's
Classificação Temática: Livros em Português > Ciências Sociais e Humanas > Filosofia
EAN: 9789897030703

SOBRE O AUTOR

Jacques Derrida

Jacques Derrida (1930-2004) é o filósofo da Desconstrução – talvez o mais radical, justo e inventivo dos idiomas filosóficos: justíssimas nos parecem por isso as palavras que Dominique de Villepin lhe endereçou, a 25 de maio de 2003, na Universidade hebraica de Jerusalém, aquando da sua receção de um Doutoramento honoris causa: «Jacques Derrida, o senhor volta a dar densidade às palavras mais fortes e mais simples da Humanidade [...] O senhor está na primeira fila daqueles que abriram a via de um pensamento novo. [...] A "Desconstrução" é a démarche atenta, escrupulosa, de um pensamento que se forma à prova do seu objeto. Démarche eminentemente criativa e libertadora. Desfazer, sem nunca destruir, para ir mais longe. [...] O senhor situa-se na linha dos intelectuais da honra, ciosos de universal, no caminho aberto por Voltaire, Bernanos, Zola ou Sartre.»
Autor de uma obra imensa, para além da sua docência, primeiro na Sorbonne, de 1960 a 1964, depois na École Normale Supérieure de Paris, de 1964 a 1984, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, de 1984 a 2003, Derrida também desenvolveu uma intensa atividade docente um pouco por todo o mundo, tendo sido Professor convidado de várias universidades [nomeadamente, Berlim, San Sebastian, John Hopkins, Yale, Cornell, New York University, New School for Social Research, UC Irvine, Cardozo Scholl of Law, ...] e tendo também herdado a cátedra de Hans-Georg Gadamer na Universidade de Heidelberg. Doutor Honoris Causa por mais de duas dezenas de universidades, incluindo pela Universidade de Coimbra, em novembro de 2003.

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