A Criada Zerlina

de Hermann Broch
Editor: Difel, abril de 2002 ‧
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Na obra de Hermann Broch, Zerlina não é uma jovem camponesa desperta para os impulsos do corpo, mas uma velha criada, distante já da sua matriz instintual, para quem a estratégia erótica se transformou em estratégia discutiva. Mas o corpo e discurso são ambos modos, embora diferentes, de conhecimento e o exercício de Zerlina consiste justamente na laboriosa tradução do conhecimento instintual em conhecimento intelectual.
Entre um e outro, como única mediadora, está a sua linguagem, em cuja rudimentaridade procura a sistematização de valores que assistem à sua conversão de «ser erótico» em «ser ético». Como resíduo desta transformação, emerge o valor axial do seu movimento: a culpa. Não a sua – Zerlina permanece sempre exterior ao mundo que observa e relata – mas a de uma sociedade que a ela se exime, justamente porque aceita assimilar e inscrever corpo e culpa. Sobre elas Zerlina, enquanto «ser ético», passa julgamento e delibera ser guardiã e executora da consequência do sistema de valores que identificou.
É a sua exterioridade a esse sistema que a investe da capacidade de ser juiz e seu carrasco. A sua posição, é uma posição extrema, absoluta, como rudimentar e limite é a sua linguagem. Ambas decorrem de um valor maior e primeiro: a intensa transferência das vivências, que na sua intensidade só podem ser inocência.

«Para Hannah Arendt, esta narrativa de Zerlina é apenas uma das maiores histórias de amor de toda a literatura, e a sua preferida. Efectivamente, esta Criada Zerlina é uma figura inesquecível, quer pela violência dos seus desejos, despidos de qualquer afecto ou compaixão, quer pela força do retrato que traça de si mesma perante um interlocutor que se apaga.»
Colóquio/Letras

A Criada Zerlina

de Hermann Broch

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722905817
Editor: Difel
Data de Lançamento: abril de 2002
Idioma: Português
Dimensões: 150 x 230 x 20 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 72
Tipo de produto: Livro
Coleção: Pequenos Textos de Grandes Autores
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722905817
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Leitura Obrigatória!

Rita Alexandra Duarte Pereira

A história passa-se, muito provavelmente, nos inícios do séc. XX. Como era habitual em todas as casas ricas das cidades, havia criadas. Rapariguitas moças dos campos iam para essas casas trabalhar por tempo indefinido, passavam a ser quase membros da família e conheciam todos os segredos e cantos à casa. Zerlina é uma dessas criadas. A história da sua vida é um autêntico romance! Como é referido na sinopse, Zerlina pretende ser executora da consequência do sistema de valores sociais da sua época. Mas o que quer isto dizer? Em nova agiu conforme as suas emoções, através do desejo pelo corpo e da sede de paixão. Agora em velha age com experiência de vida, sabedoria, com a razão. Como li algures, ela transformou-se. Passou de um «ser erótico» para um «ser ético». Isto ao longo dos anos, claro, não foi uma mudança do dia para a noite. Zerlina, mesmo na velhice, continua a alimentar pensamentos obscuros... A outra personagem que entra na história é A., ou pode-se dizer o próprio leitor (?), um hóspede que ouve a fantástica trama desta criada. O autor não deu um nome, apenas uma letra... Isso só torna mais real o tempo da narrativa, pois qualquer leitor pode colocar-se na "pele" deste A.

SOBRE O AUTOR

Hermann Broch

Escritor austríaco de etnia judaica, nascido a 1 de novembro de 1886, em Viena. Filho de um industrial do ramo têxtil, recebeu os fundamentos da sua educação a nível privado, e começou depois a estudar em preparação para uma carreira executiva na fábrica do seu pai. Ingressou em 1897 na Real Escola Secundária do Estado, prosseguindo em 1904 para o Instituto Técnico de Manufatura Têxtil, de onde transitou, em 1906, para o Instituto de Fiação e Tecelagem de Mülhausen. Durante a Primeira Grande Guerra serviu como executivo da Cruz Vermelha austríaca, tendo, no entanto, administrado a fábrica da família em Teesdorf.
Pelos cafés de Viena tomou contacto com figuras da intelectualidade austríaca, como Robert Musil, Franz Blei e a jornalista Ea von Allesch, ex-modelo nu, alcunhada de "Rainha do Café Central". Viúva de um pianista inglês morto durante a guerra, o tenente Johannes von Allesch, o seu segundo marido havia tido um colapso nervoso apenas três meses depois do casamento. Broch rompeu com Milena Jesenská, que começou uma relação com o escritor Franz Kafka, para se juntar a Ea, mais velha do que Broch em cerca de onze anos.
Em 1909 tornou-se crítico do Moderne Welt, sobretudo graças aos contactos de Ea, que o encorajou nos seus esforços literários e que lhe escrevia cartas apaixonadíssimas. A relação começou a esfriar em 1927, e Broch envolveu-se então com a sua secretária Anna Herzog.
Ao cabo de muitos anos de trabalho na empresa da família, Broch decidiu, aos quarenta anos de idade, dedicar-se por completo à escrita. Divorciou-se e ingressou na Universidade de Viena como estudante de Matemática, Filosofia e Psicologia, de 1926 a 1930. Em 1927 havia resolvido vender a fábrica.
Aos quarenta e cinco anos de idade publicou o seu primeiro romance em formato de trilogia, Die Schlafwandler (1931-32), que refletia a visão spengleriana dos ciclos históricos e tratava a desintegração dos valores culturais na Alemanha de 1880 a 1820. Com o alastramento do fenómeno Nacional-Socialista, Broch interrompeu a atividade da escrita, colaborando, nos anos de 1937 e 1938, na Volkerbund-Resolution, a resolução para a Liga das Nações.
No mesmo dia da anexação da Áustria à Alemanha pelas tropas alemãs, Broch foi detido para interrogatório. Com receio de poder vir a morrer numa prisão Nacional-Socialista, Broch, auxiliado por James Joyce e outros escritores, conseguiu uma autorização para emigrar da Áustria. Mudou-se primeiro para Londres, depois para a Escócia e, finalmente, para os Estados Unidos da América, onde se estabeleceu em Princeton, no estado da Nova Jérsia.
Por não ser detentor de títulos académicos, foi-lhe negada uma posição fixa nas universidades de Princeton e de Yale. Recebeu, no entanto, bolsas de várias fundações, incluindo a Guggenheim, a Rockefeller, Bollingen, Oberlander, e da Academia Norte-Americana das Artes e Ciências. A partir de 1940 envolveu-se em ajuda humanitária a refugiados, pelo que muito dos fundos que ia recebendo foram parar às mãos de outros refugiados de guerra europeus.
Em 1945 concluiu, nos Estados Unidos, Der Tod Des Vergil, obra constituída por quatro partes, cada uma delas representando um elemento - a água, a terra, o ar e o fogo - e que foi considerada como um dos grandes monumentos da literatura de exílio.
A sua obra caracterizou-se sobretudo pela originalidade formal, por uma certa ambiguidade no conteúdo e pela tentativa de conciliação entre as perspetivas científica e mistico-simbólica de aproximação ao mundo.
Passou os últimos anos da sua vida em torno da Universidade de Yale, no estado do Connecticut. Tornou-se, em 1949, parte do corpo docente do Saybrook College. Faleceu na véspera de uma viagem planeada à Europa, vítima de um ataque cardíaco, a 30 de maio de 1951.

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