WOOK LÊ Julieta Monginho

17 de janeiro de 2020
BIOGRAFIA
NOME: JULIETA MONGINHO
DATA E LOCAL DE NASCIMENTO: 1958, Lisboa
WOOK FAZ? Escritora e magistrada do Ministério Público
CURIOSIDADE: Em 2021 celebra 25 anos de vida literária
OS SEIS LIVROS DA SUA VIDA
O PROCESSO, FRANZ KAFKA
Travessia dos labirintos de uma engrenagem letal, onde o sujeito se objetifica, ao perder a capacidade de agir sobre o seu trajeto. Como o leitor, como todos nós ao longo da vida, Josef K. caminha através de ambientes oníricos, tão estranhos quanto familiares, desconhecendo o sentido do caminho e debatendo-se com a escassez dos recursos que possui para se opor à desumanização. Hesitei antes de o ler, quando era estudante de Direito, com medo de imergir num universo claustrofóbico. Afinal a leitura foi tão aliciante que me levou a toda a obra de Kafka e ao próprio autor, a quem me sinto afetivamente ligada, o que deu origem ao meu romance intitulado Os Filhos de K.
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AS CIDADES INVISÍVEIS, ITALO CALVINO
A arquitetura impossível ou a gama infinita de possibilidades, o leitor decidirá. Decidindo ou indecidindo, será maravilhado com o poder de um imaginário fulgurante, viajando por entre a multiplicidade de lugares construídos com o rigor e o engenho do prodigioso criador de universos que é Italo Calvino. Um mestre para a minha relação com a escrita, também através das suas Seis Propostas para o Próximo Milénio.
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ORLANDO, VIRGINIA WOOLF
A ousadia de Virginia Woolf ao criar esta personagem e ao colocá-la em movimento seria hoje um espanto. Um século atrás, uma vertigem. Tempo, verosimilhança, coerência, tudo é desafio neste texto. A transgressão e o carácter precursor da questão do género – Orlando, um ser nascido da plena liberdade criativa, nasce homem e um dia acorda mulher conservando a sua essência – tornam a personagem uma figuração do ser humano resistente ao estereótipo, ao preconceito, à simplificação, ao desgaste do tempo, numa antecipação literariamente insuperável.
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OS PASSOS EM VOLTA, HERBERTO HELDER
O poder da linguagem e da imagética é de tal modo avassalador que transfigura a própria natureza da viagem e das propostas que convocam um viajante sempre náufrago, sempre espantado com a desordem de si mesmo. Toda a poesia de Herberto Helder é um sismo que abala o leitor definitivamente. Estes textos em prosa trazem consigo o mesmo poder encantatório e os abismos para onde somos atraídos, entre fascínio e aturdimento.
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A PAIXÃO SEGUNDO G.H., CLARICE LISPECTOR
G. H. são as iniciais com que se identifica a personagem que usa a palavra como a substância do próprio ser. A linguagem é o que define a condição frágil da vida humana, sempre à beira de se dissolver na matéria bruta do quotidiano. Quando entramos neste, como nos outros livros de Clarice, de imediato somos atraídos pela forma íntima e única com que nos convoca para o fundo do enigma, com a leveza de quem nos levasse a passear através dos recantos desconhecidos da nossa própria casa.
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A OBRA AO NEGRO, MARGUERITE YOURCENAR
Existem obras ficcionais perfeitas, em que linguagem, enredo, questionamento, conhecimento do amplo movimento humano, se conjugam numa raríssima felicidade de leitura. Na impossibilidade de me alongar por obras como Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, de Flannery O’Connor, A Pérola de John Steinbeck, A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi, Pedro Páramo de Juan Rulfo, O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, e tantos outros, escolhi este livro de Marguerite Yourcenar.
No centro desta obra está Zenão, filósofo alquimista do Renascimento, que, na sua busca por um mundo onde a liberdade de pensamento e a criação de conhecimento prevaleçam, nos fala de uma época de transições, da oposição entre poder e saber numa Europa em ebulição, da perigosa e infindável demanda da verdade transformadora.
Deslumbrante.
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