Viajar para longe

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
27 de julho de 2022
Amazónia, Turquia, Seul e Miami. São quatro viagens que tudo têm para serem memoráveis. Mas estas personagens não estão nestes lugares para fazer turismo e para se deixarem levar pelo exotismo das paisagens. Talvez não seja a típica viagem de verão, e muito provavelmente não vai querer copiar-lhes as experiências. Mas vale a pena seguir-lhes os passos: as emoções vão ser muitas.
 
A Viagem
Chega a ser cómica a forma como um grupo de ingleses viaja até à Amazónia achando que continua em Inglaterra. A lareira acesa, as calças de flanela, os vestidos, os desportos ao ar livre, a hora do chá, os passeios na natureza, num ambiente extremamente quente, húmido e agreste.… Mas a persistência do hábito é tanta, que nem quando começam os primeiros desmaios eles desistem da sua pose britânica. A Viagem é uma obra embrionária de muita da temática que encontramos nos livros posteriores de Woolf. É-nos apresentada Mrs Dalloway e as reflexões em torno do papel da mulher na sociedade inglesa do início do século XX. Trata-se de uma viagem de barco à América do Sul e uma estadia prolongada numa estância de férias em plena selva tropical. E, como tal, toda a obra trata de contrastes. Woolf retrata como é difícil aos ingleses a adaptação. Não apenas no que se refere aos hábitos mas também aos próprios sentimentos e ideais. Num ambiente de convivência diária continuam a prevalecer o recato, a vergonha, a sublimação, a formalidade das conversas e, o que se vem a revelar particularmente trágico, o desprezo pela mudança de costumes e a assunção de que a forma eduardiana de viver e sentir pode ser replicada nos trópicos.
Encontramos nas personagens principais um mundo interior complexo, frágil, que questiona o estabelecido, sem com isso se conseguir libertar dos grilhões que a sociedade da altura impõe. Nem no meio do Amazonas, onde o calor não impede investidas na selva tropical em casacos de fazenda para leituras de clássicos ao sol do meio-dia.
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A Casa do Silêncio
Esta viagem é um regresso a um passado da família e sobretudo a uma casa-mãe, daquelas onde discussões antigas escorrem pelas paredes, onde divisões fechadas guardam projetos nunca terminados e onde existem guarda-joias vazios de imaginação. O primeiro livro de Pamuk publicado no Ocidente traz-nos uma família turca do início dos anos 80 do século XX. Na casa-mãe só mora uma velha senhora, amarga, solitária, que destrata o seu fiel criado, um anão que a serve com uma dedicação extrema. A essa casa vão dar, em visita anual, os restantes membros vivos da família: três netos adultos. E pela história caminha também Hassan, herdeiro da bastardia. São cinco as vozes interiores que nos contam a história, numa narrativa íntima, que se passa na mente e na memória de cada uma das personagens.
A sensação que perpassa ao longo da obra é a obsessão extrema pelo passado, pelos segredos da família. A teia vai sendo construída ao longo do livro, para percebermos como chegamos ali, àquela casa, àquela solidão, àquele silêncio e àquelas mentes atormentadas. Estamos numa estância balnear do Norte do país, para onde a família teve de se exilar, expulsa de Istambul por motivos políticos. Uma Turquia em tumulto, viajando pela incerteza da dicotomia entre a opressão e a liberdade, entre a democracia e a ditadura, havendo uma obrigação de as pessoas se colocarem num dos extremos. A Casa do Silêncio é um livro de equilíbrios frágeis.
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Se com Pétalas ou Ossos
A personagem principal deste livro não está na Coreia do Sul a fazer turismo. Mas quase parece que sim. Num fluxo de consciência arrebatador, vamos perseguindo este atormentado escritor, que precisa de enviar um manuscrito à sua editora mas, com tanta informação que lhe chega de tantos lados, simplesmente não consegue. Rodrigo percorre a metrópole e ali, em pleno Oriente, a inspiração surge do mais desabrigado dos arbustos mas a inércia parece estancá-la, proibindo-a de emergir, fazendo essa tal inspiração perecer em guardanapos onde Rodrigo vai rabiscando ideias. Seul, essa cidade imensa, feita de rotinas inadiáveis, onde impera a sensação de se ser um forasteiro, é uma das personagens centrais deste livro, que nos apresenta um escritor que tem como missão a escrita de um romance e para isso vive algum tempo numa residência para escritores nessa cidade.
O consecutivo adiamento da escrita é o intérprete de uma inércia que de preguiçosa nada tem. Rodrigo observa a cidade, consciencializa-se do seu objetivo e quer cumpri-lo. Mas, seja a sua supervisora na Coreia do Sul, muito pouco convencional, seja a namorada, que lhe aporta a questão de uma gravidez a meio da estadia, seja a escritora espanhola desaparecida que lhe serve de distração, ou a própria Seul, tudo vai envolvendo o escritor numa rede da qual o próprio, não obstante a sua vontade, não consegue sair. Tal como Rodrigo, seremos todos os antagonistas da nossa própria história?
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Cari Mora
Miami, esse destino de sonho para tantos de nós. As caminhadas ao longo do passeio marítimo, os cocktails servidos com fruta na beira do copo e aqueles edifícios art déco com os néons. Fascinante, não lhe parece? Pois não é nada disto que encontramos nesta viagem à capital da Florida. Antes, mulheres decepadas para gáudio de tarados, uma máquina de cremação líquida de vítimas, uma fêmea de crocodilo que guarda um torso humano para refeição.
Thomas Harrisé o criador de Hannibal Lecter e talvez não seja preciso dizer mais nada para se perceber este encanto com o macabro. Cari Mora é uma força da natureza, uma jovem imigrante em Miami que toma conta de uma mansão do falecido barão da droga colombiana Pablo Escobar, onde se pensa estar um tesouro sepultado que é disputado por muitos. Apaixonada por aves, ao longo de todo o livro Cari vai sendo associada à frondosa vida selvagem da Florida, à qual se junta o lixo provocado pelo ser humano. Uma clara metáfora entre a selvagem Cari e o pútrido Hans-Peter, que procura o tesouro escondido por Escobar e tem o objetivo também de raptar Cari para a vender a um milionário depravado. O final deste thriller vale toda a espera, deixando-nos com a certeza de que, não obstante o grafismo das cenas de violência, leríamos mais umas quantas páginas desta história. Não recomendado a leitores sensíveis!
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