Um poema de Margaret Atwood

17 de janeiro de 2020
AMORAS SILVESTRES

De manhã cedo uma mulher idosa
está a colher amoras na sombra.
Mais tarde vai ficar muito quente
mas por agora há orvalho.

Algumas bagas caem: essas são para os esquilos.
Algumas estão verdes, reservadas para os ursos.
Algumas vão para a tigela de metal.
Essas são para ti, para que as possas provar
somente por um momento.
São bons tempos: uma pequena doçura
após a outra, depois de um rápido desvanecimento.

No passado, a mulher idosa,
que estou a evocar para ti
teria sido a minha avó.
Hoje sou eu.
Daqui a alguns anos poderás ser tu,
se tiveres alguma sorte.

As mãos alcançando-se
entre as folhas e os espinhos
foram no passado de minha mãe.
Eu herdei-as.
Décadas à frente, estudarás as tuas próprias
mãos temporárias, e lembrar-te-ás.
Não chores, é isto que acontece.

Olha! A tigela de aço
está quase cheia. O suficiente para todos nós.

As amoras brilham como vidro,
como os enfeites de vidro
que dependuramos nas árvores em Dezembro
para nos lembrarmos de ser gratos pela neve.

Algumas bagas ocorrem ao sol,
mas essas são as menores.
É como eu sempre disse:
as melhores crescem à sombra.

Margaret Atwood, Afectuosamente

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