Resistir ao Tempo com Poesia

17 de janeiro de 2020

Resistir ao Tempo é uma excelente antologia bilingue de poesia catalã que reúne poetas nascidos entre 1232 e 1968.
Os organizadores justificam o título da recolha lembrando que a resistência ao tempo foi fundamental para a preservação da língua e literatura catalãs, sobretudo se tivermos em conta as dificuldades que ambas enfrentaram para se manterem vivas. Mas, escrevem ainda, “como disse Gabriel Celaya, ‘la poesia es un arma cargada de futuro’. Joan Brossa tem um poema visual [incluído na antologia] no qual define a poesia como uma arma. E a melhor arma para resistir ao tempo é a poesia. Que nunca se esgote a pólvora dos versos.”


poemas
BAPTISMO

Cada anoitecer volto a ler as tuas cartas
que nunca me escreveste e guardo nas gavetas
transparentes para os ladrões não as encontrarem
- como observar o ar no ar, a luz na luz?
No interior do passado há muitos passados,
muitas memórias a ramificarem como
pequenos capilares do tempo. Lembrança
também é tudo aquilo que nunca chegámos
a viver, a ver e a dizer um ao outro,
tudo o que ficou levemente colado
ao coração, qual pestana prestes a voar.
Não é por estarem mortas antes de nascerem
que as almas já não são almas. Nem as palavras
palavras. Faltou-lhes apenas a água fria
do baptismo e alguém que acreditasse nelas.

Gemma Gorca (n. 1968)






DIVISA

Ao acaso, agradeço três dons: ter nascido mulher,
de classe baixa e nação oprimida.

E o turvo azul de ser três vezes rebelde.

Maria-Mercè Marçal (n. 1952 – m. 1998)






Invocarei o asfalto da sombra,
os dentes que como pedras apodrecem,
os números cabalísticos da pele
vencida, os mortos ressuscitados
e sem crânio,
os deuses perdidos e amarelos,
o meu sangue que nada estagna e mais ainda…
para que reencontres
a luz que se estende pela tarde,
o espaço secreto onde estrelas noviças
e brancas se despem,
as abelhas do vento,
o mel das nuvens… e assim aprendas
- quase só – a existir
com ferros nas unhas.
Invocarei o sal sedento,
o pó de turco que se cansa e cai, as praias
com cem olhos, leigas e mudas
que esperam em vão para nos atarem,
o canto tenaz dos grilos
que se extasiam com o firmamento
falso da cidade que vigia.
E darei tudo e tudo para nada,
só para te viver.
que mania mais estranha
de apostar tudo nos dados de um coração
vencido,
sabendo que, mesmo que ganhasse,

Felícia Fuster (n. 1921 – m. 2021)

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