Um poema de Pedro Eiras

17 de janeiro de 2020
XXXIII

Já este livro tem vontade de se fechar,
de jurar eterno silêncio;
já este livro diz: basta, estou cansado,
estamos todos cansados de falar tanto.

de quanto era escusado nos dias,
sobretudo este falar ainda quando
o sol da tarde cai na rua inclinada,
demorando nos vidros, espreitando

os parapeitos das casas abandonadas,
como quem pergunta o que é feito
dos vivos, lentamente desaparecidos,
como quem faz a contagem dos nomes

nas fotografias, despedidos
um a um, cadeiras desocupadas à mesa,
poltronas preferidas à janela,
e os casacos adormecidos no bengaleiro,

ainda enfunados pelas formas habituais,
expirando o sopro mínimo,
as couraças descartáveis, abandonadas
à medida do caminho.

e no fim os anjos descolam os nomes das coisas,
e atiram-nos para uma tulha funda e cava,
onde ficam a apodrecer, durante anos e anos,
roídos
pelos ratos e pela esperança.

Pedro Eiras, Purgatório

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