«Tão Perto de Mim»: um livro feito de memórias

"Quem vive muito recorda muito mais, porque esteve com pessoas e em lugares que o escrutínio da memória faz questão de guardar como referências".
José Jorge Letria
José Jorge Letria, o autor
Natal é sinónimo também de tempo para recordar histórias, pessoas, momentos. A pensar nisso, fomos à estante e de lá viemos com uma novidade que se construiu a partir do passado. Confusos? O mais recente livro de José Jorge Letria, Tão Perto de Mim, é uma viagem ao baú que lembra autores com quem o próprio conviveu.

Descubra aqui três excertos que selecionámos:
#1: Vasco Graça Moura – Talento e dignidade democrática
«Vasco Graça Moura foi um dos nomes mais importantes da vida literária portuguesa na múltipla condição de poeta, ficcionista, tradutor e ensaísta. Destaco também, no mais lato plano cultural, a acção desenvolvida à frente da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, na liderança do CCB, na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e na Fundação Calouste Gulbenkian. (…) Ainda fiz com ele um dos programas autores da TVI, resultante da cooperação entre aquela estação e a SPA. Foi uma longa e inesquecível conversa entre dois escritores que muito se respeitavam e estimavam. Terminada a gravação, partiu para o Porto para fazer mais uma sessão de quimioterapia. Voltei a vê-lo, já perto da despedida final, à porta das salas do CCB, cumprimentando os convidados para uma sessão no Dia Mundial da Poesia. (…) Recordá-lo a esta distância é também e sempre recordar o seu talento múltiplo e a sua grande dignidade democrática.»
 
#2: Matilde Rosa Araújo – Senhora dos nossos afectos
«(…) Recordo-me sempre da viagem que fiz com ela, António Torrado, Alice Vieira e Natércia Rocha ao Brasil. Numa visita à Fundação Nacional do Livro Infantil, no Rio de Janeiro, Matilde perguntou à responsável brasileira o que se passava com a delegação portuguesa do International Board on Books for Young People (IBBY), que os brasileiros há anos representavam, condicionando as iniciativas de Portugal. Foi-lhe dito que os portugueses tinham um significativo número de quotas em atraso. Nesse momento, Matilde abriu a carteira e disse: «Eu vou pagá-las aqui mesmo.» E assim fez para ressalva da representação portuguesa e da sua amizade por Lília da Fonseca, que tivera a cargo aquela delegação de IBBY. Era assim Matilde: serena, determinada e sempre amiga do seu amigo, fossem quais fossem as circunstâncias. (…) Era o nome mais representativo da literatura para os mais novos, mas nunca quis que esse estatuto lhe conferisse uma autoridade que transcendesse o seu lugar na vida e nas coisas correntes e comuns da cultura.»
#3: Luís de Sttau Monteiro – Felizmente houve Sttau
«Vi Luís de Sttau Monteiro pela última vez numa assembleia geral da SPA. Um acidente vascular que lhe afectara a vista quase o deixara incapaz de ler. Estava ainda muito afectado pela morte de um filho na estrada. Combinámos um almoço ou um jantar que nunca chegou a realizar-se. Antes disso, levara-o a um programa de Joaquim Letria na RTP 2, para falar sobre a língua, a literatura e os meios de comunicação. (…) Sttau Monteiro estava acompanhado pela mulher e, como era habitual, não resistiu à tentação de contar histórias muito distantes da realidade. Disse que estava a escrever um livro de memórias e outro de receitas, que bem o podia e devia ter escrito com o seu excepcional e diversificado talento, mas era mentira. Tudo existia apenas no livro imenso e confuso da sua extraordinária imaginação. (…) Havia quem invejasse o seu talento múltiplo e avassalador e que, por isso, o classificasse como «um dramaturgo sem obra nem plano.» Porém, nenhum deles conseguiu sequer aproximar-se do seu notável Felizmente Há Luar. Sttau só houve um e não deixou margem para dúvidas ou equívocos.
 

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