Refugiados - Vidas sem Pátria mas com História

Albert Einstein, Sigmund Freud, Victor Hugo, Billy Wilder eram refugiados. Isabel Allende, Freddie Mercury e Antoine de Saint- Exupéry também.
Hoje, “uma em cada 113 pessoas na Terra está deslocada, refugiada ou à espera de asilo, o que explica que haja, em 2017, 65.6 milhões de seres humanos a precisar de proteção”. Trata-se da maior crise migratória forçada desde a Segunda Guerra Mundial, alerta José Jorge Letria no seu novo livro «Refugiados - 50 Vidas sem Pátria e com História».
Hoje decidimos destacar três dessas vidas “sem Pátria, mas com História”, como lhes chama o autor. São histórias de superação de refugiados que fizeram do nosso mundo, um mundo melhor. Se a gratidão que lhes temos coubesse num livro, o livro seria este. Segue um pequeno excerto.
31 de outubro de 2017
ISABEL ALLENDE

Ocupação: Escritora
Exílio: Em 1975 deixa o Chile, após o golpe que derruba Salvador Allende e refugia-se na Venezuela.
Razão do exílio: A ditadura que destituiu Allende foi a razão que a levou a sair do Chile. Voltaria ao Chile para votar no Plebiscito que demitiu Pinochet e restituiu a democracia ao país. Muda-se depois para a Califórnia, onde vive.
Filha de Tomás Allende, primo-irmão do médico Salvador Allende, Presidente do Governo de Unidade Popular no Chile, que se suicidou durante o assalto das tropas golpistas de Augusto Pinochet ao Palácio de La Moneda, em 11 de Setembro de 1973, Isabel Allende nasceu em Lima, Peru, de onde a família regressou ao Chile, sua pátria.
Radicada há décadas nos Estados Unidos, continua a ser uma das escritoras mais lidas da actualidade. É autora, entre outros livros, de A Casa dos Espíritos , entretanto adaptado ao cinema com Jeremy Irons e Meryl Streep nos principais papéis e filmado em Lisboa.
Outra obra de grande êxito da autora é Paula, dedicada à filha com o mesmo nome, que, entretanto, faleceu vítima de um ataque de porfíria. A escritora produziu este belo texto autobiográfico para ser suporte da memória da filha enferma, caso ela tivesse conseguido sobreviver. Outra obra de sucesso é Mi País inventado, de 2003, texto de carácter autobiográfico. Destaque ainda para Eva Luna, de 1987, e Filha das Fortuna, de 1999.
A obra de Isabel Allende foi também marcada pela memória pessoal do golpe no Chile e da sangrenta derrota do governo de Unidade Popular, que determinaram a sua condição de exilada durante décadas.
Foi distinguida, entre outros, com o Prémio Nacional de Literatura no Chile, o Prémio Iberoamericano de Letras José Donoso e o Prémio Hans Christian Andersen.

THOMAS MANN

Ocupação: Escritor
Exílio: A 10 de Fevereiro de 1933, deu a sua última aula na Universidade de Munique. No dia seguinte, partiu para dar uma série de conferências sobre Wagner em várias capitais europeias. A ascensão nazi e o incêndio do Reichstag já não lhe permitiram regressar à Alemanha.
Razão do exílio: «A cultura alemã está onde eu estiver». Foi com este sentimento que Mann viveu o exílio, primeiro na Suíça e, após a tomada da Checoslováquia pelos nazis, nos Estados Unidos.
Irmão do escritor Henrich Mann e pai de seis filhos, Thomas Mann, Prémio Nobel da Literatura, ficou como uma das mais notáveis figuras da cultura mundial nas décadas de 30, 40 e 50, sempre associado à resistência à ditadura hitleriana, que o levou a exilar-se nos Estados Unidos, onde continuou a escrever, sem deixar de denunciar os crimes e o genocídio perpetrado pelos nazis.
Foi autor de alguns dos maiores romances do século XX, com destaque para A Montanha Mágica, Os Buddenbrook e A Morte em Veneza. Muitos têm ligado a personagem do narrador deste último romance à personagem adolescente pela qual está claramente apaixonado, assumindo assim uma homossexualidade que não deixou ficar ligada à sua vida, até por ser casado e pai de seis filhos. Nascido em Lübeck, no norte da Alemanha, era filho de uma brasileira e cresceu numa abastada família há gerações ligada ao grande comércio hanseático.
Escrevia com grande disciplina e rigor, não permitindo que ninguém o interrompesse antes da pausa estipulada do meio-dia. Quando o filho Klaus se suicidou, a empregada aguardou a chegada da hora acertada para lhe dar a informação, sem se atrever a interrompe-lo antes.
Apesar dos seus reconhecidos desejos homossexuais, acabou por casar-se com Katia Pringsheim, de uma rica família industrial, judia secular, que foi mãe dos seus filhos e que se converteu ao luteranismo para ficar mais identificada com as posições do marido.
No princípio do século XX, visitou Roma e outros lugares da Itália, tendo-se apaixonado por Paul Ehrenberg, numa relação conturbada que mais tarde definiria como «a experiência central do seu coração». A publicação de Buddenbrook, em 1901, tornou-o famoso, muito lido e respeitado. O Prémio Nobel da Literatura foi-lhe atribuído em 1929, sendo a distinção muito bem aceite pela crítica e pela opinião pública, que há muito aplaudia a sua obra.
Em 1933, ano do triunfo eleitoral do nazismo, estava a viver em Zurique. O seu nome começou a surgir na imprensa controlada pelo III Reich na lista dos expatriados, que também incluía os nomes dos seus filhos Klaus e Erika. Permaneceu na Suíça até 1938, já privado da nacionalidade alemã. Depois mudou-se para os Estados Unidos para dar aulas em Princeton, de que se queixou, radicando-se, entretanto, em Pacific Palisades. Em 1944, obteve a nacionalidade norte-americana. Sabe-se que o Presidente Roosevelt chegou a encarar o seu nome para liderar um governo alemão no pós-guerra, o que, como se sabe, não chegou a acontecer.
Regressou à Europa em 1952, radicando-se em Likchberg, perto de Zurique, onde viveu até à morte, em 1955, e onde acabou por ser sepultado.
A Morte em Veneza foi a sua obra mais confessional, até pela forma como assumiu a homossexualidade. O livro foi adaptado ao cinema pelo italiano Luchino Visconti. Mas A Morte em Veneza é também o retrato da decadência de uma Europa rica e aristocrática que iria abrir portas à eclosão da Segunda Guerra Mundial, na verdade um prolongamento trágico e inevitável do primeiro grande conflito mundial, que destruiria mais de 60 milhões de vidas, das quais mais de 20 milhões na União Soviética.


ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA

Ocupação: Professor e historiador
Exílio: Exilou-se em França, nos anos 60, e depois na Holanda, tendo regressado a Portugal após a revolução de Abril de 1974.
Razão do exílio: O seu apoio à candidatura de Norton de Matos à presidência da República, em 1949, levou a ditadura salazarista a proibi-lo de ensinar. É preso por causa das acções de militâncias no Partido Comunista.
Foi um dos mais influentes intelectuais portugueses da segunda metade do século XX, com uma obra de investigação e ensaio que marcou os anos da resistência à ditadura, que foram os do seu exílio, primeiro em França e depois na Holanda, países onde lecionou e continuou a produzir a sua obra.
Nascido em Leiria, era irmão de José Hermano Saraiva, figura do Estado Novo, que foi ministro da Educação de Salazar. Em 1940, conhecer Óscar Lopes, com quem escreveu os vários volumes da História da Literatura Portuguesa. Concluiu, em 1942, a sua tese de doutoramento, Gil Vicente e o Fim do Teatro Medieval.
Foi expulso do ensino universitário depois de ter manifestado a sua discordância pelo facto de Vitorino Nemésio, presidente de um júri, ter baixado uma nota que ele acabara de atribuir. Abandonou a sala e Vitorino Nemésio moveu-lhe um processo disciplinar que originou o seu abandono da docência académica. Optou então pelo ensino liceal. Entre 1946 e e 1949, deu aulas em Viana do Castelo.
Quando professor do Liceu Passos Manuel, casou com uma aluna e desse casamento nasceram três filhos. Apoiou a candidatura presidencial de Norton de Matos. Tornou-se militante do PCP e começou a escrever a História da Cultura, vivendo exclusivamente da escrita.
Em 1960, exilou-se em Paris, onde foi bolseiro do Collège de France, sendo depois colocado no Centre National de Recherche Scientifique. Em Paris, viveu com Teresa Rita Lopes, ensaísta e investigadora, que ali se encontrava, também ela na condição de exilada. Há poucos anos foi publicada a correspondência de ambos em Paris.
Veio a Portugal em condições muito precárias para assistir ao funeral dos pais, por intervenção de José Hermano, o irmão, e depois para participar no 1.º de Maio de 1974, já não na condição de exilado político.
De Paris partiu para Amesterdão, onde foi professor catedrático da universidade local, tendo lecionado até 1974. No regresso a Lisboa, foi catedrático da Universidade Nova e depois da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua derradeira obra, Cultura, surgiu já a título póstumo.
António José Saraiva morreu subitamente, ao fim da tarde do dia 17 de Março de 1993, quando participava numa cerimónia de entrega de prémios na Associação Portuguesa de Escritores. Tinha 76 anos e morreu no lugar que ocupava na assistência.

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