Todos Devemos Ser Feministas

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Todos devemos ser feministas
Capa do livro Todos Devemos Ser Feministas
TODOS DEVEMOS SER FEMINISTAS
#MeToo foi a hashtag escolhida em 2017 para quebrar o silêncio e denunciar os abusos sexuais de que, todos os dias, milhares de homens e mulheres no mundo inteiro são vítimas. O caso mais mediático foi o do produtor norte-americano Harvey Weinstein, acusado de assédio e abuso sexual por mais de 80 mulheres, entre elas várias estrelas de Hollywood. Weinstein acabou por ser expulso da Academia de Hollywood, mas o movimento alastrou-se pelos quatro cantos e a luta está longe de terminar. A prová-lo está galardão que é entregue todos os anos pela revista Time e que em 2017 elegeu para Pessoa do Ano - nada mais nada menos - que todos e todas que colocaram na ordem do dia o problema dos crimes sexuais.
Com isso em mente, hoje partilhamos um excerto do livro da ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, Todos devemos ser feministas.
"Okoloma era um dos meus melhores amigos de infância. Morávamos na mesma rua e ele cuidava de mim como um irmão mais velho: quando eu gostava de um rapaz, pedia a opinião dele. Engraçado e inteligente, usava texanas pontiagudas. Em dezembro de 2005, morreu num acidente de avião, no Sudoeste da Nigéria. Até hoje não sei expressar o que senti. Era uma pessoa com quem eu podia discutir, rir e ter conversas sinceras. E também foi o primeiro a chamar-me feminista.
Eu tinha catorze anos. Estávamos em casa dele, a discutir, ambos a fervilhar de opiniões imaturas, baseadas nas nossas leituras. Não me lembro exatamente do teor da conversa, mas recordo que estava a meio de uma argumentação quando Okoloma olhou para mim e disse: «Sabes uma coisa? És uma feminista!» Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele. Era como se dissesse: «És uma apoiante do terrorismo!»
Não sabia o que a palavra feminista significava. E não queria que Okoloma soubesse que eu não sabia. Por isso disfarcei e continuei a argumentar. A primeira coisa que faria ao chegar a casa seria procurar a palavras no dicionário. Avancemos agora mais alguns anos...
Em 2003, escrevi um romance chamado A Cor do Hibisco, sobre um homem que, entre outras coisas, batia na mulher, e a sua história não acaba lá muito bem. Enquanto eu divulgava o livro na Nigéria, um jornalista, um homem bem-intencionado, veio dar-me um conselho (talvez vocês saibam que os nigerianos estão sempre prontos a dar conselhos, mesmo que ninguém os tenha pedido).
Ele comentou que as pessoas andavam a dizer que o meu livro era feminista. O seu conselho - disse, abanando a cabeça com um ar consternado - era que eu nunca, nunca me definisse como feminista, já que as feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido.
Então eu decidi intitular-me de «feminista feliz».
Mais tarde, uma professora universitária nigeriana veio dizer-me que o feminismo não fazia parte da nossa cultura, que era antiafricano, e que, se eu me considerava feminista, era porque havia sido corrompida pelos livros ocidentais (o que achei engraçado, porque passei boa parte da juventude a devorar romances que eram tudo menos feministas: devo ter lido toda a coleção da Mills e Boon antes dos dezasseis anos. E sempre que tentava ler os tais textos clássicos sobre feminismo, ficava entediada e mal conseguia terminar).
De qualquer forma, já que o feminismo era antiafricano, resolvi considerar-me uma «feminista feliz africana». Depois, uma grande amiga disse-me que, se eu era feminista, então devia odiar os homens. Decidi tornar-me então uma «feminista feliz africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e saltos altos para si mesma, e não para os homens».
É claro que não estou a falar a sério, queria ilustrar apenas o quão negativa é a carga da palavra feminista: a feminista odeia homens, odeia sutiãs, odeia a cultura africana, acha que as mulheres devem mandar nos homens; ela não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem sentido de humor, não usa desodorizante.
Agora vou contar-vos um episódio da minha infância."


Chimamanda Ngozi Adichie
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