Os melhores livros de Paul Auster

Por Ana Bárbara Pedrosa
29 de maio de 2024
Nasceu em 1947, morreu este ano. Para trás, Paul Auster, deixou uma obra contundente e um batalhão de leitores.
Podíamos ir aos dados biográficos, e vamos como quem não quer a coisa: licenciou-se na Universidade de Columbia, viveu em França, traduziu Breton, Sartre, Mallarmé, foi influenciado por Dostoievski, Beckett, Proust. Mas perdermo-nos na cronologia da vida de um autor acaba sempre por roubar espaço ao que importa, as palavras transformadas em frases, as frases transformadas em parágrafos, os parágrafos transformados em romances que mudam a cabeça de quem lê.
Ora, quem lê Paul Auster nem precisa de sair de casa para se ver em Nova Iorque. Pedra a pedra, o autor foi construindo uma obra que apresenta ao mundo o americanismo e, mais do que isso, o nova-iorquismo. Nisto, a vida não lhe foi só literatura: em 1998, realizou o seu primeiro filme, Lulu on the bridge. Auster notabilizou-se como autor, mas quem o tiver lido não se surpreende com a ligação ao grande écran, uma vez que se percebe a influência de um na outra. A sua prosa é rápida, quase física, o leitor vê enquanto lê, e não pára de ver nem de ler porque Auster escrevia ao ritmo de um thriller.
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Foto © Thomas Lekfeldt CC BY-NC-SA
Como Philip Roth, seu vizinho – se é que pode chamar-se vizinho a quem vive numa cidade como Nova Iorque –, o que escrevia tinha um quê de autobiográfico. Mas, longe de se afundar no eu, Auster metia histórias dentro de histórias, e para quem lia sobrava o redemoinho da prosa depurada que dava o que importava – a vida em bruto.
O sucesso e os leitores não chegaram do nada. Em 1981, assinou o seu primeiro contrato com uma editora. Eis o manuscrito Squeeze Play, publicado sob o pseudónimo de Paul Benjamin. O livro foi editado no ano seguinte e não há eufemismo que o safe: pouco vendeu, e apenas em duas livrarias da cidade. Como se não bastasse, a editora já se encontrava na altura em processo de falência. Dali, Auster seguiu para a Avon Books, que hoje pertence à Harper Collins.
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Os leitores conhecê-lo-ão por muitos livros que fizeram caminho. A Trilogia de Nova Iorque, (1985) é dos tais que põem qualquer leitor, de qualquer parte, naquele lugar enorme que o mundo se habituou a ver como um amontoado caótico de gente e arranha-céus. São três narrativas ambientadas na cidade, posteriormente agrupadas num único volume. Foi o livro que levou Auster ao mundo inteiro, e o mundo inteiro a Nova Iorque. Num rompante, o autor afirmava-se como o escritor da cidade, mostrando o caos e a violência das suas ruas.
Ruas essas que continuaram a ser musas. Vinte anos depois, a cidade continuava a ser personagem. As Loucuras de Brooklyn (2005) usa as eleições dos Estados Unidos de 2000 como pano de fundo. Mas, em primeiro plano, estão Nathan e Tom, tio e sobrinho. Acabam por acidente em Brooklyn, e então Auster dá a vida de todos os dias, os toques corriqueiros que acontecem e formam o dia-a-dia durante eventos que moldam os países e mudam o mundo – e lê-se sobre a procura de solidão numa cidade de milhões.
Já o romance 4 3 2 1 (2017) é uma experiência literária que é, por si só, o voo da literatura. Ali, quatro versões do mesmo homem vivem versões da mesma vida, consoante circunstâncias pontuais. Se a literatura não é essa cogitação, esse jogo de encaixe, essa hipótese que se arrasta até às últimas consequências, será o quê? Lê-lo é, por isso, assumir o jogo literário como cogitação, pergunta, teste.
Auster foi mais do que ficção, tendo sido também biógrafo de Stephen Crane – com Burning Boy – e tendo publicado um ensaio sobre a violência armada nos Estados Unidos – com Bloodbath Nation. Logo no início da sua carreira, em 1982, publicara A invenção da solidão, um livro de memórias (eis mais Nova Iorque), em que se juntam as recordações de infância aos seus primeiros anos como escritor.
Para além de escritor, tradutor, ensaísta, Paul Auster foi marido e pai, e foi pai em luto: em abril do ano passado, viu morrer o filho mais velho, de overdose. Daniel era também filho de Lydia Davis.
Após diagnóstico de cancro, Paul Auster morreu em abril de 2024. Para trás, ficou esta coisa toda, aqui resumida num tiro, e muito mais.

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