Os livros dos verões

Por Álvaro Curia
@literacidades
28 de agosto de 2024
Todos os anos, no fim de junho, a excitação das férias misturava-se com a certeza de que, no verão, descobriria novos livros para me encantar. É possível medir esses anos em livros e perceber de que forma fui crescendo acompanhado de histórias. Na infância e adolescência, estes foram os livros que mais marcaram a estação em que tudo é possível e onde a liberdade floresce.
Reinações de Narizinho
Tudo começou com personagens, claro. Mas algumas, para o rapazinho que fui, foram mais especiais do que outras. A série infantil O Sítio do Picapau Amarelo marcou a minha infância, ao trazer-me o Brasil, país de onde é originária a minha família, até casa. Narizinho, a boneca Emília, o Visconde de Sabugosa, a Dona Benta… um desenrolar de nostalgia sem fim. Os Serões de Dona Benta foi-me lido muitas vezes pela minha avó, em longos fins de tarde de verão, e podem encontrá-lo aqui em ebook. Reinações de Narizinho, o livro que inspirou a série, também andava lá por casa e era nele que eu encontrava toda a fantasia daquele lugar distante. Nesta edição, encontram toda a história, antes publicada sobretudo por capítulos isolados.
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Os Cinco e a Ilha do Tesouro
No campeonato entre Os Cinco, Os Sete e Uma Aventura, eu era definitivamente mais fã dos miúdos ingleses originais de Blyton. Para tal não foi alheio facto de ter encontrado em casa dos meus avós a coleção antiga de livros do meu pai, onde grande parte dos 21 títulos de aventuras dos cinco amigos estavam à espera que alguém voltasse a pegar neles. Comecei por esta ilha do tesouro e rapidamente fui conquistado. Nesse verão, lembro-me de tardes inteiras na boia, numa piscina, a conhecer a Zé, o Júlio, a Ana, o David e, claro, o Tim, o patudo do grupo. Neste volume, é onde tudo acontece: os amigos conhecem-se e a primeira missão é logo ali, numa ilha ao largo da praia onde passam férias. Hoje, vejo como estão bem construídas aquelas personagens e como uma série de livros terminada há mais de sessenta anos permanece tão relevante.
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Morte no Nilo
Lá por casa, num certo agosto, descobri a coleção Vampiro Gigante. E o que é que eu fui fazer à minha vida! Não larguei mais o mundo de Poirot e Miss Marple. As listas de suspeitos, a incrível capacidade de dedução daqueles dois, os crimes orquestrados sempre com grande mistério e que falavam de temas que o adolescente, que eu era, estava a começar a perceber que existiam no mundo: a inveja, a vingança, o ciúme, entre outros que tais. Coincidiu com a viagem que fiz com a minha avó ao Egito, e que ainda hoje continua a ser a melhor da minha vida, a leitura deste Morte no Nilo. Aquele cadáver descoberto a bordo de um cruzeiro no Nilo acabaria por me consumir as noites de Verão até que descobrisse quem tinha sido o responsável. Hercule Poirot dispensa apresentações e continuará pela eternidade a ser uma das figuras mais bem construídas da literatura mundial.
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A Cidade e as Serras
Mal terminei o nono ano, e decidi que a minha área de estudos seriam as Humanidades, senti que precisava de me antecipar e ler alguns dos clássicos sobre os quais, no ano letivo seguinte, iriam versar as aulas de Português. Trouxe da biblioteca uns quantos romances de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão e Camilo Castelo Branco, crente de que a partir de setembro era logo de rajada para esses que a professora ia apontar. Ledo engano, pois muito de poesia medieval havia ainda para falar, antes de chegarmos a estes nomes. Mas a tarefa revelou-se um prazer. Este A Cidade e as Serras fala-nos do regresso de Jacinto a Tormes, vindo de Paris, acompanhado do amigo Zé Fernandes, que é quem narra história. É uma história que contrapõe, como o título indica, as diferenças entre o mundo urbano e rural e cuja leitura me abriu portas ao fabuloso mundo dos clássicos do séc. XIX.
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Paula
Nesse verão, a minha mãe ficava muito tempo a ler um certo livro. Eu rondava-a à espera que ela o largasse, para que eu próprio pudesse ler com os meus olhos a razão de tanto encantamento. De facto, Paula, que li no julho dos meus dezasseis anos, continua a ser um dos livros da minha vida, e que me abriu portas a uma das autoras de que mais gosto e de quem li, depois, muitos livros. Allende escreve a história da sua família para a filha, Paula, que está em coma. Essa narração mistura-se com a história do próprio Chile e, mais tocante, com a procura que a escritora faz por se apaziguar com a ideia de que Paula vai partir e provavelmente não está a ouvir, nem muito menos irá ler, aquilo que a mãe lhe escreve. Foi o único livro, até hoje, que terminei em lágrimas.
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Lunário
Os tempos na universidade trouxeram-me a rebeldia que o adolescente não teve, tal como verões ainda maiores, cheios de tempo para descobrir os livros que já não eram os pais ou os avós que recomendavam, mas sim os amigos, crentes de que eu iria gostar. Este Lunario, li-o de uma assentada no início do Verão, quando ainda estava em Coimbra para os exames académicos, mas o calor já apertava. É um livro duro, que nos fala de um grupo de amigos que deambula pela cidade, entre noites de amor, grandes paixões, tiradas efusivas sob os efeitos do álcool, mas também manhãs de ansiedade, tudo à flor da pele, tudo vivido no extremo, sem terem a certeza de que estariam vivos no dia seguinte.
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Crime e Castigo
Foi o livro que marcou o meu início da idade adulta, e que li com uma voracidade tal que ainda hoje me espanta. Trata-se da primeira obra do autor russo e talvez aquela por que é mais conhecido. Nela encontramos Raskólnikov, um estudante a braços com uma situação financeira complicada, que toma uma decisão irrefletida, levando a um evento que vai marcar a sua vida para sempre, fazendo-o confrontar-se com noções basilares que assolam a consciência humana, como o perdão, a culpa e o arrependimento. Naquele Verão, o livro prendeu-me pela forma como esse acontecimento é descrito e pelo quanto de irracional têm as nossas ações, independentemente de poderem representar grandes repercussões ao longo da vida. Curiosamente, fiquei com vontade de ler o livro depois de ver uma personagem de uma série televisiva famosa a lê-lo e a falar sobre ele. Eram os influencers à moda dos anos 90!
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