Nestes livros e filmes as mulheres estão à frente da história

Por Álvaro Curia
@literacidades
17 de março de 2025
Quantas vezes ouvimos dizer que o livro é melhor do que o filme? Não nos opomos à generalização. Há, porém, casos em que é difícil afirmá-lo com toda a certeza. As adaptações destes livros ao cinema não produziram produtos culturais menos ricos. E, curiosamente, é a voz delas que marca o tom.
Anna Karénina, de Lev Tolstói
E um dos grandes romances da literatura russa, publicado entre 1875 e 1877 e narra a trágica história de Anna, uma aristocrata que abandona o casamento e o filho para viver uma tórrida e proibida paixão com o conde Vronsky. Mas a ilusão termina rapidamente, pois a sociedade russa do século XIX não perdoa a transgressão. A nossa protagonista mergulha num ciclo de culpa, ciúme e desespero que não levarão a bom porto. Paralelamente, o romance apresenta a trajetória de Konstantin Liévin, que procura sentido na vida através do trabalho, da fé e do amor. Neste que é um dos romances incontornáveis de Tolstói, o autor constrói um retrato profundo da moral, da hipocrisia social e dos dilemas humanos.
No cinema, Anna foi vivida em 2012, de forma magistral, por Keira Knightley, num filme de Joe Wright que propõe uma visão muito teatral do romance de Tolstói.
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Veja aqui o trailer de Anna Karénina









Lolita, de Vladimir Nabokov
Em Lolita, embora seja pela voz de Humbert que conhecemos os factos, é o silêncio da adolescente que fala mais alto, que nos impressiona. Não é uma história de amor, é uma história de uma obsessão criminosa de um homem adulto por uma adolescente. Não há nada de belo na forma como Humbert cobiça Lolita, mas é-nos difícil desligar das palavras do professor, por serem omnipresentes, por ser dele a fala no livro de Nabokov. A menos que nos centremos no silêncio de Dolores Haze, nas suas estratégias de sobrevivência à agressão a que é sujeita constantemente durante aqueles anos. Quando chora noites a fio, após perceber que a sua mãe morreu, é impossível não nos apercebermos de que a história contada é só sobre a violência e sobre mais nada.
Stanley Kubrick foi quem primeiro adaptou o livro ao cinema, mas a versão de Adrian Lyne, com Jeremy Irons e Dominique Swain, não lhe fica nada atrás:
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Veja aqui o trailer de Lolita
As Horas, de Michael Cunningham
A história atravessa três gerações de mulheres, ao longo do séc. XX, entrando em dimensões distintas das suas vivências, mas abordando, contudo, problemáticas comuns. De uma Virginia Woolf a braços com a sua depressão e com a tensão crescente, passamos para Laura Brown, uma esposa dedicada, grávida do segundo filho, que se quer libertar de uma prisão muito singular. Por fim, Clarissa, que vive na Nova Iorque na viragem do milénio, e que, embora muito mais livre do que as suas antecessoras, vive na procura por uma ordem, saudosista da sua juventude. Esta personagem, inspirada em Mrs. Dalloway, abarca as grandes problemáticas não apenas da obra de Woolf, mas é de uma humanidade tal que nos toca em algum ponto, independentemente do nosso contexto ou género.
No cinema, Stephen Darly produziu uma obra de arte de dimensão inquestionável, para a qual Nicole Kidman, Meryl Streep, Julianne Moore contribuíram muito, com atuações sublimes:
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Veja aqui o As Horas
Still Alice, de Lisa Genova
Um dos maiores desempenhos de uma atriz no cinema teve origem num livro que passou despercebido, até que fosse adaptado ao cinema. Mas a verdade é que vale a pena ler, pois apresenta a narrativa que conhecemos do grande ecrã com uma profundidade ainda maior. Nela, uma conceituada professora universitária recebe um diagnóstico raro e devastador. Já se apercebera de alguns sinais, curtas falhas de memória, estados confusos, mas ao saber que tem uma forma precoce de Alzheimer, Alice descrê da possibilidade de vir a desenvolver a forma mais brusca da doença. De um estado de negação, a personagem tem ainda tempo, antes de um total alheamento de si própria, de revelar uma força imensurável, uma determinação sem par. Daqueles que lemos, e vemos, de olhos rasos de lágrimas. Julianne Moore venceu finalmente o Óscar nesta adaptação de Richard Glatzer e Wash Westmoreland:
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Veja aqui o Still Alice.

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