Livros que exigem maratonas de leitura

Por Ana Bárbara Pedrosa
18 de julho de 2022
Se não há pernas que aguentem, dá pelo menos para se fazer maratonas de leitura. Seguem alguns livros que não apenas são difíceis de largar, como são difíceis de largar por muitas horas.
 
O conde de Monte Cristo
É de tal forma um calhamaço que costuma vir em dois volumes. Se o número de páginas pode assustar alguém, a verdade é que basta entrar para não se querer sair. Alexandre Dumas agarra como poucos, e este romance fascinou gerações, treinou escritores, encantou leitores. Eis a história de Edmond Dantès, uma das mais apaixonantes personagens da literatura mundial, com um arco narrativo que impressiona e não sai da memória. Acusado por um crime que não cometeu, é preso, e em cativeiro prepara a sua vingança. Ao conhecer o Abade Faria, inicia-se a sua transformação intelectual, e Dantès aprende sobre história, matemática, ciência, leitura e economia. Até falam sobre a melhor forma de fazer mexer espadas. Os dois determinam quem traiu Edmond e ei-lo então amargo e vingativo. Ao sair da prisão, leva anos de sofrimento e estratégia e está pronto para dar a volta às coisas.
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Grande Sertão: Veredas
É uma das grandes epopeias em língua portuguesa e um desafio para os leitores. Obra erudita, é um romance experimental modernista, e pela mão firme de Guimarães Rosa vemos o sertão brasileiro, algures, crê-se, entre a Bahia e Minas Gerais. É que, se há o Brasil real, também há o Brasil inventado, já que o autor não pôs fronteiras no trabalho literário. Da mesma forma, não as pôs no trabalho de linguagem, entregando aos leitores um romance original em matéria semântica e estilística. É com toda esta riqueza técnica que os leitores ouvem a voz de Riobaldo, ex-jagunço que relembra as suas lutas e também o amor reprimido por Diadorim. Publicada em 1956, ainda hoje não tem par na literatura em língua portuguesa. São mais de 600 páginas de força e coesão. Tem tudo, só não tem capítulos, razão pela qual é difícil saber onde fazer uma pausa na leitura.
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2666
É um tijolo de acção, um colosso de linguagem. Parte do Plano Nacional de Leitura, como livro recomendado para a Formação de Adultos, este romance póstumo de Roberto Bolaño é um dos mais prodigiosos em língua castelhana deste século. A ação é tecida com cuidado, estando todos os elementos bem entrelaçados. E é isso que prende o leitor – de início, não é claro o que liga quatro germanistas europeus a Oscar Fate, um repórter afro-americano. Lá está ele no México para cobrir um combate de boxe, e a partir daí cogita-se o que o ligará a um melancólico professor de filosofia, instalado com a filha em Santa Teresa. Depois vem tudo em catadupa: uma série de homicídios macabros e centenas de mulheres mortas no deserto de Sonora. Lê-se num estado de encantamento, como quem descobre o mundo e o entende. O que há num lado justifica o outro. Quem parece isolado tem peso na narrativa e na vida. Impossível de largar, 2666 é como um vício.
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Em busca do tempo perdido
São sete volumes, e como não amar cada um deles? A ação é lenta, a prosa é cuidada, e assim se fazem mais de 3500 páginas. Compõem uma das maiores obras da literatura universal, e tanta da literatura posterior foi ali beber. Em tantas folhas, deu para tocar em muito, mas sobressai o papel da memória. À morte da avó do narrador, eis as lembranças sem lugar para onde ir. Num romance com analepses e prolepses, Proust vai do mais íntimo da vida a discussões teóricas. Entre elas, a da arte como transformação da vida num objeto com potencial transformador. Em busca do tempo perdido exige paciência e atenção. É difícil que a primeira tentativa resulte. É possível que se comece sem se entrar. Quando se entra, é difícil sair. Depois de se sair, não se sabe bem o que se leu.
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