Livros que ainda cativam os jovens

Por Ana Bárbara Pedrosa
16 de maio de 2023
Não foi feito nenhum estudo de caso. O que aqui está é uma lista de livros que, tendo o peso do clássico, são uma garantia de baque. E, como se sabe, o baque, antes de se crescer tudo, aleija mais.
 
Pessoas normais
Sinceramente, estes dois até irritam. Connell e Marianne cresceram numa pequena cidade da Irlanda. Ele popular, ela solitária. Um dia, lá começam a falar e, como quem não quer a coisa, acende-se ali qualquer coisa: essa coisa qualquer é um fascínio de parte a parte. A partir daí, tudo é intenso, tudo é cirúrgico, tudo é emoção em força bruta.
Quem lê, se já tiver mais uns anos em cima, poderá tentar ver se se lembra onde raio se escondeu a intensidade da juventude. Quem for ainda jovem poderá julgar que a vida vai ser assim o tempo inteiro. Eu, claro, já digo isto imbuída do cinismo de quem passou dos trinta. No livro, temos uma paixão tão apaixonada que só sabe a amargura. Valem os momentos com, desespera-se nos momentos à espera de. Viver assim parece impossível – e, para quem vive assim, é impensável viver de outra maneira. É o maior privilégio da existência, o mais desconcertante também. E, para além disso, é uma utilização tal de energia que, se isto durasse muito tempo em toda a gente viva, a economia e a segurança social entravam em falência em dez minutos. Enfim, nem é preciso ler para se saber que o estado de paixão é semelhante a estar doente, mas ler é boa ideia na mesma.
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Viagem a Um Mundo Fantástico
Se é fantástico, deve ser bom. Do mesmo autor de O Mundo de Sofia, eis um romance de literatura infantojuvenil. Com elementos já conhecidos pelos leitores habi-tuais do autor norueguês, temos um livro que abre os olhos ao espanto. No centro, es-tão os mistérios do mundo; à sua volta, a curiosidade que faz querer mergulhar neles. E, saindo da Escandinávia, o leitor dá por si longe de cá e de lá, com os dois pés metidos em Sukhavati, onde vivem Lik e Lak. Os nomes são parecidos, e eles também, fruto de terem saído do útero ao mesmo tempo. Os gémeos ouvem Oliver contar-lhes uma his-tória que os encanta, sobre um planeta distante chamado Terra. Ora, como isto é do melhor que já se viu pela galáxia, eles decidem dar cá um salto. A magia, claro, é toda nossa: com um livro, Jostein Gaarder transforma-nos em aliens.
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Mil Sóis Resplandecentes
Este é um fenómeno literário, e lá andou ele, partindo da Ásia, por todo o mundo. Mil Sóis Resplandecentes abre os olhos de quem lê ao mundo. Em causa está um período de cerca de trinta anos no Afeganistão. No centro, duas mulheres casadas com o mesmo homem. Na vida delas, abusos infligidos, dentro e fora de casa. A violência durante o regime taliban não passa jamais por coisa pouca, e a literatura tem o condão de mostrar em vez de só dizer; de dar a realidade em carne viva em vez da rigidez de uma notícia; de pôr em cima da mesa a prática em vez da teoria. Se o propósito de um romance não é o mesmo que o do jornalismo, documentando tudo factualmente, a verdade é que a literatura tem sido um meio primordial das investigações de historiadores. Ao ler o livro, não importa o que é e o que não é ficção: o que interessa é a hipótese de vida que o autor constrói.
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Ética para Um jovem
O livro diz ao que vem no título, e os professores de filosofia apanharam a boleia. Bem me lembro, era eu jovem, de ler o livro após sugestão na escola. Se pensar sobre ética poderá não ser coisa fácil, viver sem ela é bem pior. Com uma prosa escorreita, Savater não doutrinou, mas meteu o leitor em frente à vida. Assim, a ética aparece como elemento fundamental das situações quotidianas: em vez da teoria, a prática; em vez do discurso intrincado, o peso, numa balança, das decisões que moldam. Mais do que um manual de instruções para a vida, é o pontapé de partida para um exercício de reflexão.
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