Livros para entendermos os Estados Unidos
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Para entender um país tão complexo, e os ventos que por lá correm, os livros são mesmo uma janela sem fim.
Banho de sangue americano
Em vez de usar a vida para fazer uma realidade, desta vez Paul Auster usou a primeira para espelhar a segunda. Neste livro, o autor norte-americano, conhecido ficcionista, faz o seu balanço sobre não só a facilidade mas também a idolatria do porte de armas na cultura do seu país. Isto, claro, vai a tudo: começa nas brincadeiras de infância, com armas de fogo a fingir, aos westerns que via na televisão e que as tornavam em coisas banais, e segue pelo seu próprio drama familiar, que inclui um crime cometido pela avó, escondido durante anos. Enfim, é o relato de uma vida em que as armas de fogo são um pão nosso de cada dia, em que podem estar em qualquer parte. Ao longo da narrativa, Auster faz muito mais do que descrever: em vez disso, vai ilustrando cada ação com parágrafos em que revela o seu pensamento crítico. O estilo é sempre o mesmo: prosa limpa, a ir ao osso. A novidade é o esqueleto: desta vez, o romancista fez-se comentador político e social. Além do texto, temos fotografias a preto e branco, tiradas por Spencer Ostrander, de alguns dos massacres mais conhecidos.
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Medo. Trump na Casa Branca
O título parte de uma citação de Trump. Em 2016, durante a campanha às presidenciais vencidas por Biden, lá estava ele: «Poder real é – eu nem quero usar a palavra – medo.» Ora, Woodward, que investigou oito presidências, de Nixon a Obama, fez aqui um relato sobre a vida dentro da Casa Branca, na era Donald Trump. Com prosa ágil, baseando-se em centenas de horas de entrevistas e usando informação em primeira-mão, como notas de reuniões, o autor conta como Trump decidia sobre os grandes assuntos da política atual e internacional. Como será expectável para quem quer que acompanhe a vida política de Trump, são inúmeros os episódios em que a falta de preparação de Trump pôs muita coisa em xeque. Por exemplo, Woodward relata momentos em que a equipa de Segurança Nacional tinha de lidar tanto com a falta de conhecimento do então presidente sobre as matérias como com preconceitos infundados em relação às posições das chefias. Como tudo tem ar de tragicomédia, Woodward conseguiu fazer um livro de não-ficção que parece uma distopia.
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Demasiado e Nunca Suficiente – Como a minha família criou o homem mais perigoso do mundo
E segue-se neste registo, embora partindo-se de outras lentes. Desta vez, o ambiente é familiar, e a autora é sobrinha de Donald Trump, focando-se aqui na história da própria família. Desengane-se quem esperar uma história de amor, tecida pelos laços de sangue. Em vez disso, Mary olha para Donald como o que é: um homem poderoso que é hoje uma ameaça para a segurança do mundo inteiro. Ora, partindo de dentro de uma casa, explica-se muito do que chega a vários pontos do planeta. Mary, que passou uma parte da infância na casa dos avós, onde Donald e os seus irmãos cresceram, relata um conjunto de relações destrutivas, frequentemente marcadas por abusos. Partindo dos seus padrões familiares, explicou muito do que se via naquele homem que ocupou a Sala Oval – e que pode vir a ocupá-la novamente. De vez em quando, chega a custar ler. O detalhe está lá, o tecido descobre-o. Enquanto descreve um ególatra, Mary mostra ainda um filho que, sendo o favorito do pai, o ridiculariza depois de adoecer. É um relato sobre uma das famílias mais poderosas do mundo, que só poderia existir vindo das mãos de um dos seus membros.
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A mercearia Céu & Terra
E terminamos com ficção, a ver se descansamos de tanta verdade, ainda que haja verdade também nas invenções. Aqui, temos um romance, e dos bons. A década também é outra: nos anos 1970, trabalhadores na Pensilvânia encontraram um esqueleto no fundo de um poço. Sempre é coisa para animar qualquer dia de trabalho. Lá quiseram saber quem eram os desgraçados para ali atirados, desvendando um dos segredos bem guardados dos residentes daquele bairro, bairro esse, decrépito, onde viviam imigrantes judeus e americanos africanos. Claro, procurando a verdade, lá se consegue encontrá-la, mas o leitor encontra mais do que isso, num livro que vai muito além do enredo: por muito que interesse saber os nomes dos mortos, interessa também ver de que forma o poder instalado branco se mexia entre as sombras. Ou seja, mais do que sobre Chicken Hill, o bairro onde tudo isto acontece, o romance é sobre a América branca e cristã e as comunidades que vivem às suas margens, em relação de alteridade, buscando o que se busca todo o dia: sobreviver.
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