Leia sobre quem não quer tirar a máscara

Por Ana Bárbara Pedrosa
18 de maio de 2022
Depois do debate sobre se devemos ou não andar de máscara na rua, podemos olhar para personagens que, ao longo de um romance inteiro, nunca a tiraram. Numa página encantam, noutras repugnam, e o leitor anda sempre sem trapézio.

 
Vadinho
Sente-se o sofrimento de Dona Flor. O amor por Vadinho é sério, e ele diz que o dele por ela também é, mas Dona Flor suporta-lhe as mentiras e as traições. Malandro a tempo inteiro, põe a máscara em casa – tudo o que lhe promete não tem em conta o sofrimento que lhe causa. Jura-lhe amor, mas mete-se na cama com outras, e Dona Flor ata-se a um casamento que é tórrido em todos os aspectos. A personagem de Vadinho acaba por agradar e irritar o leitor, já que a sua tão evidente canalhice vicia a leitura. O romance é um dos mais divertidos de Jorge Amado. Depois da morte de Vadinho, Dona Flor casa com Teodoro, bem comportadinho, antítese do morto. Para além de lhe faltar a canalhice, falta aquela qualquer outra coisa.
VER MAIS »








 
Lorde Baelish
É das mais surpreendentes personagens deste romance monumental. A Guerra dos Tronos tem dezenas de personagens, a ação pauta-se pelo inesperado, por nunca ceder às evidências. Ainda que, volvidos os primeiros capítulos, o leitor já esteja à espera de qualquer coisa, Martin consegue sempre surpreender. Levou a um romance com fantasia (com mortos-vivos, magia e dragões) os aspectos mais profundos da humanidade: a tentativa de sobrevivência à força toda, o amor como pulsão, o que se faz pelo poder. Aliado ao medo de se ser relegado para canto, vê-se a traição como ferramenta política. Tudo vale para quem precisa de ver uma cabeça cair. Aqui, Lorde Baelish é crucial. Diz uma coisa, faz outra. Jura lealdade a um homem enquanto lhe planeia a morte. Dá os pêsames enquanto só tem indiferença para com o cadáver. Por momentos, parece julgar-se que há dentro de si um sentido de lealdade para com esta ou aquela, mas nele tudo é manipulação e jogo.
VER MAIS »
Severus Snape
É impossível ler a série Harry Potter sem ficar zonzo com Snape. Mesmo fora da literatura infanto-juvenil, Severus Snape é das personagens mais bem construídas da literatura coetânea. Em si, tudo é cinzento. Ao longo dos primeiros cinco livros, o leitor olha para ele com dúvidas. Ao sexto, tem todas as certezas. Ao sétimo, descobre que afinal estava enganado. É difícil ver uma só personagem a provocar tantas discussões entre os leitores, e J. K. Rowling conseguiu esse debate pelo seu dom exímio de manipular o leitor, escondendo o que dar e quando dar. Ao acabar de ler a série, que é afinal sobre outra personagem, é Snape quem fica a fazer mossa durante muito tempo. Ter duas caras impediu-o de não ter nenhuma vida. Fingir que era leal a quem odiava e fingir que odiava quem estava do seu lado da batalha transformou-o num dos enigmas mais bem montados que existem em forma de romance. Snape desistiu da vida e de ser amado e só depois da morte, e por acaso, se pôde chegar a alguma verdade sobre si.
VER MAIS »

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!