Leia sobre quem não quer tirar a máscara
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18 de maio de 2022
Depois do debate sobre se devemos ou não andar de máscara na rua, podemos olhar para personagens que, ao longo de um romance inteiro, nunca a tiraram. Numa página encantam, noutras repugnam, e o leitor anda sempre sem trapézio.
Vadinho
Sente-se o sofrimento de Dona Flor. O amor por Vadinho é sério, e ele diz que o dele por ela também é, mas Dona Flor suporta-lhe as mentiras e as traições. Malandro a tempo inteiro, põe a máscara em casa – tudo o que lhe promete não tem em conta o sofrimento que lhe causa. Jura-lhe amor, mas mete-se na cama com outras, e Dona Flor ata-se a um casamento que é tórrido em todos os aspectos. A personagem de Vadinho acaba por agradar e irritar o leitor, já que a sua tão evidente canalhice vicia a leitura. O romance é um dos mais divertidos de Jorge Amado. Depois da morte de Vadinho, Dona Flor casa com Teodoro, bem comportadinho, antítese do morto. Para além de lhe faltar a canalhice, falta aquela qualquer outra coisa.
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Lorde Baelish
É das mais surpreendentes personagens deste romance monumental. A Guerra dos Tronos tem dezenas de personagens, a ação pauta-se pelo inesperado, por nunca ceder às evidências. Ainda que, volvidos os primeiros capítulos, o leitor já esteja à espera de qualquer coisa, Martin consegue sempre surpreender. Levou a um romance com fantasia (com mortos-vivos, magia e dragões) os aspectos mais profundos da humanidade: a tentativa de sobrevivência à força toda, o amor como pulsão, o que se faz pelo poder. Aliado ao medo de se ser relegado para canto, vê-se a traição como ferramenta política. Tudo vale para quem precisa de ver uma cabeça cair. Aqui, Lorde Baelish é crucial. Diz uma coisa, faz outra. Jura lealdade a um homem enquanto lhe planeia a morte. Dá os pêsames enquanto só tem indiferença para com o cadáver. Por momentos, parece julgar-se que há dentro de si um sentido de lealdade para com esta ou aquela, mas nele tudo é manipulação e jogo.
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Severus Snape
É impossível ler a série Harry Potter sem ficar zonzo com Snape. Mesmo fora da literatura infanto-juvenil, Severus Snape é das personagens mais bem construídas da literatura coetânea. Em si, tudo é cinzento. Ao longo dos primeiros cinco livros, o leitor olha para ele com dúvidas. Ao sexto, tem todas as certezas. Ao sétimo, descobre que afinal estava enganado. É difícil ver uma só personagem a provocar tantas discussões entre os leitores, e J. K. Rowling conseguiu esse debate pelo seu dom exímio de manipular o leitor, escondendo o que dar e quando dar. Ao acabar de ler a série, que é afinal sobre outra personagem, é Snape quem fica a fazer mossa durante muito tempo. Ter duas caras impediu-o de não ter nenhuma vida. Fingir que era leal a quem odiava e fingir que odiava quem estava do seu lado da batalha transformou-o num dos enigmas mais bem montados que existem em forma de romance. Snape desistiu da vida e de ser amado e só depois da morte, e por acaso, se pôde chegar a alguma verdade sobre si.
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