Leia o Inverno em qualquer altura do ano

Por Ana Bárbara Pedrosa
17 de janeiro de 2020
Confortável no sofá ou de férias na praia, há livros que lhe espetam com o Inverno em cima. Se as descrições são reais, uma manta não basta para lhes tapar o efeito.


A Guerra dos Tronos
O Inverno está a chegar. Tantos leitores chegaram lá antes de mim que passei anos a ouvir esta frase sem perceber porquê. Mas começa a leitura e o mistério desfaz-se: a família Stark vive em Winterfell. Olhando para lá, só se vê frio, e mesmo assim o mal maior está para chegar: o Inverno duradouro, perigoso, mortal, como já não se via há muito tempo. Os pequenos não o levam tão a sério, não têm memória do gelo a entrar nos ossos. Para os adultos, o medo é um foguete.
Podemos estar numa praia na República Dominicana, que Martin não brincou ao fazer as suas descrições: ao ler, sente-se o Inverno. As botas calcam a neve, os corpos têm de estar abraçados por casacos e peles. Onde se puder ter fogo, há que acendê-lo. O frio é tanto que até os frios mortos congelam. Fora de muralha que protege Winterfell, ainda vivem outros, mais precários, também eles no meio do gelo. Ali a vida é a luta contra os graus negativos, e lá se faz, como tem de ser.
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No Inverno
Knausgård conquistou leitores pelo mundo fora com a sua obra monumental A Minha Luta, um conjunto de seis volumes em que explora e detalha a sua vida. Ali, já vemos os lugares frios por onde passa, e o detalhe é tanto que lemos a respiração a condensar no ar da Suécia e no da Noruega. Vemos a Escandinávia a partir do interior de algumas casas, mergulhando na constituição de uma família. Em No Inverno, que faz parte de uma tetralogia, em que cada volume corresponde a uma estação do ano, e em que Knausgård explora temas para ensinar à filha que vai nascer, temos uma série de momentos lentos em que o autor vai divagando sobre os elementos que lhe marcam o Inverno: a água, a forma da lua, a neve. É um livro que se lê devagar, mergulhando num ponto de vista sobre o que parece estático.
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Cadernos do Subterrâneo
Qualquer desculpa é boa para ler este colossal prosador. Neste romance, temos Dostoiévski elevado ao cubo: o tom é duro, o cenário é sombrio, o frio é omnipresente, o desconforto moral nunca nos larga. Há ali uma decadência omnipresente, um mal-estar que se adensa a cada página. Publicado pela primeira vez em 1864, o livro já está imbuído das características que viriam a marcar a obra do autor russo no seu tudo, incluindo a desolação e a angústia, já que, no monólogo que abre o romance, o protagonista humilhado continua a humilhar-se. Na segunda parte do livro, o mesmo protagonista fica em ação, e o seu ego frágil embate com os outros elementos da sociedade. Tudo se passa no meio do frio, e dá vontade de um calor que ameniza o impacto.
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Inverno
Este livro faz parte do quarteto de Ali Smith, cujos títulos são semelhantes ao quarteto de Knausgård. Aqui, nas vésperas do Natal, quatro pessoas juntam-se num casarão de campo, de onde têm vista para a pós-verdade, incluindo uma que é perseguida por uma cabeça sem corpo. Na casa, vivem com o fantasma da morte de amores, e o Inverno vai trazendo à luz o que até então fora invisível. Vê-se a desolação, sente-se o vento frio, os dias estão mais curtos, as árvores estão mais despidas, e a pouca coisa que sobra vai deixando muita coisa a nu.
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