Bem-vinda, Primavera
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
Chegámos àquela altura do ano em que damos conta do esplendor da Natureza, adormecido durante o Inverno. Mais do que uma estação, a Primavera é um estado de alma que nos parece afetar a todos. Até pode nem começar logo com o cumprimento das nossas expectativas de tempo morno, céu azul e dias límpidos. Mas ela chegou, finalmente. E isso permite-nos pensar em esperança, num mundo em constante tumulto. Para não dizer que não falámos de flores, cá estão elas, a simbolizar a entrada da estação mais colorida do ano: nas capas, nos títulos e nas histórias de três livros muito especiais.
VIOLETA
Allende sabe contar histórias e esse é, porventura, o seu maior segredo. A escritora acompanha-nos desde há muito, trazendo-nos uma literatura fiável, aquele livro-conforto onde sabemos que vamos encontrar personagens passíveis de serem nossas mães ou filhos.
Neste Violeta, Allende traz-nos uma vez mais uma América do Sul em tumulto, desta vez num país não referido, mas que se acredita sempre ser o Chile. Uma América do Sul una, que pulsa consoante os batimentos de um único coração, ao qual foi a insensatez do invasor que imprimiu fronteiras. Neste país existem os Del Valle, família privilegiada, que de repente perde tudo devido à Grande Depressão dos anos 30, e tem de se mudar para o extremo sul da nação, uma terra inóspita, onde Violeta, as suas tias, a mãe doente, Miss Taylor (a tutora inglesa) e Torito, esse leão com coração de ouro, se veem despojados de qualquer luxo e têm de lidar com as vicissitudes de uma vida inconstante. Violeta nada tem de conformismo. Trata-se de uma grande carta que Violeta escreve a Camilo e um dos fatores mais bem trabalhados por Allende é a forma como o leitor se apercebe de que está perante uma carta a alguém, quem são, e em que momento das suas vidas estarão essas duas personagens: a que escreve e a que lê. Muito nos ficou deste romance, mas destacamos a figura de Torito, nos seus caminhos pelas montanhas e no cruel desenlace que a trama lhe reservou. É uma daquelas personagens à Allende. E com isto muitos saberão do que falo.
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Neste Violeta, Allende traz-nos uma vez mais uma América do Sul em tumulto, desta vez num país não referido, mas que se acredita sempre ser o Chile. Uma América do Sul una, que pulsa consoante os batimentos de um único coração, ao qual foi a insensatez do invasor que imprimiu fronteiras. Neste país existem os Del Valle, família privilegiada, que de repente perde tudo devido à Grande Depressão dos anos 30, e tem de se mudar para o extremo sul da nação, uma terra inóspita, onde Violeta, as suas tias, a mãe doente, Miss Taylor (a tutora inglesa) e Torito, esse leão com coração de ouro, se veem despojados de qualquer luxo e têm de lidar com as vicissitudes de uma vida inconstante. Violeta nada tem de conformismo. Trata-se de uma grande carta que Violeta escreve a Camilo e um dos fatores mais bem trabalhados por Allende é a forma como o leitor se apercebe de que está perante uma carta a alguém, quem são, e em que momento das suas vidas estarão essas duas personagens: a que escreve e a que lê. Muito nos ficou deste romance, mas destacamos a figura de Torito, nos seus caminhos pelas montanhas e no cruel desenlace que a trama lhe reservou. É uma daquelas personagens à Allende. E com isto muitos saberão do que falo.
FLORES
Quanto mais de nós próprios Afonso Cruz nos poderá contar? Estamos em cada uma destas personagens, somos os seus medos, somos os breves esgares de alegria, aquela ida à janela para respirar e onde vemos o inusitado acontecer. Em Flores, Afonso Cruz traz-nos uma série de quadros que se conjugam na vida de um homem que não é supersticioso mas detesta chapéus em cima da cama. Um prédio onde se tenta fazer um baile no terraço, para avivar memórias. A personagem principal busca resgatar ao esquecimento total as memórias de um vizinho com o qual pouco falara, até que passa a falar todos os dias. Esquece-se de se martirizar por outras razões, como o desfalque de sentimentos a que remete o seu casamento, o descuido com que trai, com que se deixa ouvir ao espelho a imaginar conversas. Por trás de si próprio e da sua história, o homem que procura as memórias de outro (e o quão mais poética pode a literatura ser?) encontra-se perante as recriadas irmãs Flores, cada uma a seu jeito, mas delas sobressaindo a fadista, tão perseguida, tão imagem que criamos de uma grande dama (Lisboa?) em constante redenção. Flores é uma viagem que fazemos por retratos, um puzzle que vamos construindo, mas que tememos completar. Não queremos que acabe. Sabemos que o fim está perto, mas não queremos perder aquela sensação boa de estarmos a ler um livro e estarmos constantemente a pousá-lo no colo e a pensá-lo, a abri-lo.
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Autobiografia Não Autorizada
As crónicas de Dulce Maria Cardoso são de uma grande generosidade para com os leitores, falam-nos muito de nós próprios, através de grandes momentos da vida mas sobretudo no quotidiano dos breves acontecimentos, que por vezes alteram o rumo dos dias. Esta é também uma autobiografia bastante original já que, embora escrita pela própria pessoa que vive os acontecimentos, é não autorizada. Leva-nos a questionar se aqueles acontecimentos se passaram realmente daquela forma, se determinadas pessoas tiveram aquele papel ou tomaram aquelas decisões. Este jogo constante entre um real muito vívido, de quedas, computadores, sabores de frutos tropicais e flores, e uma imaginação que nos dá sempre o ponto de vista de quem narra, torna a leitura destas crónicas uma experiência íntima e de onde retiramos muitos espaços de encontro. A atualidade deste livro leva-nos já para a pandemia que assola o mundo e para as consequências que tem na organização da vida familiar, no processo de entendimento da solidão desencadeada pelos confinamentos e pelo ambiente de dúvida quanto ao que está ao virar da esquina. Não é um livro sobre a vivência da pandemia, mas é um livro onde esta surge muito naturalmente no quotidiano de uma mulher. Há momentos de uma imensa ternura, particularmente na relação da autora com a sua mãe, de entrega, de memórias de uma infância em trânsito e muitos espaços onde nos conseguimos rever em dúvidas, pensamentos, reflexões extremamente verosímeis, precisamente porque reais.
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