Julieta Monginho

Por Álvaro Curia
@literacidades
25 de setembro de 2024
Há qualquer coisa de muito belo na forma como Julieta Monginho nos entrega histórias. Em linguagem musical, dir-se-ia que de uma voz de veludo subitamente sobressai um trompete, o metal dramático a interromper a textura de pétala de flor. E que bem que fica. De histórias de refugiados, aos dilemas de três gerações de mulheres, passando pela ideia de uma fuga em direção ao mágico e terminando com um relato impressionante de uma mulher à margem de si própria, a minha paixão pelo escreve Julieta Monginho foi um crescendo. Uma viagem que tem como denominador comum uma prosa de uma originalidade estonteante, de onde saímos mais conscientes de nós, do nosso corpo e do mundo que nos rodeia.
Um muro no meio do caminho
A literatura como forma de nos questionarmos sobre os diferentes mundos pessoais, numa história em que o denominador comum é a humanidade das aspirações e dos sentimentos, que abarca sonhos, mas que também fere. O que trazem consigo os refugiados? Os parcos pertences contrastam com as vivências, e a esperança que carregam embate no muro de maldade e desprezo com que são recebidos às portas do mundo que procuraram. Salvam-se os que ajudam, e que bem os conhecemos aqui. Os que acorrem e os que chegam têm uma densidade emocional que constrói castelos no ar, para quem, por contraste, a desilusão pode provocar mudanças estruturais permanentes. Quem somos e o que entendemos dos outros?
A terceira mãe
Há vidas que são caminhos de solidão e consecutivas perdas. Não há como dizê-lo de outra forma: há pessoas a quem a vida não tratou bem. Tolheu-lhes os passos, submetendo-as a um homem, à sociedade, ao expectável, ao medo da mudança. Acompanhamos uma vida assim, desde a infância à velhice, rodeada de outras gerações, que forçosamente comportam dimensões tão distintas, sobretudo no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade, à liberdade, à forma como é vista. A par com Corpo Vegetal, o seu livro mais recente, A Terceira Mãe é o livro da autora onde a mulher assume de forma mais evidente o seu protagonismo, em diferentes dimensões e com uma abrangência de reflexões que vai muito além do óbvio.
Volta ao mundo em vinte dias e meio
Quantas vezes não fugimos, ao longo da vida? Pode a fuga ser uma estratégia de defesa como qualquer outra? Fugir para dentro de um livro, de um quadro, tornarmo-nos personagens de uma lenda, de uma história inventada. Sobretudo quando somos crianças, e quando o mundo nos fere, é fácil deixar cair o pacto com a realidade e viajar por aí, encontrando dilemas mais fáceis de resolver do que aqueles que a realidade nos apresenta. Neste livro, existe essa criança. Vamos cada vez mais longe, primeiro para dentro da “onda da Noite”, depois para os mitos, o Alentejo reinventado, as ligações entre o país e uma cidade abaixo do nível do mar. É, de todos os que li, o livro da autora em que mais a fantasia se mistura com o real. Mas serão as nossas viagens, realmente, imaginadas?
Corpo vegetal
Estou em estado de enamoramento com o mais recente livro de Julieta Monginho. Tanto que, para mim, é a melhor leitura que fiz em 2024. É incrível a forma como somos apresentados a esta mulher, que duvida do seu consentimento, que está entre a decisão de avançar com aquilo que o seu corpo e a sua convicção lhe dizem ou ceder ao que lhe é imposto. Estamos com ela no quarto, na cozinha, acompanhamos os diferentes estados por que passa até tomar uma decisão. É muito densa a forma como a autora nos insere nos ambientes seguros da personagem, para depois nos apresentar o episódio horrível, a quebra, sem nunca haver a intuição de chocar ou romantizar, mas antes de criar espaços de interpretação, de expressão, que adicionam espessura literária. A ter de escolher entre um futuro livro a ler, que seja este, porque nos mostra tão bem a dimensão de que é feita a literatura.

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