Netflix e HBO: também há em livro

Por Ana Bárbara Pedrosa
17 de janeiro de 2020
Chegam-nos pelo ecrã, mas, antes disso, passaram pela gráfica. As plataformas de streaming deixaram-nos expostos a cada vez mais histórias de ficção, e é bem verdade que têm roubado tempo à leitura. Ainda assim, é de notar que, antes de terem uma cara, as personagens tinham o nome numa página.


 
TU
Tu (You no original) é, neste momento, uma das séries mais vistas na Netflix. Vamos na terceira temporada e a premissa, criada por Caroline Kepnes, agarra logo: um homem fica obcecado com uma mulher, persegue-a, invade a sua vida privada e, entretanto, como quem não quer a coisa, vai assassinando quem se mete no caminho. Chama paixão à sua compulsão. Na série, contamos com a atuação de Penn Badgley, que dá vida a Joe Goldberg. Com o corpo magro, a voz dócil e as boas maneiras, Joe parece inofensivo a priori. Aliás, fora tudo o que faz à socapa, até parece o namorado ideal. No livro, Joe é mais agressivo, mais misógino, mais intempestivo, embora para fora mantenha a aparência de calmo e preocupado. A escrita na primeira pessoa permite ao leitor estar permanentemente na cabeça deste livreiro, vendo o mundo a partir dos seus raciocínios e das histórias que inventa.
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O TIGRE BRANCO
Talvez, neste momento, seja difícil pensar n’O Tigre Branco sem pensar em Adarsh Gourav, que lhe deu corpo no ecrã, mas o filme partiu do livro homónimo de Aravind Adiga, que venceu por unanimidade o Booker Prize em 2008. Sendo um romance de estreia, impressionou pela forma como mostrava a violência da Índia e o escândalo das desigualdades sociais. A prosa é epistolar, sendo uma carta dirigida ao primeiro-ministro chinês. O autor, Balram, que se diz um «empreendedor social», descreve a sua ascensão de pobre aldeão a empresário. Balram faz o retrato de uma sociedade bruta e impiedosa em que cada pessoa tem o seu lugar: uns são louvados, os outros menosprezados. A forma como os de baixo são anulados e se anulam impressiona e choca, sendo impossível ver o filme ou ler a obra sem que a desigualdade de um país seja o ponto de partida para analisarmos a condição individual.
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O INTRUSO
Stephen King é o autor mais adaptado do mundo para formato audiovisual. No ano passado, chegou à HBO a série The Outsider, baseada no livro do autor norte-americano que em Portugal foi publicado com o título O Intruso. O drama criminal que vemos no ecrã partiu de um livro que, na edição da Bertrand, tem mais de 500 páginas. É nessas páginas que King cria o mistério e o resolve, apesar de tudo parecer um caminho sem saída. É que, ao longo do romance, tudo aponta para que o assassino de um rapaz de onze anos seja Terry Maitland. O detetive até quer prendê-lo, já que o ADN encontrado no local do crime confirma que ele é o culpado da morte da criança. Contudo, o álibi de Terry parece não só forte mas também inabalável: na hora da morte, encontrava-se noutra cidade e tem inúmeras testemunhas. A série está bem realizada, mantendo o suspense, mas o livro de Stephen King permite-nos ver o drama a partir de dentro.
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OLIVE KITTERIDGE
Dirigida por Lisa Cholodenko e escrita por Jane Anderson, a série Olive Kitteridge teve o condão de nos fazer dar uma cara à personagem homónima. Mesmo depois de termos lido os livros, dificilmente iremos dissociá-la das expressões da atriz Frances McDormand. Olive é uma personagem fascinante, de tão desagradável. A sua forma direta e honesta parece estar desligada das regras sociais, e a sua agressividade nunca é amansada para ter menos efeito. Se, no primeiro livro, vemos o que parecem os traços gerais de uma vida (as décadas que passaram, o casamento feliz ou infeliz, o filho), no segundo vemos o que acontece quando já tudo parece ter acontecido. E é a forma como Olive se vê a encarar a velhice, a viuvez, a partida do filho para outra cidade, que nos dá os contornos humanos desta obra, sempre cheia de ressentimentos e de um orgulho que, muitas vezes, parece ter o condão de estragar tudo à volta.
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PESSOAS NORMAIS
O livro tem 248 páginas, a série da HBO tem 12 episódios, cada um com menos de meia hora. Sally Rooney escreveu a história e foi ao osso. Parece que o segredo da série é a forma como as palavras importam pouco: Marianne e Connell olham-se, vivem de subentendidos, aproximam-se e afastam-se quase no mesmo movimento. Rooney conseguiu fazer o mesmo com palavras e, no seu livro, vemos só o que importa, sem pó à volta. Não os vemos em silêncio a olhar um para o outro, mas sentimos a tensão de quem quer sem admitir. Nos dois adolescentes, vive ainda o substrato das classes sociais de onde vêm, e Rooney tratou a pinças a forma como o lugar de partida condiciona o de chegada.
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