«J'ai été Madame Bovary»
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1 de julho de 2024
Eu fui Madame Bovary. E não fui só eu. Nisto não tenho como ser especial. Verdade seja dita, em quase nada. Mas amar Madame Bovary é uma atividade coletiva que devia ser considerada desporto olímpico. É estabelecermos isto e eu tatuo já os seis aros no braço. *
Quem a lê compadece-se com ela. Poucas páginas depois do início, até o coração mais gélido se põe na fórmula de sempre: pobre Ema Bovary. Aquela vida lassa, principalmente para quem se põe perante a aventura sem nome e sem fronteiras da leitura de um romance, sabia a coisa tão pouca, a coisa tão comezinha, a coisa tão sem sal. Claro que a mulher teve de pôr tempero na vida. O marido, que até podia mandar estilo por ser médico, era um atado, uma banalidade perdida no dia-a-dia. E ela sabia que o casamento ia condená-la a uma casa, a viver sem alegria, a viver sem saltar de para-quedas. Ainda por cima, o que lia nos livros era sempre outra coisa. Nós, pobres leitores, sempre temos de nos compadecer com isto: quem nunca quis vestir o manto de Gryffindor em vez da t-shirt de ginástica?
A vida era seca, a cabeça era fértil. E homens, claro, era o que mais havia. E todos eles pareciam melhores do que o secante Charles Bovary. Dali a procurar vida nos amantes foi um tiro. Lá se apaixonou por Léon Dupuis, mas a coisa não passou da paixão. Chegou Rodolphe Boulanger, e andavam os dois pelas ruas sem disfarçar o que se passava entre os lençóis. Na literatura como na vida, o marido era o último a saber – no caso, era mesmo o único que nem sequer sabia. E, em plena fase de enlevo, o amante largou-a, e foi aqui que se fez crápula, mas crápula dócil: na carta de término, foi derramando – que coisa linda – gotas de água para fingir que ali deixara os olhos. Primeiro deprimida, depois aborrecida, Ema Bovary meteu-se então com Léon – e desta vez cansou-se dele. O adultério pode ser tão sem-graça quanto um casamento burguês sem carrocéis.
Quem a lê compadece-se com ela. Poucas páginas depois do início, até o coração mais gélido se põe na fórmula de sempre: pobre Ema Bovary. Aquela vida lassa, principalmente para quem se põe perante a aventura sem nome e sem fronteiras da leitura de um romance, sabia a coisa tão pouca, a coisa tão comezinha, a coisa tão sem sal. Claro que a mulher teve de pôr tempero na vida. O marido, que até podia mandar estilo por ser médico, era um atado, uma banalidade perdida no dia-a-dia. E ela sabia que o casamento ia condená-la a uma casa, a viver sem alegria, a viver sem saltar de para-quedas. Ainda por cima, o que lia nos livros era sempre outra coisa. Nós, pobres leitores, sempre temos de nos compadecer com isto: quem nunca quis vestir o manto de Gryffindor em vez da t-shirt de ginástica?
A vida era seca, a cabeça era fértil. E homens, claro, era o que mais havia. E todos eles pareciam melhores do que o secante Charles Bovary. Dali a procurar vida nos amantes foi um tiro. Lá se apaixonou por Léon Dupuis, mas a coisa não passou da paixão. Chegou Rodolphe Boulanger, e andavam os dois pelas ruas sem disfarçar o que se passava entre os lençóis. Na literatura como na vida, o marido era o último a saber – no caso, era mesmo o único que nem sequer sabia. E, em plena fase de enlevo, o amante largou-a, e foi aqui que se fez crápula, mas crápula dócil: na carta de término, foi derramando – que coisa linda – gotas de água para fingir que ali deixara os olhos. Primeiro deprimida, depois aborrecida, Ema Bovary meteu-se então com Léon – e desta vez cansou-se dele. O adultério pode ser tão sem-graça quanto um casamento burguês sem carrocéis.
A edição da Porto Editora de Madame Bobary
Com isto, não há fórmula mágica: nem o aborrecimento daquele casamento, nem a sua cura. Mas há a ironia máxima, bela, voadora, de alguém que se deixa iludir pelos livros, neste que será a coqueluche dos romances em que se espraiam as traições. Depois disto, quem procura livros com a facada nas costas deve ir prevenido: é mesmo a descer. E, claro, para o leitor não há moralismo que se aguente: a literatura faz-nos outros. Se lemos Madame Bovary, somos Madame Bovary também.
Mas não somos Peter Pettigrew. Não quero saber de quantas vezes o leio, o lemos, não sou nem somos esse horror. Quem o viu no filme – Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – bem viu a cara de rato que deram a Timothy Spall, coitado, que só estava a trabalhar. Quem não viu o filme também não precisa da prova, que a prova é o papel: J. K. Rowling descreveu-lhe o focinho afiado – o nariz, digo –, as mãozinhas rechonchudas em busca de qualquer coisa, os olhos pequenos aflitos à procura de um caminho. É que Pettigrew era um Animagus – feiticeiro que sabia transformar-se em animais, e qual é o homem decente que escolhe ser um rato? Ser e, pior ainda, viver como um em toda a linha: durante 13 anos, Peter viveu no corpo de um rato, e ainda teve o desplante de se fazer adotar pela família Weasley, e depois dormir no bolso do melhor amigo do fofíssimo Harry Potter. Da minha parte, a solução é clara e é dada a priori: nunca é boa ideia ter um rato. E ainda por cima este: nem era preciso fazer-se bicho peludo para ser rato na forma de agir. Por cobardia infame, Peter Pettigrew traiu Lily Evans e James Potter, levando-os à morte, agindo em favor de Voldemort. Ao trair uns amigos, culpara outro, e o pobre Sirius Black é que se meteu numa prisão em alto-mar cercada por Dementores – criaturas negras que sugam a alma e a alegria de viver. Dois amigos mortos, um amigo preso, mais um descrente na vida em geral, e um rapaz órfão prestes a viver uma infância infeliz, tortuosa: eis o resultado da traição de Peter Pettigrew. Por isso, por muito que possamos dizer, como disse Flaubert, que «Madame Bovary, c'est moi», jamais diremos «I am Peter Pettigrew».
Mas não somos Peter Pettigrew. Não quero saber de quantas vezes o leio, o lemos, não sou nem somos esse horror. Quem o viu no filme – Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – bem viu a cara de rato que deram a Timothy Spall, coitado, que só estava a trabalhar. Quem não viu o filme também não precisa da prova, que a prova é o papel: J. K. Rowling descreveu-lhe o focinho afiado – o nariz, digo –, as mãozinhas rechonchudas em busca de qualquer coisa, os olhos pequenos aflitos à procura de um caminho. É que Pettigrew era um Animagus – feiticeiro que sabia transformar-se em animais, e qual é o homem decente que escolhe ser um rato? Ser e, pior ainda, viver como um em toda a linha: durante 13 anos, Peter viveu no corpo de um rato, e ainda teve o desplante de se fazer adotar pela família Weasley, e depois dormir no bolso do melhor amigo do fofíssimo Harry Potter. Da minha parte, a solução é clara e é dada a priori: nunca é boa ideia ter um rato. E ainda por cima este: nem era preciso fazer-se bicho peludo para ser rato na forma de agir. Por cobardia infame, Peter Pettigrew traiu Lily Evans e James Potter, levando-os à morte, agindo em favor de Voldemort. Ao trair uns amigos, culpara outro, e o pobre Sirius Black é que se meteu numa prisão em alto-mar cercada por Dementores – criaturas negras que sugam a alma e a alegria de viver. Dois amigos mortos, um amigo preso, mais um descrente na vida em geral, e um rapaz órfão prestes a viver uma infância infeliz, tortuosa: eis o resultado da traição de Peter Pettigrew. Por isso, por muito que possamos dizer, como disse Flaubert, que «Madame Bovary, c'est moi», jamais diremos «I am Peter Pettigrew».
E quem trai por hábito terá já o hábito de saber quem é Petyr Baelish. Outros, menos sortudos – por serem mais próximos –, conhecê-lo-ão por Mindinho. N'A Guerra dos Tronos, é um dos vilões. Em livros onde tantas espadas cortam cabeças, ele não é melhor do que os braços que a erguem – mesmo sem fazê-lo, há cabeças a rolar por causa dele. Ninguém confia no homem, e com razões para isso. E por vezes quem começa por desconfiar deixa-se levar, cogita que ele será, afinal, coisa diferente dos rumores. Ora, se a palavra corre os Sete Reinos, é difícil que bata sempre ao lado. Onde pode, e sempre para ganho próprio, mesmo que este não seja de imediato mensurável, Petyr Baelish mete a faca. Não há costas que estejam seguras perto dele. E haja cuidado, porque longe também não. É o rei dos sussurros, do diz-que-disse, do pesa-as-frases, das sombras que se agigantam até lixarem alguém. O sonho dele, bem se vê, é chegar ao tudo, tendo nascido no nada. Por muita gente louca que se tenha sentado no Trono de Ferro, destinado ao rei daquilo tudo, Baelish seria dos mais perigosos. Ali, não há preocupações de justiça, coesão territorial, alimentação do povo, guerra e paz, direito de nascença, qualquer coisa: ali só há dois olhos virados para o umbigo.
Resumindo: a literatura é como a vida. Está cheia de gente que ninguém decente quer convidar para jantar.
**Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontece nº. 11 .
Resumindo: a literatura é como a vida. Está cheia de gente que ninguém decente quer convidar para jantar.
**Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontece nº. 11 .