O Parque – o Gerês é o cenário da nossa sugestão da semana na RFM!

Por Vera Dantas
16 de outubro de 2024
Nesta terceira semana, o destaque do WOOK vais ler esta semana, o espaço de sugestões semanais de leitura na RFM, vai para O Parque um thriller em tons de verde-medo.
Sarah Pearse, a autora bestseller de O Sanatório e O Retiro, brinda os leitores portugueses com uma boa surpresa para o aguardado capítulo final da história da detetive Elin Warner – é que, desta vez, a ação desenrola-se no nosso deslumbrante Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nas mãos de Pearse, o pulmão verde de Portugal ganha uma aura enigmática e, até, perturbadora, por isso prepare-se para ler por sua conta e risco… Nunca viu o Gerês desta maneira! Eis a sinopse:

Kier Templer, marcada por um passado sombrio, fugiu da sua cidade natal e do seu irmão gémeo, Penn, mantendo contacto com ele através dos mapas emocionais que desenhava, representações físicas das suas memórias. No entanto, ao chegar ao Gerês, Kier desaparece sem deixar rasto, e Penn percebe que algo está muito errado. Meses depois, a detetive Elin Warner chega ao parque com o objetivo de reconstruir a sua relação com o irmão, Isaac, apenas para se deparar com o mistério do desaparecimento de Kier. A beleza selvagem da floresta esconde segredos sombrios, especialmente em torno de uma comunidade isolada no coração do parque. Após uma descoberta chocante, Elin percebe que a ligação ao caso é mais pessoal do que pensava, e que o desaparecimento de Kier pode estar ligado a algo muito mais sinistro...

Ao longo de seis semanas, até 10 de novembro, todas as segundas-feiras, os locutores do programa da Manhã da RFM, em parceria com a WOOK, irão sugerir um livro aos ouvintes e leitores. Continue a acompanhar-nos, com um livro novo a cada semana!
Quer ler já este romance? Comece com o prólogo do livro. O resto da história, encontra-a aqui.

PRÓLOGO de O Parque, de Sarah Pearse:

    «A autocaravana ganha vida à noite: fica um calor agradável no seu interior quando as luzes estão acesas, uma intimidade que me faz sentir aconchegada num casulo. A luz suaviza os ângulos: as linhas retas e utilitárias do fogão e do frigorífico, os pacotes de comida empilhados ao lado do lava-louça.
    Mas é também a hora do dia em que me sinto mais vulnerável.
    A autocaravana revela tudo, quando as sombras começam a alongar-se sobre a terra lá fora, com as luzes a iluminarem exatamente quem sou, aquilo que me anima. Não apenas os bens materiais – os meus livros e quadros, mas também as minhas manias e rotinas. Cada pequeno movimento que faço.
    Embora tente não pensar nisso, é assustador imaginar como será a autocaravana vista de fora: pequena, isolada, a única coisa iluminada entre as trevas.
    Olho através da janela. O parque está quase totalmente às escuras, agora; as árvores não são mais do que vultos opacos contra o céu. A noite parece estender-se sobre a terra mais depressa, aqui, mergulhando-a subitamente na penumbra.
    Mesmo à luz do crepúsculo, esta tornou-se a minha parte preferida deste sítio – esta vista; o rio a serpentear numa linha sinuosa através do vale, as árvores por detrás erguendo-se para as aldeias no sopé da montanha. As nuvens parecem pairar permanentemente acima dos telhados, como se as casas tivessem inspirado e expirado coletivamente.
    Viro a cara, o meu olhar atraído pelo papel na mesa à minha frente.
    A cada linha que tracei, deixei partes de mim mesma. Primeiros beijos.
O esconderijo no telhado. Campos de fogueiras que incendeiam o céu.     Por um momento, sou transportada para a época em que aqui cheguei. Cerveja morna, entornada, peganhenta. Risos.
    Sorrio. O sorriso morre.
    Um ruído lá fora. Não é a banda sonora habitual do parque nacional – pássaros a cantar, folhas empurradas pelo vento –, mas algo mais deliberado.
    Passos a arrastarem-se na terra.
    De súbito, o pequeno espaço dentro da autocaravana torna-se ainda mais diminuto, como se as paredes se fechassem, se apertassem. O espaço já não parece aconchegante mas enclausurado, abafado.
    Sustenho a respiração, olho uma vez mais pela janela.
    A escuridão lá fora não revela nada. Apenas vultos em movimento, os vagos contornos de ramos a estenderem-se uns para os outros.
    Mas depois escuto um som dissonante. Metal contra metal.
    As minhas entranhas contraem-se e voltam a contrair-se. Lembro-me do que a minha mãe costumava chamar a essa sensação: origami de tripas.
    Levanto-me e tiro o papel de cima da mesa, olhando em volta freneticamente.
    Tenho de o esconder.
    Debruço-me para o armário e, ao fazê-lo, colido com a prateleira e derrubo o moinho de sal. A tampa não está bem fechada e o sal espalha-se pelo chão.
    Quando levanto os olhos, há um rosto à janela.
    O meu corpo estaca por completo. Sangue, respiração, coração – nada se move.
    Apesar das sombras consigo ver: a raiva.
    Respiro fundo, mas não tento fugir. Não sinto surpresa, apenas resignação.
    Talvez, no fundo, soubesse que acabaria assim.
    Talvez a narrativa estivesse determinada desde o início.
    Não se pode escapar a um monstro.
    Devia tê-lo percebido desde o início.»

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