Fernando Aramburu: «A violência continuada envenena tudo»

Vive na Alemanha, em Hannover, há mais de 30 anos, mas é como se nunca tivesse saído do País Basco, o lugar onde nasceu.
Fernando Aramburu, 59 anos, escreveu o livro do ano em Espanha, galardoado com, entre outros, o Prémio Nacional de Narrativa.

«Pátria», assim se chama, é um romance contemporâneo sobre duas famílias que mostra o impacto que o conflito armado teve nas suas vidas. São 646 páginas. E é um fenómeno que vai na 22ª edição, com mais de 700 mil exemplares vendidos só em Espanha.

A WOOK esteve à conversa com o autor.
«Pátria» tem 20 edições e mais de 700 mil exemplares vendidos. Que fenómeno é este? Como explica tamanho sucesso?
«Pátria» começou como um fenómeno literário que depressa alcançou dimensões sociais, até se tornar num tópico de conversação em toda a Espanha.

Wook que o inspira para escrever?
Acima de tudo, o desejo de partilhar histórias, ideias, emoções, propostas estéticas com os leitores, usando para isso o melhor brinquedo que eu conheço: a linguagem escrita.
Fernando Aramburu por Ivan Giménez – Tusquets Editores, 2017
Fernando Aramburu, fotografado por Ivan Giménez - Tusquets Editores, 2017

Wook que o inspira para escrever?
Acima de tudo, o desejo de partilhar histórias, ideias, emoções, propostas estéticas com os leitores, usando para isso o melhor brinquedo que eu conheço: a linguagem escrita.

O que mais o preocupa na sociedade atual?
O mesmo de sempre: a perda da qualidade democrática, a pobreza, a corrupção, a violência...

Recebeu alguma ameaça quando este livro saiu para as livrarias?
Já não me lembro.
         

«Eu não acredito num perdão geral»


Pode esta onda de medo, violência e terrorismo transformar-nos numa sociedade obsessiva e esquizofrénica?
Em qualquer caso, numa sociedade doente. A violência continuada envenena tudo, tanto a vida pública como a privada. 

O que o impediu de entrar na ETA como aconteceu com alguns dos seus amigos? E como conseguiu a ETA convencer tantos jovens a filiarem-se?
ETA sabia como se tornar atraente para muitos jovens, doutrinando-os para os fazer acreditar que defendia uma causa justa e dando-lhes a oportunidade e a crença de os fazer heróis às custas do sangue de outras pessoas. Eu não acreditei nessa história.

Um dos temas fortes do seu livro é o perdão. Será que esta barbárie pode ser perdoada na realidade?
Eu não acredito num perdão geral, abstrato. O perdão é subjetivo. Alguns estão dispostos a concedê-lo. Outros não querem ouvir falar sobre ele.

É o escritor que escolhe os temas ou são os temas que o escolhem a si?
É possível que ambas as opções existam e até mesmo uma terceira: ao mesmo tempo que o escritor decide os tópicos, os temas chegam até si e ambos se encontram a meio do caminho.

Wook está na sua mesa de cabeceira?
Eles variam, mas nunca falta um de poesia.

Mencione uma coisa que não gosta de ouvir.
Não gosto que se fale mal de pessoas ausentes.

Alguma vez sentiu que não seria capaz de terminar de escrever um livro?
Eu tenho uma regra. Posso abandonar um livro que comecei, a menos que tenha passado da página cinquenta. Nesse caso, não há como voltar atrás.

Se pudesse jantar com qualquer autor, vivo ou morto, quem escolheria?
Gostaria de jantar com Albert Camus.

Wook tem vergonha de nunca ter lido?
Nada. Se eu estivesse consciente de uma falta séria, eu já a teria corrigido.

Que projetos tem para o futuro?
Vou continuar a respirar até ao último minuto.

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