Eric Nepomuceno: «Escrevo para me salvar»

Dorme pouco, escreve muito... e muito bem.
«Bangladesh, talvez e outras histórias» marca a estreia do escritor brasileiro em Portugal. A WOOK apanhou-o à margem da 19ª edição do Festival Literário Correntes d'Escritas e confirmou o seu enorme talento e sentido de humor.
Vou começar por lhe fazer uma pergunta que nada tem a ver com o livro. Enquanto cidadão, jornalista e ativista, como vê a atual situação política e social do Brasil?
Não sou ativista. Eu nunca fui filiado a nenhum partido, eu não sou nem sócio do Fulminense. Eu não sou orgânico, no sentido da organização. Evidentemente, eu sou um cidadão do meu tempo. Eu sou de uma geração que achou que podia tocar o céu com as mãos. Cheguei bem pertinho [pausa]... e o tombo foi terrível. Então, eu sou um cidadão, sim, indignado, mas não me diria um ativista porque eu não tenho nenhuma atividade que outra que a ditada pela minha indignação e é muito natural, na minha geração, que quando acontece algum movimento, a gente se prontifica e contribui. Há pessoas públicas, pessoas menos públicas e eu faço o que me pedem, o que eu acho que posso contribuir. Assinando um manifesto, indo ao que for, mas nada é orgânico.
Entrevista a Eric Nepomuceno
Eric Nepomuceno é um jornalista, escritor, contista e tradutor premiado
Uma das questões que tinha para lhe fazer era se o Eric escreve apenas contos. Hoje de manhã [durante a apresentação do livro] percebi que sim. Se não escrevesse contos não era fiel a si próprio, era uma falsidade?
Não, não era ser fiel a mim próprio, era ser fiel ao meu ofício. Eu acho que o texto vem na forma pronta, ele se define.

Sai sempre um conto quando começa a escrever?
Um conto. Veja: eu comecei a trabalhar em jornal há 53 anos. Eu vivo do que eu escrevo há 50 anos. Se você me convidar para ficar neste hotel 20 dias com tudo pago, eu em 20 dias te entrego um romance de 400 páginas. Eu sei fazer isso. Só que é falso. Não me veio. Eu acredito nas coisas que me vêm, não nas coisas que eu procuro. E eu procuro, sim, temas na minha literatura de não-ficção. Faço bastantes livros de não-ficção e aí eu procuro. Ou me chama. O tema me chama. Na literatura de ficção não; eu não tenho controlo nenhum. Eu sou um escritor muito lento e um dactilógrafo muito rápido. Quando vem a história eu vou e escrevo ela rapidinho. O que eu mais aprendi com os meus mestres é que escrever é muito fácil; complicado é cortar.

Destes 16 contos publicados pela Porto Editora em Bangladesh, talvez há algum que gostasse de destacar?
Não. São meus filhos. Não quero mandar nenhum deles para o psicólogo! [risos].

Normalmente, os escritores dizem que o último livro é o melhor de todos. É o seu caso?
Não, o melhor é o que eu estou escrevendo agora. E o melhor ainda vai ser o próximo!

Como é a sensação de se estrear em Portugal? Já percebi que está muito feliz. Por que é que isto não aconteceu mais cedo?
Eu sou um péssimo vendedor de mim mesmo. Eu não tenho agente literário. Nem no Brasil. O editor gostou dos contos. Eu tinha proposto um livro de não-ficção. E ele me falou - “Eu quero, sim, mas antes eu quero os contos”. Ótimo. Eu fiquei muito feliz, é uma edição elegante. Eu fiquei amigo do editor, coisa que volta e meia me acontece.

Se pudesse escolher três escritores, vivos ou mortos, para jantar consigo, quem escolheria?
Para jantar comigo?? Eu jantei com muitos amigos escritores que cometeram a imprudência, a maldade, de morrer. Eu jantei muito. Dos vivos hoje em dia eu não sei quem é conhecido em Portugal, mas eu vou dizer daqui de Portugal: eu gosto muito de jantar com Valério Romão, com a Ana Margarida de Carvalho... vale citar morto? [risos]

Sim, claro.
Eu vou mencionar um amigo português que eu gosto muito e na verdade a gente nunca jantou, mas ele me apresentou o pub dele em Lisboa e para mim é como se fosse a segunda duana. Quando eu chego em Lisboa tenho de ir lá, se não eu estou ilegal. O José Cardoso Pires. E o pub se chama Procópio e fica no Jardim das Amoreiras. Quando eu chego o garçon me põe na mesa que era do José Cardoso Pires. E de vez em quando ele não me cobra um trago enorme. Eu continuo, indiretamente, bebendo com ele. E lembrando dele, estando com ele.

Li há pouco tempo um artigo que dizia que as pessoas criativas, geniais, têm uma rotina diária mais ou menos rígida: a hora x para acordar, determinadas horas para trabalhar... A sua rotina é rígida?
Bom, isso você tem que perguntar para um génio. Você falou génio?

Falei. E não me enganei.
Não... o escritor não tem férias. O escritor é um ladrão. Ele rouba histórias dos outros, rouba imagens. Então ele não tem descanso. Eu tenho horários de trabalho, sim. Eu gosto muito de trabalhar de noite. Eu durmo muito pouco e durmo muito tarde. Se quiser conversar e me ligar à uma hora da manhã, tudo bem. Se quiser me irritar, me liga às nove.

Dorme quantas horas por noite?
Cinco, seis. Eu durmo depois de almoço meia hora, uma hora. Eu não tenho rotina. Eu escrevo normal. Tenho os textos alimentícios – aquilo que a gente escreve para ter o que comer – e os textos de ficção - que vêm quando querem -, a tradução, às vezes avança, às vezes não avança... Eu nunca me preocupo com isso.

E como é que é um dia ideal?
Eu acordo às nove, nove e meia da manhã. Eu não tomo café da manhã, tomo chá, e não como quase nada. Leio os jornais no computador... eu nunca pensei num dia ideal. Estar com o meu filho é um bom dia. Existe no Brasil um quarteto feminino chamado “Em Si”. E eu faço parte do quinteto “Fora de Si”. A gente há mais de vinte anos janta um vez por mês. Então, eu não tenho um ideal, eu tenho pontos que são a minha terapia. Eu economizo muito em analista indo jantar com meus amigos.

Wook está na sua mesa-de-cabeceira?
Aqui no hotel, um telefone. Na minha casa do Rio, um abajur. Eu antes lia de noite na cama, agora tenho um par de chinelos. Não tem nada. E tem uma gaveta no criado-mudo [mesa de cabeceira] que eu tenho medo de abrir porque ali estão coisas que foram do meu avô, do meu pai... e eu tenho medo de ficar triste. Não sou muito interessante nesse aspeto: O que é que tem na cabeceira? Um abajur. E um despertador que está parado.

Então, de outra forma: que livro está a ler neste momento?
Eu acabei de ler aqui um livro do Valério Romão, Cair para Dentro. Acabei de traduzir um livro de um grande poeta chileno. Enquanto traduzo, é muito complicado para mim ler outra coisa.

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde é que gostaria de escrever o seu próximo livro?
Digamos: se o editor me chamasse e me desse um adiantamento significativo, Paris. Mas eu não ia escrever nada. Ia ficar zanzando pelos cafés. Lisboa deve ser uma cidade legal para você ficar no último andar, com terracinho, com uma vista simpática... Mas como não vai acontecer...
Eu tenho uma casa no Rio [de Janeiro], uma em Petrópolis. Quinta-feira acordo e vou para a montanha e volto no domingo à noite. Tenho também um apartamento pequeno em Buenos Aires onde me refugio muito quando quero escrever, porque tem uma vantagem: se eu não avisar que estou lá, nenhum amigo meu sabe. Quando estou com dificuldade de sossego, eu me meto em Buenos Aires... e como não posso mentir para os amigos – mentir é só para gerente de banco, não se pode mentir -, às vezes fico oito, dez dias trabalhando.
Se eu ganhasse tanto dinheiro que me permitisse ficar seis meses em Paris, eu não ia escrever. Às vezes, não ter dinheiro é bom.

Enquanto escritor, quais são as suas inspirações?
Eu te falei: eu não tenho imaginação, eu tenho memória. A matéria-prima é a memória. Juntas uma memória daqui a algo que você viveu, a algo que viu, a algo que te contaram e aí você monta uma mentira.
         


 «Eu escrevo para me salvar»


E a música? Sabemos que é amigo íntimo de Chico Buarque. A música influencia a sua forma de escrever?
Muito, muito.

Ouve música enquanto escreve?
Ouço, direto. Digamos: não é que eu ouça, eu escuto. O que é diferente. De manhã, ligo o computador com música clássica ou então um negócio genial chamado YouTube que tem um track chamado mix que tem coisa boa, tem coisa ruim, não interessa. Eu preciso daquele ruído de fundo. Muitos contos meus são disparados por músicas feitas por amigos meus. No Brasil, tenho pouco contacto com escritores. Os meus amigos são músicos e cineastas. O Quinteto Fora de Si são dois músicos e dois cineastas. E eu.

Podemos saber quem faz parte desse quinteto?
Miguel Faria, que é um diretor de cinema que não sei se é conhecido em Portugal; Rui Solberg, que é um documentarista; Edu Lobo, que é um grande compositor da minha geração; e o Chico [Buarque].

Se tivesse um superpoder, qual é que seria?
Eu nunca penso nisso. Não tenho a menor ideia. Eu teria que ser deus para corrigir o mundo e eu não sou.

A escrita não é uma forma de corrigir o mundo ou de tentar?
Não, não, não. Eu escrevo para me salvar, não para mudar o mundo.

Nos seus contos, parece-me que têm uma temática em comum, a dos desencontros, da solidão.
São os contos que o Manuel [Alberto Valente], meu amigo, escolheu. Esse livro é dele. Eu escrevi. Jamais teria montado o livro desse jeito. É uma escolha dele, que eu gosto. Ele me acha meio triste e eu não sou. [risos]

O Gabriel García Marquez diz que “parece um milagre poder desfrutar tanto de histórias que terminam tão mal”...
O Gabo [alcunha de García Marquez para os amigos] acreditava em histórias de amor com final feliz. Ele vinha e falava assim: - Muda esse final, muda! - Não, não vou mudar. Aconteceu assim. Ele dizia isso para me espicaçar.

Disse-nos que estava já a trabalhar num novo livro. Quer falar-nos sobre ele?
Isso eu digo para o editor, é mentira... [risos] É um livro de não-ficção, são perfis de amigos que de alguma maneira, em determinado momento, ou em vários momentos, marcaram a minha vida. São cinco escritores, um poeta e um músico. Nenhum brasileiro. Depois, eu vou escrever um livro de lembranças, depois outro de contos...

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