Especial Mulheres: como gerir o seu dinheiro

Entrevista a Inês Correia, especialista em Finanças

17 de janeiro de 2020
Quer saber como conseguir esticar o dinheiro até ao final do mês? Ou voar mais alto e não viver apenas para ganhar dinheiro, mas antes fazer dinheiro para viver como quer e concretizar os seus sonhos?
Inês Correia é especialista em ajudar mulheres a gerir as suas finanças. Estudou Economia, Finanças e Psicologia, tendo trabalhado mais de dez anos em instituições financeiras. Criou a primeira academia de finanças pessoais femininas em Portugal, Finanças no Feminino, onde ajuda as mulheres portuguesas a gerir o seu dinheiro de forma independente e confiante.
Descubra como nesta entrevista com a autora.

Inês Correia
Inês Correia, autora do livro Dinheiro para Elas!


De acordo com a experiência que tem tido, qual é a maior dificuldade que as mulheres enfrentam na gestão do dinheiro?
A maior dificuldade tem a ver com medos, receios e crenças que nos são incutidos quando crescemos, direta ou indiretamente. De uma forma geral, as meninas não são tão incentivadas a lidar com dinheiro como os meninos. Além disso, somos reconhecidas e elogiadas quando somos «calminhas» e «caladinhas», o que desincentiva as mulheres a correrem riscos. Lidar com dinheiro, em particular com investimentos, implica incerteza e correr riscos, mas isso é muito mais difícil para as mulheres pelo simples facto de não estarmos tão familiarizadas com situações de risco.



Como surgiu a ideia de escrever o livro Dinheiro para Elas?
O livro foi escrito com muito amor a pensar na Inês de há sete anos, que sabia muito bem lidar com dinheiro na sua vida profissional, mas cujos medos e receios a impediam de gerir bem o seu dinheiro a nível pessoal. A minha viagem de transformação financeira trouxe-me muito mais do que apenas crescimento financeiro, trouxe-me poder, autoconfiança e, principalmente, liberdade. Sinto que é minha obrigação mostrar a todas as mulheres que é possível viver com maior liberdade e que o dinheiro pode ajudar-nos a viver a nossa vida de sonho.



O que é exatamente a independência ou liberdade financeira?
Para mim, liberdade financeira significa vivermos sem que o dinheiro seja uma condicionante real na nossa vida. Por exemplo, se temos uma almofada financeira boa, isto é, uma poupança que nos permite pagar seis a doze meses dos nossos gastos mensais, isto significa que podemos deixar um trabalho de que não gostamos ou uma relação tóxica com a tranquilidade de sabermos que não iremos estar em stress financeiro.
Independência financeira é a possibilidade de vivermos sem termos que trabalhar, já que temos investimentos e o retorno destes é suficiente para pagarmos todas as nossas despesas mensais. Significa que o dinheiro não é um critério a ter em conta nas decisões da nossa vida, mas o que interessa realmente é aquilo que queremos. É a liberdade total!
Acredito que o ideal e possível de ser alcançado por todos é termos um trabalho que adoremos e ainda investimentos que paguem uma parte significativa das nossas despesas mensais.



E qual é o primeiro passo que as mulheres devem dar para caminhar nesse sentido?
O primeiro passo é ter uma pequena almofada financeira e acabar com as dívidas pessoais. Essa é a etapa 1 do livro Dinheiro para Elas!, que está dividido em 5 etapas e onde detalho todos os passos que devemos dar desde a «Etapa 1 – Com (demasiadas) dívidas» até à «Etapa 5 – Tenho autonomia financeira total».



É possível ser financeiramente independente ganhando o salário mínimo?
É muito difícil ser-se financeiramente independente ganhando o salário mínimo, por isso o ideal, para quem tem o salário mínimo, é pensar em alguma forma de renda extra.


Dinheiro para Elas!
Este livro é um guia prático para as mulheres se apaixonarem por dinheiro e viverem os seus sonhos.


Para vivermos os nossos sonhos, temos de ser forretas?
Não temos de ser forretas, mas temos que ser poupados. Temos que ter a capacidade de cortar nas coisas que não acrescentam valor à nossa vida.


As mulheres enfrentam à partida o handicap de terem salários em geral mais baixos do que os homens, mesmo quando exercem funções similares. Como podemos, de forma prática, vencer esse obstáculo?
As mulheres não só têm salários mais baixos, como investem muito menos, vivem mais anos e têm mais pausas na carreira, em média, do que os homens. Do meu ponto de vista, o obstáculo dos salários baixos tem que ser ultrapassado, numa fase inicial, com legislação específica para evitar as desigualdades salariais e também com políticas nas próprias empresas. A culpa não é das mulheres individualmente, mas de uma sociedade ainda muito sexista.




Uma pergunta em jeito de provocação: o dinheiro traz felicidade?
Sim, traz. O último e mais completo estudo feito sobre a relação entre dinheiro e felicidade mostra que a felicidade aumenta com o rendimento. Deixo aqui o link para o artigo em que escrevi sobre este tema.



A pandemia mudou de alguma forma a maneira como as mulheres olham para o dinheiro e lidam com ele?
Tenho receio que a pandemia tenha aumentado ainda mais as desigualdades de género que já existiam. Muitas mulheres foram despedidas ou até deixaram o seu trabalho, principalmente as mães ou cuidadoras, pelo simples facto de não conseguirem conciliar tudo, em particular com a telescola.


Qual foi o último livro que leu e de que gostou muito?
Factfulness - Factualidade. Um livro fascinante que nos faz refletir sobre os nossos preconceitos e sobre a importância de procurarmos informação precisa sobre a realidade.

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