Escreve uma escritora sobre escrita

Por Ana Bárbara Pedrosa
10 de julho de 2023
A primeira regra é garantir que não há regras. Assumida, respeitada, inventam-se as seguintes. O problema da escrita é correr sem mapa, sem certeza de um destino. Enquanto se escreve, inventam-se os códigos, daí que haja sempre tanto espaço dado ao subjetivo. A arte passou durante muito tempo por essa prova inglória. A de que não era bem arte, ou tinha de ser, ou tudo era arte, ou mesmo que o objeto nem era isto nem aquilo. Tudo dependia de quem olhava para ele. Na prática, um olhar benévolo bastava para lhe garantir o pendor artístico. E é assim que se irrita um artista.
Crónica de escrita
 
Lembro-me de ser criança e sentir que patinava. A memória está fresca porque a de ontem à noite foi igual. A de hoje de manhã também. Os anos passam e eu ainda patino e acho que andarei sempre com rodas sob os pés. A cada novo texto, há a procura de uma coisa fresca, há o encontro com a possibilidade do fracasso: de onde poderá vir tanta frescura? Depois de anos a escrever, a pensar sobre a escrita, a tentar domá-la, que posso inventar para que tudo pareça natural, simples, sem esforço? Falam-me de inspiração, reviro os olhos, de jeito para escrever também. Não é que eu não acredite no talento. Acho é que não existe sozinho e não serve para nada se não for domado a sério. Ora, domá-lo é o que custa muitas horas, muitos anos.

Acho que é comum a quem leva a escrita a sério passar a adolescência a não fazer alarde disso. O perigo é o de se ser confundido com quem a apregoa e nunca estuda. São aqueles que, na mesma escola, dizem coisas como «Gosto de escrever, mas não tenho tempo para ler». Se não há tempo para ler, ainda há menos para escrever. São os futebolistas que não gostam de treinar e querem o estádio cheio, de pé, a aplaudir um hat-trick na final da Champions. Tudo é ego, nada é fúria.

Não há receita para a fúria, mas há quem pense sobre ela, quem tire o raio-x a parágrafos, faça uma TAC à narrativa. Stephen King só dá um livro ao público depois de lhe ter tirado o pó. Em Escrever, temos a dica: cada advérbio de modo é uma derrota. É uma dica espantosamente útil, o que significa que é uma dica útil, e que o espantosamente não serve para nada. E temos outra dica, fulcral como a anterior: mostrar em vez de contar. Podemos dizer que o Manel se chateou a sério, mas se escrevermos que partiu uma cadeira à paulada o leitor chegará lá, primeiro, com mais informação e, segundo, sem ter a papa toda. É assim que se cria a leitura ativa, que se permite ao leitor ver e depois achar.

Quem pretender outras dicas poderá, noutro registo, ir ao índice. Harold Bloom escreveu O Cânone Ocidental, listando ali muitos dos gigantes da literatura.

Ler todos afinará o palato, já não haverá como não distinguir o bom do mau. E, como quem conversa, temos sempre Viagem ao País do Futuro, de Isabel Lucas, que mostra as construções literárias como forma de dar sentido, e ainda mete o leitor com os dois olhos no Brasil.

Vá-se por onde se for, acho que nunca se chegará a nenhuma parte conclusiva. Nunca se escreverá um último livro. Nunca se terá lido o suficiente, muito menos o mais do que suficiente. Nunca se dominará o tema. Nunca se terá certeza. E estará sempre tudo com a certeza de que valerá a pena ir mais além. Talvez no futuro, talvez mais longe. Sabemos que nunca, mas continuamos, sabe Camões para onde.

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