Entrevista exclusiva com Ken Follett
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17 de janeiro de 2020
Ken Follett é um dos autores britânicos mais célebres da atualidade, tendo conquistado milhões de leitores em todo o mundo com os seus bestsellers, como Os Pilares da Terra, que foi adaptado com grande sucesso para televisão.
O autor, que nasceu em 1949, no País de Gales, estudou filosofia e foi jornalista, até decidir dedicar-se por completo à escrita de ficção, atividade que exerce há quase cinquenta anos.
O seu livro mais recente, Nunca, é um thriller que, de forma assustadoramente real, explora o quão próximos estamos atualmente do eclodir de uma III Guerra Mundial.
Estivemos à conversa com o autor para saber mais.
O autor, que nasceu em 1949, no País de Gales, estudou filosofia e foi jornalista, até decidir dedicar-se por completo à escrita de ficção, atividade que exerce há quase cinquenta anos.
O seu livro mais recente, Nunca, é um thriller que, de forma assustadoramente real, explora o quão próximos estamos atualmente do eclodir de uma III Guerra Mundial.
Estivemos à conversa com o autor para saber mais.
Ken Follett
Na introdução do seu novo livro, Nunca, refere que enquanto fazia pesquisa para escrever A Queda dos Gigantes se apercebeu de que nenhum país queria entrar na I Grande Guerra; no entanto, ela aconteceu e tomou proporções sem paralelo na História, e a forma como isso ocorreu foi a inspiração ou ponto de partida para este novo livro. Pode falar-nos um pouco mais sobre isso?
Sim, claro. Em 1914 nenhum dos líderes europeus estava interessado em entrar numa Guerra com essas proporções; no entanto, cada um deles tomou decisões que deixaram o mundo cada vez mais perto de um conflito em grande escala. Cada escalada na crise que o mundo vivia nesse momento, em particular durante o mês de julho, imediatamente antes do eclodir da Guerra, deixou-nos cada vez mais perto de um grande conflito e apercebi-me de que isso poderia voltar a acontecer.
O que tento fazer em Nunca é criar uma crise mundial que vai escalando da mesma forma, lentamente, mas que em que a ação de cada líder mundial nos deixa progressivamente mais perto de uma Guerra nuclear.
E à medida que ia escrevendo o romance, a possibilidade de uma III Guerra Mundial tornou-se mais plausível?
Sem dúvida! Na conjuntura atual foi muito fácil imaginar uma série de pequenas crises, mas o mais importante é a pressão exercida sobre os líderes mundiais para reagir ou retaliar.
No romance, todos os líderes tentam evitar a Guerra, mas todos eles estão também sob a pressão de retaliar ou responder à altura das medidas tomadas pelos líderes de outros países. É como as antigas vinganças sicilianas: se alguém mata um primo meu, tenho que matar o filho dessa pessoa, que depois por sua vez responde matando o meu filho, eu retalio matando a sua mulher, etc. É o instinto humano. Se o nosso país sofre alguma espécie de ataque, queremos que os nossos líderes retaliem. Se nos fizerem algo de mau retaliamos com algo pior ainda. Mataram um soldado dos nossos? Matamos dez dos vossos! Depois matam 100 dos nossos e assim por diante.
É um instinto natural, mas quando interfere nas relações internacionais torna-se muito perigoso.
De facto, isso torna-se muito claro em Nunca. A intriga gira em torno de espiões e decisões políticas fundamentais, como as que Pauline, a presidente dos Estados Unidos no livro, tem de tomar. Mas encontramos também no romance muita informação acerca da situação atual de alguns países africanos, do Médio Oriente, da Coreia do Norte, da China…. No fundo, vemos os bastidores da política internacional de uma forma muito interessante. Como fez pesquisa para tudo isso?
A minha mulher, a Bárbara, foi deputada e membro do parlamento durante muitos anos, tenso sido inclusivamente ministra do governo de Gordon Brown. Por isso, muitos dos nossos amigos estão ligados à política e à diplomacia. Durante anos jantei muitas vezes com políticos e nesses jantares falávamos um pouco de tudo: dos nossos filhos, de desporto, mas naturalmente também de trabalho. E impressionava-me como, frequentemente, decisões políticas importantes eram tomadas nesses jantares de forma bastante informal, numa conversa entre dois ou três ministros à volta da mesa. Durante uns momentos esqueciam o futebol, os filhos, e de repente estavam a falar sobre algo que iria afetar o país ou o mundo. Tomavam essas decisões de forma muito rápida. Nessas conversas, perdoem-me a expressão, não havia paninhos quentes, nem estavam com meias palavras; diziam exatamente o que queriam dizer, sem subterfúgios, porque ninguém estava a ouvir. Depois, no dia seguinte, havia, claro, uma reunião oficial, mas a decisão já tinha sido tomada durante o jantar da noite anterior. É assim que as coisas se passam e estas situações são-me muito familiares.
Mas, para este livro, entrevistei algumas dessas pessoas ligadas à política, fiz-lhes imensas perguntas e algumas acabaram por se tornar consultoras do livro, leram o manuscrito e sugeriram alterações, de forma a que fosse o mais autêntico possível.
Apesar do perigo em que se encontram e de tudo o que está a acontecer à sua volta, duas das personagens principais de Nunca apaixonam-se. O amor encontra sempre um caminho ou o perigo faz-nos perceber o que é realmente importante?
O amor encontra sempre um caminho, mas, além disso, em todo o tipo de situações, as pessoas encontram conforto umas nas outras.
Além disso, num romance, as personagens não podem estar apenas envolvidas na intriga principal. Cada personagem precisa de ter uma vida para lá da trama, tal como todos nós temos uma vida para além do trabalho.
Para construir uma história é preciso entrar na cabeça das personagens e, para isso, temos de encará-las como pessoas completas, não apenas como espiões ou detetives, por exemplo. Se há uma personagem que é detetive, não pode ser apenas isso, tem de ser um detetive com mãe, filhos, uma obsessão ou um hobby de que goste muito e que não tenha nada a ver com a investigação. Os romances são assim porque a realidade é assim.
Já escreveu thrillers como este, ambientados na atualidade, mas alguns dos seus maiores bestsellers, como Os Pilares da Terra, são romances históricos que têm lugar na Idade Média ou durante a Segunda Guerra, como é o caso de O Buraco da Agulha. Há uma diferença muito grande, em termos de pesquisa, por exemplo, e no processo de escrita, entre criar romances ambientados no presente, como Nunca, ou num passado mais remoto?
Também faço muita pesquisa para livros que se passam na atualidade, mas de facto é mais fácil. Quando escrevemos um romance histórico temos de verificar todos os detalhes, até ao mais ínfimo pormenor. Se quisermos pôr, por exemplo, as personagens a comer salsichas, temos de verificar se as salsichas já tinham sido inventadas nessa altura, se existiam salsichas no século XVI, por exemplo, e esse trabalho pode tornar-se bastante difícil. Há sempre algum leitor que trabalhou a vida toda na indústria das salsichas e que garante que não havia salsichas na época em que se passa o romance. [risos] A esse nível, é mais fácil escrever ficção ambientada no presente.
Apesar disso, dedicou grande parte da sua carreira a escrever sobre a Idade Média. Quando é que começou a interessar-se por esse período histórico em particular e por contar a história de uma catedral, como fez em Os Pilares da Terra?
Quando tinha cerca de vinte anos comecei a interessar-me por catedrais. Viajava bastante e arranjava sempre uma forma de visitar edifícios desse tipo. Mas foi um processo lento. Comecei também a interessar-me pelas sociedades que construíram as catedrais: a sociedade medieval e a forma como as ergueram, os métodos da época, porque não contavam obviamente com as ferramentas que podemos comprar hoje por um par de euros em qualquer loja. As ferramentas da época eram muito mais rudimentares e era extremamente difícil transportar enormes blocos de pedra até ao topo das torres.
Comecei a pesquisar mais sobre a Idade Média em geral, sobre a construção durante esse período e lentamente comecei a pensar que isso daria uma grande história. A ideia foi crescendo até que chegou a altura em que pensei que tinha mesmo de fazê-lo. Tinha de deixar de brincar com a ideia e sentar-me a escrever. Mas os editores não ficaram propriamente contentes. [risos] Percebo o ponto de vista deles, porque o mercado é bastante imprevisível. Os editores publicam cinquenta, cem ou duzentos novos livros por ano e não sabem se vão ter sucesso, nada é garantido. Os editores procuram previsibilidade e é disso que gostam em autores como eu: escrevemos sempre o mesmo tipo de livros e já sabem mais ou menos como vão funcionar. Claro que, se lhes dizemos que queremos fazer algo completamente diferente, à partida não reagem muito bem.
Mas eu sabia que ia escrever um romance «comercial», digamos. Queria escrever um livro comercial acerca de uma catedral e não um livro muito «literário» ou difícil de ler. O meu modelo era E Tudo o Vento Levou, que é um romance histórico mas foi um dos maiores bestsellers do século XX.
Quando escreve acerca do passado, da Idade Média, por exemplo, ou mesmo acerca de períodos históricos mais próximos de nós, como a II Guerra, acha que o mundo mudou muito ou que não mudou o suficiente?
Mudou bastante e isso é parte do apelo dos romances históricos: o facto de nos transportarem para outro tempo, em que o nosso mundo era diferente. Tudo o que é diferente é por norma bastante interessante e fascinante. Mas, no essencial, em todos os períodos da História as preocupações básicas dos seres humanos são as mesmas.
Mesmo em fases mais recuadas, anteriores à Idade Média, as pessoas preocupavam-se com dinheiro, trabalho, amor, sexo, casamento e filhos. Desde o princípio dos tempos, toda a gente se preocupa com os filhos e com guerras ou violência. Preocupamo-nos com a violência, se haverá uma guerra ou revolução…
Às vezes perguntam-me como é possível que um livro como Os Pilares da Terra, ambientado na Inglaterra medieval, seja tão popular no Brasil. E a resposta é essa: as preocupações das pessoas nesse romance são as mesmas dos brasileiros ou de qualquer outro povo na atualidade. É por isso que um livro como esse, que pareceria à partida estar a milhas do que qualquer um de nós experiencia hoje, nos atrai.
Os seus bestsellers são frequentemente livros grandes, com várias centenas de páginas, e Nunca não é exceção. É preciso tempo, a nível narrativo, e muitas páginas, para desenvolver devidamente as personagens e uma intriga complexa?
Creio que sim. É claro que é possível escrever um livro muito bom com apenas cem mil palavras e a verdade é que leio muitos livros assim. Mas, duas semanas depois, apesar de ter gostado muito de lê-los, já não me lembro exatamente sobre o que eram. Um romance curto pode ser excelente e constituir uma experiência muito agradável de leitura, mas não fica muito tempo connosco. Já no caso de um livro como Os Pilares da Terra, a maioria das pessoas leva um mês para lê-lo, por isso passa bastante tempo nesse universo que criei, e penso que depois não o esquece tão rapidamente. Entranha-se na mente dos leitores, que acabam por recordar cenas e personagens do livro por muito tempo.
Já escrevo romances há quase cinquenta anos e os leitores falam-me muitas vezes de livros que escrevi há imenso tempo. Creio que os livros mais longos tendem a enraizar-se mais na nossa memória.
Há autores de policiais que leio muito e de que gosto imenso, mas ao fim de algum tempo já não sei que livros li e até me acontece comprar livros repetidos. Só quando começo a lê-los e vou na terceira ou quarta página é que me apercebo disso.
Atualmente a nossa capacidade de concentração é tão curta… temos de dizer algo em quarenta segundos que prenda imediatamente as pessoas, se não mudam para outra coisa. Um tweet, por exemplo, costumava ter 140 carateres, agora é um pouco maior, mas de qualquer forma dizem: se não consegues exprimi-lo em 140 carateres não vale a pena. Aliás, há uma personagem em Nunca que a certa altura está a falar sobre política e diz: se não consegues pô-lo numa t-shirt não vale a pena.
Fala-se muito disso, mas acho que provei que as pessoas também gostam de livros longos, se forem bons. Os Pilares da Terra têm no original em inglês 350 mil palavras, o equivale mais ou menos a três romances de tamanho comum, mas foram um sucesso.
Disse-nos que escreve há quase cinquenta anos, mas quando é que descobriu a escrita?
Durante toda a minha vida escrever era algo em que era bom. Na escola tinha sempre boas notas quando tinha de escrever o que naquele tempo era chamado de «composição». Uma vez até me meti em sarilhos, porque escrevi uma história e a professora achou que a tinha copiado de um livro. Fiquei muito revoltado! Ainda me recordo de como começava: com alguém a olhar para o céu e a ver um avião despenhar-se. Devia ter cerca de oito anos, nessa altura.
Depois, mais tarde, quando tinha 21 anos, tentei escrever contos e costumava enviá-los para revistas, mas nunca foram publicados. Tinha o bichinho da escrita. Até que por fim um dos meus colegas do jornal escreveu um thriller e conseguiu publicá-lo. E decidi que ia fazer o mesmo! Foi assim que escrevi o meu primeiro livro. E foi publicado, mas não era muito bom, não fez grande sucesso, mas pensei: vou tentar de novo!
De todos os seus livros, qual foi o mais difícil de escrever?
Os Os Pilares da Terra, definitivamente. Nunca tinha escrito nada assim e o início foi muito difícil, progredia de forma muito lenta. Ao fim de dois anos só tinha 180 páginas e comecei a ficar preocupado, a pensar que, se não tivesse cuidado, ia passar o resto da vida a escrevê-lo.
O mais difícil, nos livros longos, é continuar a criar coisas novas acerca das mesmas personagens. É mais fácil ao fim de cem mil palavras começar um livro novo, com personagens e uma história novas, tudo do zero.
Essa foi a primeira vez que escrevi uma história tão longa, levei três anos e três meses, e parte desse tempo foi de trabalho intenso, sem descanso. Foi um grande desafio, mas nunca me arrependi de fazê-lo.
Como é que planeia os seus livros?
Planeio tudo de forma bastante rigorosa, mas não vou ao mais ínfimo dos pormenores. Passo a primeira fase da escrita a planear o enredo e a fazer pesquisa, o que leva normalmente de seis meses a um ano. No final tenho um resumo de cinquenta páginas em que delineio o que acontece em cada capítulo e quem são as personagens principais.
Sei que muitos bons escritores não trabalham assim, mas eu preciso de fazê-lo. Percebi isso porque o meu primeiro bestseller foi justamente o primeiro livro em que trabalhei desta forma, que foi O Buraco da Agulha.
Qual foi o último livro que leu e de que gostou muito?
O último livro que li é um romance inacabado de Charles Dickens. É um policial chamado O Mistério de Edwin Drood. Como o livro não foi acabado, não sabemos quem é o criminoso e até há livros acerca de quem será o assassino.
Já reli diversas vezes todas as obras de Dickens, de quem sou grande fã, mas nunca tinha lido este e gostei muito, mesmo sem final é um romance excelente.
Sim, claro. Em 1914 nenhum dos líderes europeus estava interessado em entrar numa Guerra com essas proporções; no entanto, cada um deles tomou decisões que deixaram o mundo cada vez mais perto de um conflito em grande escala. Cada escalada na crise que o mundo vivia nesse momento, em particular durante o mês de julho, imediatamente antes do eclodir da Guerra, deixou-nos cada vez mais perto de um grande conflito e apercebi-me de que isso poderia voltar a acontecer.
O que tento fazer em Nunca é criar uma crise mundial que vai escalando da mesma forma, lentamente, mas que em que a ação de cada líder mundial nos deixa progressivamente mais perto de uma Guerra nuclear.
Sem dúvida! Na conjuntura atual foi muito fácil imaginar uma série de pequenas crises, mas o mais importante é a pressão exercida sobre os líderes mundiais para reagir ou retaliar.
No romance, todos os líderes tentam evitar a Guerra, mas todos eles estão também sob a pressão de retaliar ou responder à altura das medidas tomadas pelos líderes de outros países. É como as antigas vinganças sicilianas: se alguém mata um primo meu, tenho que matar o filho dessa pessoa, que depois por sua vez responde matando o meu filho, eu retalio matando a sua mulher, etc. É o instinto humano. Se o nosso país sofre alguma espécie de ataque, queremos que os nossos líderes retaliem. Se nos fizerem algo de mau retaliamos com algo pior ainda. Mataram um soldado dos nossos? Matamos dez dos vossos! Depois matam 100 dos nossos e assim por diante.
É um instinto natural, mas quando interfere nas relações internacionais torna-se muito perigoso.
Nunca é o livro mais recente de Ken Follett.
A minha mulher, a Bárbara, foi deputada e membro do parlamento durante muitos anos, tenso sido inclusivamente ministra do governo de Gordon Brown. Por isso, muitos dos nossos amigos estão ligados à política e à diplomacia. Durante anos jantei muitas vezes com políticos e nesses jantares falávamos um pouco de tudo: dos nossos filhos, de desporto, mas naturalmente também de trabalho. E impressionava-me como, frequentemente, decisões políticas importantes eram tomadas nesses jantares de forma bastante informal, numa conversa entre dois ou três ministros à volta da mesa. Durante uns momentos esqueciam o futebol, os filhos, e de repente estavam a falar sobre algo que iria afetar o país ou o mundo. Tomavam essas decisões de forma muito rápida. Nessas conversas, perdoem-me a expressão, não havia paninhos quentes, nem estavam com meias palavras; diziam exatamente o que queriam dizer, sem subterfúgios, porque ninguém estava a ouvir. Depois, no dia seguinte, havia, claro, uma reunião oficial, mas a decisão já tinha sido tomada durante o jantar da noite anterior. É assim que as coisas se passam e estas situações são-me muito familiares.
Mas, para este livro, entrevistei algumas dessas pessoas ligadas à política, fiz-lhes imensas perguntas e algumas acabaram por se tornar consultoras do livro, leram o manuscrito e sugeriram alterações, de forma a que fosse o mais autêntico possível.
Apesar do perigo em que se encontram e de tudo o que está a acontecer à sua volta, duas das personagens principais de Nunca apaixonam-se. O amor encontra sempre um caminho ou o perigo faz-nos perceber o que é realmente importante?
O amor encontra sempre um caminho, mas, além disso, em todo o tipo de situações, as pessoas encontram conforto umas nas outras.
Além disso, num romance, as personagens não podem estar apenas envolvidas na intriga principal. Cada personagem precisa de ter uma vida para lá da trama, tal como todos nós temos uma vida para além do trabalho.
Para construir uma história é preciso entrar na cabeça das personagens e, para isso, temos de encará-las como pessoas completas, não apenas como espiões ou detetives, por exemplo. Se há uma personagem que é detetive, não pode ser apenas isso, tem de ser um detetive com mãe, filhos, uma obsessão ou um hobby de que goste muito e que não tenha nada a ver com a investigação. Os romances são assim porque a realidade é assim.
Já escreveu thrillers como este, ambientados na atualidade, mas alguns dos seus maiores bestsellers, como Os Pilares da Terra, são romances históricos que têm lugar na Idade Média ou durante a Segunda Guerra, como é o caso de O Buraco da Agulha. Há uma diferença muito grande, em termos de pesquisa, por exemplo, e no processo de escrita, entre criar romances ambientados no presente, como Nunca, ou num passado mais remoto?
Também faço muita pesquisa para livros que se passam na atualidade, mas de facto é mais fácil. Quando escrevemos um romance histórico temos de verificar todos os detalhes, até ao mais ínfimo pormenor. Se quisermos pôr, por exemplo, as personagens a comer salsichas, temos de verificar se as salsichas já tinham sido inventadas nessa altura, se existiam salsichas no século XVI, por exemplo, e esse trabalho pode tornar-se bastante difícil. Há sempre algum leitor que trabalhou a vida toda na indústria das salsichas e que garante que não havia salsichas na época em que se passa o romance. [risos] A esse nível, é mais fácil escrever ficção ambientada no presente.
Apesar disso, dedicou grande parte da sua carreira a escrever sobre a Idade Média. Quando é que começou a interessar-se por esse período histórico em particular e por contar a história de uma catedral, como fez em Os Pilares da Terra?
Quando tinha cerca de vinte anos comecei a interessar-me por catedrais. Viajava bastante e arranjava sempre uma forma de visitar edifícios desse tipo. Mas foi um processo lento. Comecei também a interessar-me pelas sociedades que construíram as catedrais: a sociedade medieval e a forma como as ergueram, os métodos da época, porque não contavam obviamente com as ferramentas que podemos comprar hoje por um par de euros em qualquer loja. As ferramentas da época eram muito mais rudimentares e era extremamente difícil transportar enormes blocos de pedra até ao topo das torres.
Comecei a pesquisar mais sobre a Idade Média em geral, sobre a construção durante esse período e lentamente comecei a pensar que isso daria uma grande história. A ideia foi crescendo até que chegou a altura em que pensei que tinha mesmo de fazê-lo. Tinha de deixar de brincar com a ideia e sentar-me a escrever. Mas os editores não ficaram propriamente contentes. [risos] Percebo o ponto de vista deles, porque o mercado é bastante imprevisível. Os editores publicam cinquenta, cem ou duzentos novos livros por ano e não sabem se vão ter sucesso, nada é garantido. Os editores procuram previsibilidade e é disso que gostam em autores como eu: escrevemos sempre o mesmo tipo de livros e já sabem mais ou menos como vão funcionar. Claro que, se lhes dizemos que queremos fazer algo completamente diferente, à partida não reagem muito bem.
Mas eu sabia que ia escrever um romance «comercial», digamos. Queria escrever um livro comercial acerca de uma catedral e não um livro muito «literário» ou difícil de ler. O meu modelo era E Tudo o Vento Levou, que é um romance histórico mas foi um dos maiores bestsellers do século XX.
Quando escreve acerca do passado, da Idade Média, por exemplo, ou mesmo acerca de períodos históricos mais próximos de nós, como a II Guerra, acha que o mundo mudou muito ou que não mudou o suficiente?
Mudou bastante e isso é parte do apelo dos romances históricos: o facto de nos transportarem para outro tempo, em que o nosso mundo era diferente. Tudo o que é diferente é por norma bastante interessante e fascinante. Mas, no essencial, em todos os períodos da História as preocupações básicas dos seres humanos são as mesmas.
Mesmo em fases mais recuadas, anteriores à Idade Média, as pessoas preocupavam-se com dinheiro, trabalho, amor, sexo, casamento e filhos. Desde o princípio dos tempos, toda a gente se preocupa com os filhos e com guerras ou violência. Preocupamo-nos com a violência, se haverá uma guerra ou revolução…
Às vezes perguntam-me como é possível que um livro como Os Pilares da Terra, ambientado na Inglaterra medieval, seja tão popular no Brasil. E a resposta é essa: as preocupações das pessoas nesse romance são as mesmas dos brasileiros ou de qualquer outro povo na atualidade. É por isso que um livro como esse, que pareceria à partida estar a milhas do que qualquer um de nós experiencia hoje, nos atrai.
Os seus bestsellers são frequentemente livros grandes, com várias centenas de páginas, e Nunca não é exceção. É preciso tempo, a nível narrativo, e muitas páginas, para desenvolver devidamente as personagens e uma intriga complexa?
Creio que sim. É claro que é possível escrever um livro muito bom com apenas cem mil palavras e a verdade é que leio muitos livros assim. Mas, duas semanas depois, apesar de ter gostado muito de lê-los, já não me lembro exatamente sobre o que eram. Um romance curto pode ser excelente e constituir uma experiência muito agradável de leitura, mas não fica muito tempo connosco. Já no caso de um livro como Os Pilares da Terra, a maioria das pessoas leva um mês para lê-lo, por isso passa bastante tempo nesse universo que criei, e penso que depois não o esquece tão rapidamente. Entranha-se na mente dos leitores, que acabam por recordar cenas e personagens do livro por muito tempo.
Já escrevo romances há quase cinquenta anos e os leitores falam-me muitas vezes de livros que escrevi há imenso tempo. Creio que os livros mais longos tendem a enraizar-se mais na nossa memória.
Há autores de policiais que leio muito e de que gosto imenso, mas ao fim de algum tempo já não sei que livros li e até me acontece comprar livros repetidos. Só quando começo a lê-los e vou na terceira ou quarta página é que me apercebo disso.
Atualmente a nossa capacidade de concentração é tão curta… temos de dizer algo em quarenta segundos que prenda imediatamente as pessoas, se não mudam para outra coisa. Um tweet, por exemplo, costumava ter 140 carateres, agora é um pouco maior, mas de qualquer forma dizem: se não consegues exprimi-lo em 140 carateres não vale a pena. Aliás, há uma personagem em Nunca que a certa altura está a falar sobre política e diz: se não consegues pô-lo numa t-shirt não vale a pena.
Fala-se muito disso, mas acho que provei que as pessoas também gostam de livros longos, se forem bons. Os Pilares da Terra têm no original em inglês 350 mil palavras, o equivale mais ou menos a três romances de tamanho comum, mas foram um sucesso.
Disse-nos que escreve há quase cinquenta anos, mas quando é que descobriu a escrita?
Durante toda a minha vida escrever era algo em que era bom. Na escola tinha sempre boas notas quando tinha de escrever o que naquele tempo era chamado de «composição». Uma vez até me meti em sarilhos, porque escrevi uma história e a professora achou que a tinha copiado de um livro. Fiquei muito revoltado! Ainda me recordo de como começava: com alguém a olhar para o céu e a ver um avião despenhar-se. Devia ter cerca de oito anos, nessa altura.
Depois, mais tarde, quando tinha 21 anos, tentei escrever contos e costumava enviá-los para revistas, mas nunca foram publicados. Tinha o bichinho da escrita. Até que por fim um dos meus colegas do jornal escreveu um thriller e conseguiu publicá-lo. E decidi que ia fazer o mesmo! Foi assim que escrevi o meu primeiro livro. E foi publicado, mas não era muito bom, não fez grande sucesso, mas pensei: vou tentar de novo!
De todos os seus livros, qual foi o mais difícil de escrever?
Os Os Pilares da Terra, definitivamente. Nunca tinha escrito nada assim e o início foi muito difícil, progredia de forma muito lenta. Ao fim de dois anos só tinha 180 páginas e comecei a ficar preocupado, a pensar que, se não tivesse cuidado, ia passar o resto da vida a escrevê-lo.
O mais difícil, nos livros longos, é continuar a criar coisas novas acerca das mesmas personagens. É mais fácil ao fim de cem mil palavras começar um livro novo, com personagens e uma história novas, tudo do zero.
Essa foi a primeira vez que escrevi uma história tão longa, levei três anos e três meses, e parte desse tempo foi de trabalho intenso, sem descanso. Foi um grande desafio, mas nunca me arrependi de fazê-lo.
Como é que planeia os seus livros?
Planeio tudo de forma bastante rigorosa, mas não vou ao mais ínfimo dos pormenores. Passo a primeira fase da escrita a planear o enredo e a fazer pesquisa, o que leva normalmente de seis meses a um ano. No final tenho um resumo de cinquenta páginas em que delineio o que acontece em cada capítulo e quem são as personagens principais.
Sei que muitos bons escritores não trabalham assim, mas eu preciso de fazê-lo. Percebi isso porque o meu primeiro bestseller foi justamente o primeiro livro em que trabalhei desta forma, que foi O Buraco da Agulha.
Qual foi o último livro que leu e de que gostou muito?
O último livro que li é um romance inacabado de Charles Dickens. É um policial chamado O Mistério de Edwin Drood. Como o livro não foi acabado, não sabemos quem é o criminoso e até há livros acerca de quem será o assassino.
Já reli diversas vezes todas as obras de Dickens, de quem sou grande fã, mas nunca tinha lido este e gostei muito, mesmo sem final é um romance excelente.