Entrevista ao astrofísico David Sobral
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7 de dezembro de 2022
David Sobral é um brilhante jovem astrónomo e astrofísico português, que já contribuiu de forma notável para alargar o nosso conhecimento do Universo. Especializado na área da astrofísica extragalática e da cosmologia observacional, viu a sua tese de doutoramento distinguida pela Royal Astronomic Society como a segunda melhor do Reino Unido em astronomia e astrofísica. Nela, conseguiu demonstrar que nos últimos 11 mil milhões de anos (cerca de 80% da idade do Universo) as estrelas estão a formar-se a um ritmo 30 vezes menor do que no início da expansão após o Big Bang. Na prática, isto significa que se estão a formar menos estrelas das que produzem o oxigénio que respiramos.
David Sobral
Após mapear o espaço profundo durante anos, David Sobral liderou também a equipa que descobriu a galáxia mais brilhante no Universo primordial, a que chamou, numa inteligente jogada de marketing, a COSMOS Redshift 7 (CR7). Descobriu centenas de novas galáxias semelhantes utilizando os maiores telescópios como verdadeiras máquinas do tempo. Além do seu trabalho enquanto professor de astrofísica (na Universidade de Lancaster) e investigador, David é também um dos mais ativos divulgadores de ciência em Portugal.
No seu livro de estreia, Qual é o nosso Lugar no Universo?, conta o seu percurso de vida, explica-nos muito, de uma forma simples e clara, sobre astrofísica, maravilha-nos com as experiências fascinantes que viveu, e até partilha os momentos difíceis de bullying na comunidade científica pelos quais passou. À pergunta que dá nome ao livro, David, que em jovem queria ser escritor, responde com o poema de Álvaro de Campos: «Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.». E os sonhos de David prometem muito.
No seu livro de estreia, Qual é o nosso Lugar no Universo?, conta o seu percurso de vida, explica-nos muito, de uma forma simples e clara, sobre astrofísica, maravilha-nos com as experiências fascinantes que viveu, e até partilha os momentos difíceis de bullying na comunidade científica pelos quais passou. À pergunta que dá nome ao livro, David, que em jovem queria ser escritor, responde com o poema de Álvaro de Campos: «Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.». E os sonhos de David prometem muito.
«Em Portugal, estamos mais perto de conjugar a literatura com a matemática do que noutros países.»
Em adolescente, ganhaste alguns prémios literários e chegaste a pensar em seguir Literatura no ensino superior. Agora que te estreaste enquanto autor de livros, este é apenas o início? Pensas aventurar-te eventualmente num romance
Acho que isso depende mais de um livro meu ser publicado, do que de mim. Por mim, sim. Tenho um romance que está já quase a terminar, mas ainda não sei como será publicado.
Quais são os teus escritores ou livros favoritos?
São muitos. Destacaria José Luís Peixoto, pois quando eu tinha 16, 17 anos, era para mim um role model de escritor. Lia também muita poesia, David Mourão-Ferreira, Fernando Pessoa e coisas mais modernas.
Por que achas que é tão difícil para as pessoas compreenderem que «o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo», como disse Fernando Pessoa, através do seu heterónimo Álvaro de Campos?Afinal, há matemática em tudo…
Sim, em tudo. Se bem que, tendo eu vivido em Inglaterra nos últimos anos, percebi que em Portugal talvez até estejamos mais perto de conjugar a literatura com a matemática. E vejo que, noutros países, as áreas estão mais separadas – as pessoas que estão na ciência nunca leram para além do básico, têm dificuldade em escrever. Em Portugal, temos alguma facilidade no ensino [da ciência e da literatura]. O que falta é, assim que se sai da escola, qualquer incentivo ou debate. Por exemplo, não há programas de ciência na televisão.
O que pensas da ideia de a matemática ser obrigatória até ao 12º ano?
Eu tenho dificuldade com o obrigatório, mas sem dúvida que devia haver essa opção. Para mim foi bom ter português até ao 12º ano, mesmo estando em ciências. Acho que devia haver a possibilidade de fazer o contrário.
Sentes que estás a contribuir para que as pessoas consigam compreender melhor a ciência, com as tuas ações de divulgação científica, e até com o teu livro Qual é o nosso Lugar no Universo??
Talvez seja uma gota no oceano, mas gota a gota, [as coisas vão avançando].
Nas tuas palestras de divulgação científica, sentes que estás a ter um impacto nas pessoas que te ouvem?
Depende muito. É muito fácil falar com crianças, que colocam perguntas muito melhores, às vezes, do que as pessoas da área, porque têm a inocência própria da infância. Cada vez mais, é muito importante falar para as pessoas que não estão convertidas à ciência. Pregar para os convertidos pode saber muito bem, porque as pessoas reagem muito positivamente e fazem perguntas, mas acaba por ser sempre o mesmo público, que vai a todas as palestras. E é muito difícil fazer as pessoas sentarem-se para nos ouvirem. Mas houve momentos em que, com a descoberta da Galáxia CR7, consegui ter destaque em jornais desportivos e aí, sim, chegar a públicos diferentes.
Como tem sido recebido este teu primeiro livro?
Até agora, tem sido bastante bom. Através das redes sociais tenho recebido comentários interessantes dos leitores.
Explicas conceitos complexos de forma simples, como fazia Carl Sagan. Isso é fácil para ti?
Acaba por ser fácil porque já o faço há muito tempo: já pensei nesse processo de várias maneiras, já fui a muitas escolas, falei com públicos de muitas idades. Acaba por ser simples, porque tento falar com a pessoa a quem me estou a dirigir, e saber de onde ela vem; tento adaptar os conceitos para que ela os entenda. Mas na verdade, não é fácil.
Afirmas que na ciência não existem génios, só trabalho. Mas, na verdade, existem pessoas que são completamente excecionais – o Feynman, que tinha de desconstruir as ideias que formulara na cabeça para as explicar, ou o Galois, que, com apenas 20 anos, na noite antes do duelo em que viria a morrer, escreveu o teorema com a solução para as equações de quinto grau… Achas que são feitos que qualquer pessoas conseguiria, mesmo com muito trabalho?
Mas eu acho que é resultado do trabalho. Essa capacidade não nasce com as pessoas. No caso do Feynman, ele próprio discutia sobre isso – estava constantemente a trabalhar na mente, para pensar nisso tudo. Mas eu abordo esta questão sobretudo porque, para mim, falar em «génio» acaba por afastar muito as pessoas. No livro refiro também o Síndrome do Impostor, porque a maior parte das pessoas sentem que não são génios, e isso não deve ser determinante para a vida de ninguém.
Roger Penrose no seu percurso enquanto investigador científico?
Influenciou-me, desde logo, quando fiz uma apresentação sobre buracos negros, que fez com que eu fosse para Astronomia e Astrofísica, e depois acabar por conhecê-lo numa situação completamente aleatória – estar a observar num telescópio e ele aparecer.
Teres vencido o concurso científico Astro-Cosmos, aos 18 anos, foi também fulcral para decidires seguir a via da astrofísica. Como achas que tem evoluído o contexto de eventos nesta área, no ensino secundário e universitário?
Eu acho que há muito pouca coisa. As universidades portuguesas começam a fazer um marketing mais forte para chamar mais pessoas para os cursos, mas eventos como o Astro- Cosmos eram diferentes – acabavam por chamar pessoas para o curso porque despertavam nelas um real interesse pela área.
Quais foram as experiências que te marcam mais enquanto astrofísico? Teres descoberto a Galáxia CR7?
A primeira vez que fui observar num grande telescópio foi muito especial, e poderia ir 100 vezes, que continuaria a sê-lo. A forma como fiz a descoberta da Galáxia CR7 marcou-me muito, assim como a parte negativa de tudo aquilo que trouxe.
No livro contas, de forma muito franca, como sofreste bullying na comunidade científica; Darwin e muitos outros também o sofreram. Achas que estas situações algum dia vão mudar? Já viste mudanças nesse sentido?
Imagino que todos os cientistas tenham passado por situações semelhantes. O meu pequeno contributo é falar sobre isso. O problema principal é que se fala muito pouco sobre essa questão, e em Portugal ainda menos, da parte humana de ser cientista. Na divulgação, falamos quase sempre dos conceitos muito crus e afastamos sempre quem nós somos. É importante trazer quem nós somos e partilhar essas experiências que existem.
Foi difícil vencer a resistência do meio científico português para implementares o teu projeto da equipa X-Gal, devido à difícil aceitação de ideias e pessoas novas na área?
Sim, sem dúvida. Em Inglaterra, sempre senti um pouco essa resistência. Eu era um bocadinho extraterrestre no meio, porque todos os meus colegas são mais velhos ou muito mais velhos que eu, e isso, inconscientemente ou não, manifesta-se. Mas cá, sinto isso muito mais explicitamente.
Como é a tua rotina, enquanto professor e investigador?
Nunca há rotina, é sempre diferente. Há alturas em que quase só dou aulas; outras em que tenho de preparar propostas para telescópios. Faço ainda supervisão de estudantes, dou conferências, preparo projetos, entre outras atividades.
Gostarias de colaborar mais em missões espaciais?
Sim, já estou envolvido há bastante tempo. Houve propostas para a Agência Espacial Europeia que não seguiram, mas na minha área quase toda a gente está envolvida em projetos espaciais.
O episódio do filtro telescópio que criaste, a que chamaste Filtro de Murphy, e que andou pedido pelo mundo até chegar ao destino final, fez-te perder o sentido de humor ou, pelo contrário, confirmou-o?
Acho que acabou por confirmá-lo porque, ou tens sentido de humor ou cais para o lado com um ataque de nervos. [risos] São coisas que acontecem.
Acho que isso depende mais de um livro meu ser publicado, do que de mim. Por mim, sim. Tenho um romance que está já quase a terminar, mas ainda não sei como será publicado.
Quais são os teus escritores ou livros favoritos?
São muitos. Destacaria José Luís Peixoto, pois quando eu tinha 16, 17 anos, era para mim um role model de escritor. Lia também muita poesia, David Mourão-Ferreira, Fernando Pessoa e coisas mais modernas.
Qual é o Nosso Lugar no Universo?, o livro de estreia de David Sobral
Sim, em tudo. Se bem que, tendo eu vivido em Inglaterra nos últimos anos, percebi que em Portugal talvez até estejamos mais perto de conjugar a literatura com a matemática. E vejo que, noutros países, as áreas estão mais separadas – as pessoas que estão na ciência nunca leram para além do básico, têm dificuldade em escrever. Em Portugal, temos alguma facilidade no ensino [da ciência e da literatura]. O que falta é, assim que se sai da escola, qualquer incentivo ou debate. Por exemplo, não há programas de ciência na televisão.
O que pensas da ideia de a matemática ser obrigatória até ao 12º ano?
Eu tenho dificuldade com o obrigatório, mas sem dúvida que devia haver essa opção. Para mim foi bom ter português até ao 12º ano, mesmo estando em ciências. Acho que devia haver a possibilidade de fazer o contrário.
Sentes que estás a contribuir para que as pessoas consigam compreender melhor a ciência, com as tuas ações de divulgação científica, e até com o teu livro Qual é o nosso Lugar no Universo??
Talvez seja uma gota no oceano, mas gota a gota, [as coisas vão avançando].
«Cada vez mais, é muito importante falar para as pessoas que não estão convertidas à ciência.»
Nas tuas palestras de divulgação científica, sentes que estás a ter um impacto nas pessoas que te ouvem?
Depende muito. É muito fácil falar com crianças, que colocam perguntas muito melhores, às vezes, do que as pessoas da área, porque têm a inocência própria da infância. Cada vez mais, é muito importante falar para as pessoas que não estão convertidas à ciência. Pregar para os convertidos pode saber muito bem, porque as pessoas reagem muito positivamente e fazem perguntas, mas acaba por ser sempre o mesmo público, que vai a todas as palestras. E é muito difícil fazer as pessoas sentarem-se para nos ouvirem. Mas houve momentos em que, com a descoberta da Galáxia CR7, consegui ter destaque em jornais desportivos e aí, sim, chegar a públicos diferentes.
Como tem sido recebido este teu primeiro livro?
Até agora, tem sido bastante bom. Através das redes sociais tenho recebido comentários interessantes dos leitores.
Explicas conceitos complexos de forma simples, como fazia Carl Sagan. Isso é fácil para ti?
Acaba por ser fácil porque já o faço há muito tempo: já pensei nesse processo de várias maneiras, já fui a muitas escolas, falei com públicos de muitas idades. Acaba por ser simples, porque tento falar com a pessoa a quem me estou a dirigir, e saber de onde ela vem; tento adaptar os conceitos para que ela os entenda. Mas na verdade, não é fácil.
Afirmas que na ciência não existem génios, só trabalho. Mas, na verdade, existem pessoas que são completamente excecionais – o Feynman, que tinha de desconstruir as ideias que formulara na cabeça para as explicar, ou o Galois, que, com apenas 20 anos, na noite antes do duelo em que viria a morrer, escreveu o teorema com a solução para as equações de quinto grau… Achas que são feitos que qualquer pessoas conseguiria, mesmo com muito trabalho?
Mas eu acho que é resultado do trabalho. Essa capacidade não nasce com as pessoas. No caso do Feynman, ele próprio discutia sobre isso – estava constantemente a trabalhar na mente, para pensar nisso tudo. Mas eu abordo esta questão sobretudo porque, para mim, falar em «génio» acaba por afastar muito as pessoas. No livro refiro também o Síndrome do Impostor, porque a maior parte das pessoas sentem que não são génios, e isso não deve ser determinante para a vida de ninguém.
Roger Penrose no seu percurso enquanto investigador científico?
Influenciou-me, desde logo, quando fiz uma apresentação sobre buracos negros, que fez com que eu fosse para Astronomia e Astrofísica, e depois acabar por conhecê-lo numa situação completamente aleatória – estar a observar num telescópio e ele aparecer.
Teres vencido o concurso científico Astro-Cosmos, aos 18 anos, foi também fulcral para decidires seguir a via da astrofísica. Como achas que tem evoluído o contexto de eventos nesta área, no ensino secundário e universitário?
Eu acho que há muito pouca coisa. As universidades portuguesas começam a fazer um marketing mais forte para chamar mais pessoas para os cursos, mas eventos como o Astro- Cosmos eram diferentes – acabavam por chamar pessoas para o curso porque despertavam nelas um real interesse pela área.
Quais foram as experiências que te marcam mais enquanto astrofísico? Teres descoberto a Galáxia CR7?
A primeira vez que fui observar num grande telescópio foi muito especial, e poderia ir 100 vezes, que continuaria a sê-lo. A forma como fiz a descoberta da Galáxia CR7 marcou-me muito, assim como a parte negativa de tudo aquilo que trouxe.
«Fala-se muito pouco sobre a parte humana de ser cientista, e em Portugal ainda menos.»
No livro contas, de forma muito franca, como sofreste bullying na comunidade científica; Darwin e muitos outros também o sofreram. Achas que estas situações algum dia vão mudar? Já viste mudanças nesse sentido?
Imagino que todos os cientistas tenham passado por situações semelhantes. O meu pequeno contributo é falar sobre isso. O problema principal é que se fala muito pouco sobre essa questão, e em Portugal ainda menos, da parte humana de ser cientista. Na divulgação, falamos quase sempre dos conceitos muito crus e afastamos sempre quem nós somos. É importante trazer quem nós somos e partilhar essas experiências que existem.
«Somos, talvez, a primeira geração que começa a olhar para as emoções e a dar-lhes o seu verdadeiro lugar e importância.»
Foi difícil vencer a resistência do meio científico português para implementares o teu projeto da equipa X-Gal, devido à difícil aceitação de ideias e pessoas novas na área?
Sim, sem dúvida. Em Inglaterra, sempre senti um pouco essa resistência. Eu era um bocadinho extraterrestre no meio, porque todos os meus colegas são mais velhos ou muito mais velhos que eu, e isso, inconscientemente ou não, manifesta-se. Mas cá, sinto isso muito mais explicitamente.
Como é a tua rotina, enquanto professor e investigador?
Nunca há rotina, é sempre diferente. Há alturas em que quase só dou aulas; outras em que tenho de preparar propostas para telescópios. Faço ainda supervisão de estudantes, dou conferências, preparo projetos, entre outras atividades.
Gostarias de colaborar mais em missões espaciais?
Sim, já estou envolvido há bastante tempo. Houve propostas para a Agência Espacial Europeia que não seguiram, mas na minha área quase toda a gente está envolvida em projetos espaciais.
O episódio do filtro telescópio que criaste, a que chamaste Filtro de Murphy, e que andou pedido pelo mundo até chegar ao destino final, fez-te perder o sentido de humor ou, pelo contrário, confirmou-o?
Acho que acabou por confirmá-lo porque, ou tens sentido de humor ou cais para o lado com um ataque de nervos. [risos] São coisas que acontecem.