Entrevista a Isabel lucas

Isabel Lucas fez-se ao caminho. Percorreu os EUA através dos livros num ano de eleições (que culminou na vitória de Donald Trump). O resultado? «Viagem ao sonho americano», o seu novo livro que é também o seu olhar sobre os Estados Unidos da América. Aproveitamos este lançamento para pôr a conversa em dia com a autora.
“Nunca se sabe o que se vai encontrar na viagem”, disse James Baldwin. O que vão os leitores encontrar no seu novo livro?
A minha deriva num país-continente guiada pela literatura, mas atenta à realidade e às pessoas que fazem parte dela. Gente anónima, escritores, ensaístas, jornalistas, decisores. O livro é o resultado das minhas circunstâncias de viagem e, por isso, irrepetível. Tem os acasos, os encontros, as obrigações, as peripécias daquele momento. O olhar resulta disso e o livro reflecte esse olhar, necessariamente condicionado pelo que vi, senti, vivi e fui também no momento da escrita. Por tudo isto este livro é o meu olhar sobre a América (gosto de abreviar tudo neste nome).
Entrevista a Paula Pimenta
Isabel Lucas
Percorreu os EUA através dos livros num ano de eleições (que culminou na vitória de Donald Trump). Escreveu: “O espanto nunca me deixou, e ele faz parte da minha identidade enquanto pessoa que caminha pela América.” O que mais a espantou nessa viagem?
Não consigo fazer uma gradação do espanto. O espanto tem a ver com a disponibilidade para ser surpreendida e deixar-me contaminar pelo que ia vendo e ouvindo. Talvez a paisagem seja essa primeira forma de espanto, a mais imediata. A paisagem americana é tão diversa quanto quem a habita. O deserto, a montanha, a neve, a dimensão de uma planície, o ritmo a que um glaciar está a desaparecer no Alasca. Ou todas as cores e línguas de Nova Iorque, um som que só existe ali. Os contrastes sociais, culturais. A emoção faz parte desse espanto. Pode ser mais próxima do êxtase ou da zanga. Enquanto caminhante – gosto desta forma de me identificar neste ano – eu estava disponível e parte do espanto que senti veio dai.

Qual era a sua rotina de escrita?
Caótica. Não havia rotina, escrevia quando podia. Viajava a ler e a escrever como se estivesse na minha secretária, em minha casa, mas não estando, ia fazendo todo o trabalho que faço todos os dias: ler, entrevistar, escrever e, nesse ano, viajar e escrever sobre essa viagem. Dois dias antes de entregar o texto fechava-me, onde quer que estivesse, e só escrevia.

Se tivesse de voltar a fazer tudo outra vez, o que mudaria?
Mudar seria alterar. De outra forma teria resultado noutra coisa. Confesso que muitas vezes me queixei de falta de tempo, falta de dormir, falta de dinheiro. Teria sido melhor com um pouco mais de tudo isso. Mas não sei qual seria o resultado. Mas continuo a reagir mal sempre que vejo uma gralha num dos textos e então volto a dizer que tudo seria diferente com tempo.

Escreveu: “A literatura – ou o romance – em toda a sua diversidade, ambiguidade e singularidade, é talvez o melhor meio para chegar perto.” Se pudesse reler apenas um dos 16 romances selecionados para a escrita deste livro, qual escolheria? E porquê?
Moby Dick. Nele está contida a ideia fundadora não apenas de um país, mas a contradição, a inquietação, a fé ou a dúvida humanas. E é soberbamente escrito.

Se tivesse de fazer uma viagem por Portugal e mostrar o país através dos livros, quais escolheria?
Partiria do mesmo principio: temáticas diferentes, tempos diferentes, diferentes geografias e iria depender do presente que estivesse a viver. Teria de avaliar tudo isso para chegar a conclusões.

Na sinopse, lê-se: “Afinal, o que é o sonho americano? Será o sonho de um país ou o sonho de um mundo inteiro?” 12 meses, 12 reportagens, 16 romances e 380 páginas depois, qual é a sua opinião?
É o sonho humano, chamem-lhe felicidade, mas contaminado por um colectivo que pede sucesso, dinheiro. É o sonho que se constrói com base na ideia de que o indivíduo é igual a todos os indivíduos.

Escrever: dá energia ou tira energia?
Dá e tira, tira e dá.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
Tempo, dava-me tempo.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Preferia jantar com um autor vivo, mas... Acho que com um com quem nunca falei e era um bom garfo, grande contador de historias, excelente escritor. Tudo junto daria um jantar animado: Jim Harrison. Morreu no ano passado.

Projetos para o futuro?
Viver. Gostava de viajar e escrever e ter tempo para amadurecer alguns projectos. Parada não consigo, mas a paragem faz parte da caminhada. E precisa para respirar.

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