Entrevista a Carla Ramalho

Carla Ramalho acredita que foi por ter nascido alentejana que lhe veio o gosto pela escrita – a prosa das gentes e a poesia da planície tinham de extravasar. Escreve para si, acima de tudo. E para os mais chegados que, simpaticamente e sem pensarem muito nas consequências, lhe elogiaram continuamente o jeito. Estivemos à conversa com a autora sobre o seu segundo romance, E ficou a terra.
25 de maio de 2017
Wook está na sua mesa de cabeceira?
Não tenho mesinha de cabeceira. Logo não há lugar para tudo aquilo que está ao alcance de um braço e que pode perfeitamente desabar no chão do quarto, acordando a vizinhança a meio da noite!

Considera que E ficou a Terra é o melhor livro que escreveu até hoje?
Não o encaro dessa forma. Foi o livro que me apeteceu escrever em determinado momento da minha vida, com o único intuito de fazer diferente daquilo que já tinha feito. Nesse aspeto foi um desafio. Mas deu-me tanto prazer e trabalho como o anterior.

Consegue identificar a cena mais difícil de escrever neste novo livro?
As cenas de expropriação das terras no Alentejo, no pós 25 de abril. Tinha falado com algumas pessoas, pesquisei sobre o tema, mas é uma época e um cenário que me surgia como algo distante. Não sei explicar muito bem... Uma coisa é escrever uma narrativa passada na Idade Média, em que as referências literárias e cinematográficas são imensas, ou uma cena passada no tempo atual, em que somos testemunhas oculares. Outra coisa é imaginar cenários na década de 70, período revolucionário, sem que tenhamos vivido esses momentos ou sem grande manancial de referências escritas e visuais.
Entrevista a Carla Ramalho
Capa do livro E ficou a terra, de Carla Ramalho
Escrever: dá energia ou tira energia?
Equilibra a energia. Sempre. E é tão bom!

Um grande ego: ajuda ou prejudica o autor?
Depende se o autor está disponível para usar o seu ego ao serviço das personagens e se não tem qualquer pejo em desaparecer nelas. Grande ou pequeno, só faz sentido se tiver esse intuito e essa competência.

Escrever: é um processo solitário ou partilhado?
Solitário. Sempre. Valha-nos isso!

Qual é a sua rotina de escrita?
Não tenho uma rotina. Tenho necessidade de colocar coisas em papel. Por vezes mais ou menos organizadas, outras de forma abençoadamente caóticas. Há dias em que necessito de silêncio absoluto e há outros em que consigo escrever no meio de uma sala cheia de gente.
Catarina Magalhães, um das nossas leitoras, comentou o seu último livro dizendo: “É muito fácil ganharmos um certo carinho à Madalena e ao João, e querermos que tudo corra pelo melhor com eles, porque merecem muito.“ As suas personagens baseiam-se em personagens reais?
Não. São personagens fictícias. Mas sinto-as como pessoas de carne e osso, bem reais, não deixando de me sentir estranha quando tenho de as abandonar ao acabar um romance. Lembro-me de que quando estava a escrever E ficou a terra, por motivos profissionais e pessoais, tive que parar durante umas semanas. De vez em quando lembrava-me das minhas personagens e imaginava-as paradas no meio da vila, sem qualquer ação, órfãs de um desfecho para as suas vidas. E a urgência de acabar o romance tornava-se bem real. Quase como se estivesse em dívida para com elas.
Entrevista a Carla Ramalho
Gostava de ver os seus livros no grande ecrã?
Gostava. Escrita e cinema, para mim, caminham juntos.

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Não tenho qualquer tabu no momento de escrever. O que vem à ideia pode muito bem ser o início de uma excelente história. Na hora de ler sou mais seletiva. Não gosto de livros de receitas, de culinária, como também não gosto de livros de autoajuda. Ofereceram-me a Profecia Celestina e O Segredo há uns anos e constatei que a minha espiritualidade não se coaduna com aquele tipo de abordagens.

Há alguma coisa que um leitor seu tenha dito ou feito que a tenha marcado para sempre?
Marcado para sempre não digo, mas admiro os leitores que não têm qualquer pejo em comprar um livro de um autor desconhecido. Numa sociedade em que as coisas só parecem existir no círculo mediático da televisão, dos grandes centros de consumo, é de louvar todos aqueles que ousam escolher e ler aquilo que não lhes é imposto.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Escolheria o Ricardo Araújo Pereira. Acho que ele é brilhante, superiormente inteligente, com uma bagagem intelectual enorme e … benfiquista!

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?
A minha maior condicionante não é o dinheiro, mas a falta de tempo. Um livro exige uma entrega e um fechar a porta ao mundo que é quase um luxo nos tempos que correm. Tem que se tentar encaixar a escrita ali, algures, entre o trabalho, o supermercado, os filhos e as mil e uma coisas chatas que diariamente temos que fazer e que não nos alimentam a alma. Se pudesse escolher um desejo escolheria esse: tempo.

Wook gostaria de ler sobre si?
O que gostaria de ler sobre mim? Coisas que orgulhassem o meu filho.

Consegue nomear três autores que a inspiram?
Mário Zambujal, José Saramago e Sándor Márai.

Que livros lhe colocam um brilhozinho nos olhos?
Aqueles que falam diretamente à alma, os que tenho que levar para todo o lado, já que não consigo parar de ler, e especialmente aqueles que me inspiram e motivam para continuar a escrever. Quase como se eu dissesse: ”Quando for grande quero escrever assim!”

Qual foi o primeiro livro que a fez chorar?
O Memorial do Convento, de José Saramago.

Qual é a sua obra subvalorizada preferida?
Não sei se é uma obra subvalorizada mas não aparece em lado nenhum como referência literária. Cão como Nós, de Manuel Alegre, é de uma simplicidade e sensibilidade desarmantes. E é preciso ter em conta que as coisas mais simples são as mais difíceis de construir e, neste caso, de escrever. Foi outro dos livros que me fez chorar. E por isso vale a pena!

Que conselhos daria a escritores portugueses que continuam a lutar para ver os seus trabalhos publicados?
O mundo da edição ultrapassa-me por completo. Há coisas que não domino mas já deu para perceber que também aqui manda a lei do mercado. O omnipotente “mercado”. Esta coisa incrível que inventámos para nos dificultar a vida! Desta forma, apenas posso dizer que devem pensar bem naquilo que os leva a escrever. Se a vontade de escrever é genuína, se a disponibilidade para evoluir e aprender com outros está lá, então é continuar a luta. Acreditar no sonho e deixar-se guiar por ele, por muito cliché que isto posso parecer. A publicação de um qualquer trabalho pode acontecer quando menos se espera.

“Simplesmente considero que o dia seguinte à festa é sempre o mais verdadeiro”, escreveu num dos artigos publicados no site da sua editora, a Coolbooks. Porquê?
As “ressacas” levam-nos a ver as coisas como elas realmente são. Não necessariamente as ressacas provocadas pelo álcool mas a ressaca de acontecimentos, de experiências, etc. . Só conseguimos avaliar uma festa depois da mesma se concretizar, só conseguimos perceber o alcance de determinado acontecimento quando nos deparamos com as suas consequências, da mesma forma que é nos momentos de não festa, de não alegria, de não facilidade que conseguimos perceber quem realmente somos e com quem podemos efetivamente contar.

Livros e escrita à parte, quais são as suas outras paixões?
A Natureza, viagens e o Benfica.

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