Entrevista a Isabel Stilwell

Estivemos à conversa com Isabel Stilwell, a autora bestseller de romances históricos, a propósito do seu novo livro, Isabel de Aragão – Entre o Céu e o Inferno. Neste seu novo romance, embarcamos na extraordinária e emocionante história da rainha que Portugal imortalizou como Rainha Santa. Descubra tudo o que a escritora nos contou.
Wook está na sua mesa de cabeceira?
O Meu Nome é Lucy Barton, de Elisabeth Strout. Saboreia-se cada página. Infelizmente a tradução está longe de ser brilhante, o que é uma pena, mas o livro é tão bom que resiste.

Pense numa pessoa. Wook diria essa pessoa sobre o seu último livro, Isabel de Aragão – Entre o Céu e o Inferno?
Foi talvez o mais difícil de investigar, porque queria aproximar-me da verdadeira Isabel de Aragão, para além dos milagres e dos feitos pelos quais é habitualmente conhecida, mas acredito que resultou num dos meus livros mais emocionantes. Isabel de Aragão é uma mulher mil vezes mais fascinante do que a imaginei, e este é um daqueles casos em que a vida supera em muito a ficção. Do nascimento à morte, a vida da rainha é de tirar o fôlego.
Capa do livro A Rapariga de Antes
A autora, Isabel Stilwell
Booktrailer do livro
Escolhe os temas dos livros ou os temas escolhem-na a si?
Acho que as duas coisas. Num primeiro momento escolho a personagem principal do livro, mas depois preciso que a personagem me cative a mim, porque senão desisto e começo de novo.

Já escreveu crónicas, romance, literatura infantojuvenil, romance histórico… Em que género se sente mais em casa?
Sinto que a casa, a verdadeira casa onde me sinto em casa, é a escrita. Depois os “géneros” são como diferentes assoalhadas, que se complementam. Fico muito feliz por ter uma casa grande!

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Fujo dos livros e dos filmes em que a violência gratuita e a violência sexual são utilizadas apenas (do meu ponto de vista) como forma de chocar. Escrevo sobre o que me toca, o que sinto que é preciso denunciar, por isso, muitas vezes, sobre aquilo de que não gosto de ler ou ver.

A Isabel dá a conhecer mulheres que estavam cheias de pó nos bastidores da história de Portugal e faz-lhes justiça. Sente que muitos leitores se reconciliaram com a história de Portugal depois de ler os seus livros?

Gosto de acreditar que sim. Há muita gente que me diz que odiava a disciplina de História na escola e descobriu, através dos romances históricos, que afinal os apaixonam. Acho que o clique se dá quando percebem que não precisa de ser apenas um conjunto de datas e acontecimentos, protagonizadas por personagens planas, que parecem santos de altar e nada têm a ver com elas. Muitas vezes os romances são um ponto de partida para que se interessem e queiram saber mais — e é para isso que lá está a bibliografia no fim de cada um dos meus livros.

Houve algo que um leitor seu tenha dito ou feito que a tenha marcado para sempre?

Tantas que é difícil escolher. A generosidade dos leitores que se dão ao trabalho de escrever só para elogiar e agradecer, que partilham o que sentiram e pensaram quando leram o que escrevi, comove-me. Fico também muito feliz quando os leitores que seguiram os caminhos de D. Filipa e D. Teresa (de que existem roteiros), mandam as fotografias que tiraram nos lugares onde estiveram e contam como foi emocionante visitá-los. Marcam-me ainda os professores que, a partir das minhas rainhas, contagiam os alunos com o prazer da leitura, levando-os a fazer trabalhos sobre elas, trabalhos originais e fortes que me surpreendem.

A Isabel é ‘um polvo de muitos braços’: avó, mãe, escritora e, quando não está a escrever, vira os «Dias do Avesso» em conversa com Eduardo Sá, na Antena 1. Como tem tempo para tudo? Qual é a sua rotina de escrita?

Vou definindo prioridades. Quem ou o quê precisa mais de mim hoje. E depois tento ir encaixando tudo, procurando que as coisas que me dão prazer se misturem com as que dão menos, compensando-se. E com conhecimento prévio do meu relógio biológico — o meu cérebro demora a acordar, precisa de tarefas mais físicas de manhã (arrumar a loiça na máquina, brincar com os netos, autografar livros como fiz recentemente com «Isabel de Aragão» em pré-venda para a Wook), e vai aquecendo para a escrita ao longo do dia — adoro escrever à noite, quando já estão todos na cama.

Escrever: é um processo partilhado ou solitário?

É um processo solitário, posso conversar muito com alguém sobre o que vou escrever, e depois de escrito posso dar a ler a pessoas cuja opinião me importa, mas o exercício de escrever é entre mim e o meu computador (ou folha de papel).

Escrever: dá energia ou tira energia?

Dá energia. Acho que os dedos a correr sobre o teclado do computador produzem eletricidade. Então quando corre bem, quando o ecrã branco se começa a encher de palavras que se transformam num texto forte, a adrenalina é imensa.

Os seus livros implicam muita investigação. Considera-se um Sherlock Holmes?

Um bocadinho detective, um bocadinho jornalista do passado, sim. Com a ajuda de uma historiadora, procuro ter acesso aos documentos e aos livros publicados sobre a personagem e o tempo que quero retratar, e depois junto as peças do puzzle. Às vezes falta uma peça durante muito tempo, e quando de repente a encontro é um autêntico eureka!

Gostava de ver os seus livros no grande ecrã?

Gostava imenso. Estas histórias, independentemente de serem contadas por mim ou por outros, davam séries de televisão fabulosas. Quando vejo séries como o “The Crown” ou a “White Queen” penso por que não uma série sobre Filipa de Lencastre e a filha, duquesa de Borgonha, ou sobre D. Maria II, ou D. Amélia. Talvez um dia...

Há um provérbio sueco que diz: “Quando o livro é bom, o melhor está nas entrelinhas”. Concorda?

Concordo completamente. Quando o livro é bom entramos nele, e encontramo-nos nele.

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?

Estive agora em São Tomé e Príncipe, que é mágico, um daqueles sítios que queremos que nunca percam a sua beleza natural, o encanto do seu povo. Fiquei cheia de vontade de explorar algumas das histórias que ouvi...

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?

Decididamente com o Oscar Wilde. Tinha de levar muitos lenços porque ia rir até às lágrimas.

Se tivesse um superpoder, qual seria?

O poder de voltar atrás no tempo! Podia entrevistar diretamente as minhas rainhas e todas as outras personagens.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.

Que me acusem de ter sido injusta. Porque se fui, fico desesperada comigo mesma e, se não fui, fico indignada.

Qual a pior e a melhor parte de ser escritor?

A pior parte é escrever qualquer coisa que é mal entendida, ou que é criticada selvaticamente, muitas vezes sem que tenha sequer sido lida. Como jornalista, acontece muitas vezes. A melhor parte é conseguir contribuir, nem que seja só um bocadinho, para tornar o mundo um bocadinho melhor. Como escritora, é tudo bom, adoro cheirar as folhas do livro, passar as páginas, ver como o grafismo das páginas tornou o texto tão apelativo.

Wook gostaria de ler sobre si?

Enquanto escritora? Que fiz rir e que fiz chorar, que comovi e diverti, que consegui que partilhassem da minha indignação ou comungassem da minha alegria. Enquanto pessoa, que consegui ser corajosa na defesa das causas em que acredito, lúcida, honesta, generosa e – posso pedir mais uma? – que tenho sentido de humor.

Consegue nomear 3 autores que a inspiram?

Posso nomear os quatro primeiros que me vêm à cabeça, mas ficam de fora muitos outros: Hillary Mantel, J.K. Rowling, Philippa Gregory e, mais recentemente, Elisabeth Strout.

Que livros lhe colocam um brilhozinho nos olhos?

Sempre que releio o Winnie the Pooh, do A.A. Milne, quando olho as capas dos livros dos Cinco, e aliás de quase todos os de Enid Blyton, da saga de Narnia, do C.S. Lewis e, inevitavelmente, sempre que pego de novo no Senhor dos Anéis, de Tolkien.

Wook tem vergonha de nunca ter lido?

Alexandre Herculano. Li no liceu, mas precisava de o reler de novo.

Projetos para o futuro?

No futuro próximo, dar a conhecer Isabel de Aragão e jardinar! Estou cheia de vontade de voltar ao meu jardim, e de fazer das minhas netas jardineiras. Venha o sol!


Por decisão pessoal, este texto não foi escrito segundo o novo Acordo Ortográfico.

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