Em nome da família

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
27 de dezembro de 2022
Já dizia Tolstoi, na primeira frase do seu Anna Karénina: «todas as famílias felizes parecem-se umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira». Juntamente com a saída de casa de Mrs Dalloway para comprar flores, esta é talvez uma das frases mais famosas da literatura universal. Estes livros provam a relevância da observação de Tolstoi.
O Evangelho segundo Jesus Cristo
Sem dúvida, a família mais conhecida de sempre. A maior parte de nós conhece grandes excertos da vida de Jesus e, sendo ou não religioso, esta será das figuras históricas mais consensuais, no que toca à sua dimensão de bondade e entrega. Saramago mostra-nos a humanidade avassaladora de Jesus mas também a sua fragilidade, as dúvidas, as incoerências. Jesus, Maria, José, uma família que, decerto não o imaginavam, vem a ser a mais conhecida do mundo. Quanto a Jesus, Saramago retrata-o como um ser humano que nem sempre acerta nas opções que toma e se desilude perante a incapacidade de transformar o mundo. A mudança de paradigma entre um Deus carrasco e um Diabo submisso é o mais revelador da obra, mas também, por certo, a visão culpada por granjear poucos afetos a Saramago no seio da Igreja Católica. O autor desfaz a linearidade entre bem e mal, entre certo e errado, ao propor uma versão de uma das mais conhecidas histórias da Humanidade. A ideia da rotatividade, do fim que é um começo e vice-versa, são apenas dois dos pontos mais interessantes deste livro, que constitui um dos maiores monumentos da cultura portuguesa.
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Em tudo havia beleza (Ordesa)
Uma confissão em forma de grito. Um pedido de socorro selvagem que faz tremer de compaixão. Trata-se de um diálogo constante entre o narrador e os seus pais, que já morreram. Mas também a história de um país, Espanha, de uma vila e de uma casa. E o presente do autor: a sua (não) relação com os filhos, o divórcio, a decadência e a superação. As descrições são soberbas, mas são sobretudo os objetos e a sua carga emocional que fazem a narrativa de Vilas tão especial. Ao leitor pede-se que tenha uma sensibilidade extra para apreciar a fineza de cada detalhe, a ironia, o desespero..., mas também o carinho com que Vilas fala dos pais e da doçura que imprime às personagens. É certamente um livro sobre muitas famílias. Sobre as relações humanas, o que fica por dizer após a morte de alguém, os espaços, a vivência das memórias e a irreversibilidade do tempo. Não há linha que não amássemos neste livro. Embora narre uma história familiar dura, muitos são os momentos em que sorrimos, alguns em que nos emocionamos e outros angustiantes. Tal como a própria vida e a sua beleza.
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Beloved
«O que são estas pessoas, Jesus? O que são estas pessoas?». Os verdadeiros monstros não pertencem a fábulas, nem os heróis reais aos livros. São ambos pessoas de carne e osso, que num dado momento vivem com os pés assentes no chão. Beloved é como visitar o fundo de um riacho, revolvendo a lama e turvando a água, percebendo cada detalhe que até aí nos passara totalmente despercebido. É um romance gótico no seu esplendor: aquela atmosfera que questiona as fronteiras entre o sobrenatural e os elementos, as personagens etéreas, os detalhes de uma feminilidade levadas ao extremo do mágico. Inspirado numa história real, Beloved conta como uma escrava matou a filha bebé perante o perigo de esta ter de viver o terror da escravidão. Ambientado no tempo em que os negros eram menos do que animais, num país que os feria até à mais inalcançável dignidade, o livro de Toni Morrison puxa-nos deste nosso insidioso conforto para um mundo de horrores. Beloved é um beijo aos gritos, é sangue lavado com sumo de morangos, carne cravada de feridas curadas com teias de aranhas. Depois de o lermos, caso não floresça em nós uma empatia desmesurada, duvido que sejamos pessoas.
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Se o disseres na montanha
Um livro cujo tamanho não se mede em páginas. Uma descrição de ideias, da relação de uma família com Deus, da sua presença num bairro difícil, num país que não os quer. A família de John, para a qual o escritor se terá baseado na sua própria vivência, é constituída por uma mãe, um padrasto e dois meios-irmãos. Até aqui nada de invulgar. O padrasto é uma personagem violenta mas um pastor da igreja. A mãe, uma fugitiva do sul dos EUA, segregacionista. E John é um adolescente queer que não se identifica com nada à sua volta. E o que é que está à sua volta? A submissão da mãe, a hipocrisia do padrasto, a presença estranguladora de uma igreja que pede redenção, que criminaliza o prazer, que exulta uma moral de certa forma importada do opressor. E o facto de todos se terem esquecido do seu aniversário mas não do culto semanal. Uma autêntica febre de punição, o implacável histerismo perante a diferença. E a vontade de John de se livrar de tudo aquilo. São muitos deste livro: o de um rapaz que se descobre, e à sua sexualidade, no meio de um sistema opressor e uma opressão autoinfligida numa comunidade já tão massacrada e violentada ao longo das décadas.
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