Famílias que parecerão parte da sua
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17 de janeiro de 2020
Há livros que não nos largam, há personagens que ficam connosco muito tempo, e há famílias que nos abrem de tal forma a porta de casa que nos dão vontade de acrescentar um nome ao apelido. Por vezes, nem é pela simpatia, é mesmo por nos meterem no epicentro dos seus dramas. De seguida, seguem algumas das famílias da literatura que nos fizeram ver o mundo - a narrativa, vá - a partir das suas casas.
Os Weasley
Parece que basta conhecê-los para não sairmos dali. Harry Potter surpreendeu pela coragem, Hermione Granger pela inteligência, e a família de Ron surpreendeu por todo o lado. Os Weasley deixam logo inveja: basta vê-los em ação para querermos ser um deles. Ruivos, sardentos, de olhos azuis e meio desengonçados, são uma massa compacta que não deixa nenhum a sós. Quando um se fere, dói a todos – e ao leitor também. De toda a magia do universo Harry Potter, não é de somenos a coesão daquela casa. Chama-se A Toca, e ali dentro tudo é mágico, ou não fossem todos feiticeiros. Vivem em mínimos olímpicos, quase sem dinheiro, mas dão sempre ideia de que nunca falta nada. De gémeos que só fazem asneiras ao burocrata do Ministério, de um treinador de dragões a um funcionário do banco, de uma atleta a um caçador de feiticeiros negros, parece que temos tudo na família Weasley.
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Os Irmãos Karamázov
Estes parecerão nossos porque Dostoiévski nos meteu lá. O escritor russo dá detalhe e profundidade às coisas. Os irmãos Karamázov dão-nos um grande embate entre pai e filho, retratando o complexo de Édipo. No que Dostoiévski escreve, há pormenor e verdade, tudo sabe a coisa que fica dentro do leitor durante muito tempo. Ainda por cima, leva-se o narrador a sério – quando lhe falta um detalhe, pede desculpa. Ainda assim, a narrativa vai a todo o lado, inferindo os pensamentos das personagens.
Ao contrário dos Weasley, estes são disfuncionais. O pai parece um conjunto mal desenvolvido de defeitos. Não há dentro de si algo que lhe garanta redenção. Para além de corrupto e imoral, tratou mal as duas mulheres com quem casou. Os filhos, Dimitri, Alyosha e Ivan, são muito diferentes, e são um conjunto de personagens formidável. À sua maneira, cada um tem a distância do pai.
Num romance maravilhoso sobre o livre-arbítrio e a moralidade, temos personagens em ação, atadas umas às outras por laços de sangue. Ao leitor, será difícil esquecer.
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Ao contrário dos Weasley, estes são disfuncionais. O pai parece um conjunto mal desenvolvido de defeitos. Não há dentro de si algo que lhe garanta redenção. Para além de corrupto e imoral, tratou mal as duas mulheres com quem casou. Os filhos, Dimitri, Alyosha e Ivan, são muito diferentes, e são um conjunto de personagens formidável. À sua maneira, cada um tem a distância do pai.
Num romance maravilhoso sobre o livre-arbítrio e a moralidade, temos personagens em ação, atadas umas às outras por laços de sangue. Ao leitor, será difícil esquecer.
Os Buddenbrook
Publicado em 1901, o livro de Mann descreve com minúcia a ascensão e a decadência de uma família alemã. A coisa vai ao ar e desce em quatro gerações e esta saga familiar, que é das mais proeminentes do mundo, usa o detalhe para agarrar o leitor. Ao longo de centenas de páginas, temos a vida e os costumes. Só isso já não é coisa pouca, já que Mann vai mostrando os dilemas daquela classe social. A aparência é uma coisa, o poder alicerçado em fraude é outra. Não é que com os Buddenbrook o leitor se ponha no mesmo lugar de empatia que com os Weasley, ou até no mesmo lugar de confusão que os Karamázov, garantindo logo um vínculo afetivo, mas o facto de o romance se voltar para quatro gerações, entrelaçando as personagens e os atos, mostrando uma página como consequência da anterior, permite ao leitor ser parte da história e ter sobre esta uma visão panorâmica.
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