Dia do Autor Português
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@literacidades
18 de maio de 2022
O Dia do Autor Português celebra-se a 22 de maio, mas deveria ser todos os dias. É fundamental celebrar as narrativas escritas em português e apoiar quem por cá tenta viver dos livros. Estes são alguns autores que descobrimos recentemente e que foram uma boa surpresa. Descubra connosco escritores portugueses dos quais lemos apenas um livro, mas que nos deixaram a salivar por mais.
Cuidado com o Cão
Este era um daqueles escritores portugueses que nos faltava conhecer. Bom, na realidade, parece que todos já conhecemos Rodrigo Guedes de Carvalho, que nos entra pela casa dentro quase todas as noites. Mas descobri-lo enquanto escritor foi uma excelente escolha. Neste seu mais recente livro, o ritmo do texto vai-nos guiando, à medida que evolui num sentido muito diverso daquele que esperávamos, com as suas rebeldias, e nos deixa por vezes sem chão. O narrador, imaginamo-lo caminhando pelas ruas da ação, pelos tempos e cenários, figura presente, observação contínua, quase uma personagem noir que nos vai segurando o fôlego nas esquinas do livro. Em Cuidado com o Cão, duas irmãs gémeas trapezistas largam a barra e acabam por se abandonar uma à outra. Aqui encontramos também a eterna melancolia de um pai de circo e o retrato da mãe morta, por vezes mais interveniente do que os vivos. Do outro lado, António Pedro, ora criança, ora adulto, ora idoso. Quase conseguimos imaginar-lhe os olhos e neles ver o filme da sua vida, cheia de más opções, de falhas, mas plena também do bem e do cuidar dos outros. Este é um romance onde perpassa a ideia de vários retalhos cosidos por elementos comuns, como os quatro cães, personagens essenciais. É um «livro-cão», que nos mostra que a alegria da fração de segundo é por vezes mais eterna do que as grandes decisões e ponderações.
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Filho da Mãe
«Do mais fundo de mim, eu sei que te traí, Mãe». Assim começa um dos mais conhecidos poemas da lusofonia. Eugénio de Andrade leu-nos e àquilo que temos de mais nosso: o amor à nossa mãe. Mas, e se não tivéssemos tido tempo de a trair, porque a mãe nos foi levada quando ainda mal conseguíamos juntar as letras que formam o seu nome? Este é um livro de uma profunda ausência na vida de um homem. Mas uma ausência que o esculpe, que o faz, sem a qual Hugo Gonçalves, o autor, não seria este Hugo, mas outro.
Com este livro, percebemos que a ausência da mãe é um dos principais alicerces de uma personalidade. Um homem que se expõe ao mais sincero que vive nele. Aqui encontramos um homem cheio de erros, de caminhos e decisões tortas, homem de carne e osso que aprendeu a viver sem a presença física da sua mãe. Um homem menino que vimos com uma procura eterna pelo insubstituível amor materno. Hugo encontra-o em memórias que quer reconstituir, traços de memórias, cheiros, a mão dada à mãe numa fotografia, o seu sorriso, a notícia da sua morte e como estava a casa quando a mãe partiu para uma derradeira viagem na esperança de uma cura. Não obstante a intensidade levada a um nível avassalador, nada aqui se lê como busca desbragada de atenção. Há até um humor fantástico que povoa estas páginas e as torna mais leves. O Filho da Mãe é um livro sobre a resistência de um menino à maior brutalidade que lhe podem fazer. E sobre a resolução de um homem em construção.
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Com este livro, percebemos que a ausência da mãe é um dos principais alicerces de uma personalidade. Um homem que se expõe ao mais sincero que vive nele. Aqui encontramos um homem cheio de erros, de caminhos e decisões tortas, homem de carne e osso que aprendeu a viver sem a presença física da sua mãe. Um homem menino que vimos com uma procura eterna pelo insubstituível amor materno. Hugo encontra-o em memórias que quer reconstituir, traços de memórias, cheiros, a mão dada à mãe numa fotografia, o seu sorriso, a notícia da sua morte e como estava a casa quando a mãe partiu para uma derradeira viagem na esperança de uma cura. Não obstante a intensidade levada a um nível avassalador, nada aqui se lê como busca desbragada de atenção. Há até um humor fantástico que povoa estas páginas e as torna mais leves. O Filho da Mãe é um livro sobre a resistência de um menino à maior brutalidade que lhe podem fazer. E sobre a resolução de um homem em construção.
O Lugar das Árvores Tristes
Somos em parte as nossas próprias decisões, somos também fruto do que não controlamos e somos obra do que os outros quiseram para nós. Pensemos agora numa vida em que apenas os outros decidem por nós e as decisões individuais são-nos totalmente ceifadas. Uma vida criança, em que outros têm a palavra sobre o lugar para onde vamos. A vida de Lurdes foi talhada, qual tronco de árvore, pelos outros. Os pais, um agressor, o padre, a tia e depois, em parte, os filhos. E não há nada de incomum nisto. No apartamento ao lado, na aldeia dos avós, no grupo de pessoas que vemos sair da igreja pela janela do carro, quantas pessoas não viveram 70, 80, 90 anos entregues a uma série de convenções e decisões que não foram elas que elaboraram. Se o foco se dirigir para as mulheres, mais ainda. O livro de Lénia Rufino apresenta-nos uma Lurdes que poderia estar à janela de um prédio perto de nós ou ser aquela senhora a quem perguntamos direções quando nos perdemos numa estrada desse Portugal profundo. Uma multidão de mulheres forçadas a calarem-se mas que formaram quem somos, pois são nossas mães, avós ou tias. O Lugar das Árvores Tristes presta-lhes homenagem, trazendo-as para o papel de personagem principal, papel esse que não representaram na sua própria vida. É um livro extremamente bem escrito e que retrata uma ruralidade doentia de uma época à qual não queremos voltar.
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A Mulher-Casa
As promessas de uma vida rodeada de brilho e eventos que Paris parecia garantir a um jovem casal veem-se cada vez mais apagadas pelo que os dois encontram na capital francesa. Ele, um escritor fantasma dedicado a preencher as biografias de políticos e personalidades pouco relevantes, e até algo duvidosas, e ela, uma modista de chapéus que vive no anonimato que lhes dá a pacata localidade de Aix-en-Provence. Mudados para Paris, o sucesso dele remete Mara para uma condição doméstica, no seu papel de mãe e dona de casa. Ao contrário das expectativas criadas pelo dois, apenas a vida dele parece encontrar em Paris algo daquilo que procuravam. Mara remete-se a uma solidão sem par, última companhia ao desencanto com que vê os seus planos cada vez mais longínquos. E, nesta situação de profunda desolação, com um marido ausente e confinada às paredes da sua casa, como poderia resistir aos encantos de Matthéo, mais novo do que ela, sedutor, que parece proporcionar-lhe a alegria que o marido há muito esqueceu que ela merecia? Mas a cabeça das pessoas não é assim simples. A luxúria e o fogo do seu novo amor embatem nos seus ideais e no que a sociedade espera dela. Dentro de si própria começam as dúvidas, ao não saber responder se, enquanto mulher adúltera, pode ser também uma boa mãe, ou se este amor que vive à revelia das instituições não é apenas uma forma de provar a ela própria que está viva. Tânia Ganho, que posteriormente nos encantou com o romance Apneia, apresenta aqui também uma mulher em conflito consigo, com o que os outros esperam dela e com o que a vivência da felicidade pode acarretar de medo e ansiedade.
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