Quatro clássicos portugueses para (re)ler nas férias
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17 de janeiro de 2020
Não é necessário estar a flanar ociosamente numa quinta à beira-Douro, entre os turistas do Chiado ou o arvoredo de Sintra, de papo para o ar na praia da Figueira da Foz, a cirandar pelas ilhas açorianas ou em Alhandra, com o Tejo aos pés, para mergulhar de cabeça nestes quatro clássicos da literatura portuguesa. Férias são férias. Aproveite, pois, para desligar o telemóvel, ligar o cérebro e revisitar o Portugal de outros tempos conforme o descreveram, em diferentes épocas, quatro autores essenciais da literatura portuguesa. Puro prazer estival, livre de quaisquer obrigações e ao preço módico de um livro de bolso.
OS MAIAS
É provável que tenha sido obrigado a lê-lo na escola e atormentado pela necessidade de decorar o resumo detalhado dos dezoito capítulos e a importância das analepses na economia da narrativa da obra. Esqueça. Eça não tem culpa nenhuma disso. Livre das obrigações escolares, o romance que publicou em 1888 é puro gozo — da língua portuguesa, do ambiente lisboeta da época e de uma certa, e deliciosa, safadeza oitocentista.
Se não tiver presente, sequer, o fulcro do enredo, tanto melhor. Da ficcional Quinta de Santa Olávia — na margem esquerda do rio Douro, em Resende, entre “águas vivas, nascentes e repuxos” — à “Toca” dos Olivais, passando pelos vícios e empáfias da aristocracia lisboeta do final do século XIX, Os Maias ferve de amores adúlteros e de extraordinárias tiradas cómicas, nas quais, não raro, se percebem rasgos de enorme atualidade. No fundo, pouco mudou: troquem-se as carruagens puxadas a cavalo pelos últimos modelos da Mercedes (ou da Tesla), as casacas e a seda dos vestidos pelas modas da Avenida da Liberdade ou do El Corte Inglés, e a “choldra” queirosiana mantém-se quase intacta e vivíssima. No centro da narrativa estão os amores de Carlos da Maia e Maria Eduarda, e uma história com o seu quê de trágico e de refinado humor. Quando a intriga se esclarece, Carlinhos e João da Ega farão o que até há bem pouco tempo faziam os melhores clientes das companhias aéreas da era pré-Covid: partem de viagem para o Japão, com passagem por Londres, devidamente anunciada na coluna «High Life» da Gazeta Ilustrada, a qual, à época, fazia as vezes das redes sociais de agora. Por outro lado, se os homens d’Os Maias são vaidosos, volúveis, covardes e fracos, as mulheres, essas, são todas apaixonadas, inebriantes, altivas e capazes de meter num bolso as influencers do Instagram do século XXI: de Maria Monforte a Maria Eduarda, passando pela judia Raquel Cohen ou pela ruiva condessa de Gouvarinho, o mais difícil é não cair tão enamorado como Pedro da Maia, Carlos, Dâmaso ou João da Ega.
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Se não tiver presente, sequer, o fulcro do enredo, tanto melhor. Da ficcional Quinta de Santa Olávia — na margem esquerda do rio Douro, em Resende, entre “águas vivas, nascentes e repuxos” — à “Toca” dos Olivais, passando pelos vícios e empáfias da aristocracia lisboeta do final do século XIX, Os Maias ferve de amores adúlteros e de extraordinárias tiradas cómicas, nas quais, não raro, se percebem rasgos de enorme atualidade. No fundo, pouco mudou: troquem-se as carruagens puxadas a cavalo pelos últimos modelos da Mercedes (ou da Tesla), as casacas e a seda dos vestidos pelas modas da Avenida da Liberdade ou do El Corte Inglés, e a “choldra” queirosiana mantém-se quase intacta e vivíssima. No centro da narrativa estão os amores de Carlos da Maia e Maria Eduarda, e uma história com o seu quê de trágico e de refinado humor. Quando a intriga se esclarece, Carlinhos e João da Ega farão o que até há bem pouco tempo faziam os melhores clientes das companhias aéreas da era pré-Covid: partem de viagem para o Japão, com passagem por Londres, devidamente anunciada na coluna «High Life» da Gazeta Ilustrada, a qual, à época, fazia as vezes das redes sociais de agora. Por outro lado, se os homens d’Os Maias são vaidosos, volúveis, covardes e fracos, as mulheres, essas, são todas apaixonadas, inebriantes, altivas e capazes de meter num bolso as influencers do Instagram do século XXI: de Maria Monforte a Maria Eduarda, passando pela judia Raquel Cohen ou pela ruiva condessa de Gouvarinho, o mais difícil é não cair tão enamorado como Pedro da Maia, Carlos, Dâmaso ou João da Ega.
MAU TEMPO NO CANAL
«Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas». A bucólica descrição podia constar de um qualquer guia de viagem dos Açores, à mão de um moderno turista. Mas não. É o princípio do nono capítulo de Mau Tempo no Canal, no qual Vitorino Nemésio, com as cores fortes e realistas de 1920, pinta as ilhas que a indústria do turismo tem vindo a descobrir nos últimos anos. Publicado originalmente em 1944, o romance atravessa os ambientes e as paisagens do Faial, da Terceira, de São Jorge e do Pico, e sobretudo da cidade da Horta, centrando-se num enredo tributário da impossível e imortal paixão de Romeu e Julieta, deslocado, porém, para o ambiente estratificado, burguês, beato sombrio e opressivo dos Açores.
A intriga está semeada de pródigas pinceladas de análise social, úteis para a compreensão da atualidade das ilhas e dos seus lugares. Mais do que a história da afeição de Margarida Clarck Dulmo e João Garcia, trata-se de uma viagem ao carácter dos açorianos, das suas emoções, cheiros, palavras e angústias, entre muros de pedra de lava e temporais copiosos, as vítimas da peste, as touradas e a aventura épica dos baleeiros — a golfada de um grande cachalote erguendo-se das ondas, o remo de esparrela empunhado, os homens avançando para o combate sem pinga de sangue. No centro de tudo, Margarida carrega no dedo, até ao fim, um anel figurando uma serpente cega.
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A intriga está semeada de pródigas pinceladas de análise social, úteis para a compreensão da atualidade das ilhas e dos seus lugares. Mais do que a história da afeição de Margarida Clarck Dulmo e João Garcia, trata-se de uma viagem ao carácter dos açorianos, das suas emoções, cheiros, palavras e angústias, entre muros de pedra de lava e temporais copiosos, as vítimas da peste, as touradas e a aventura épica dos baleeiros — a golfada de um grande cachalote erguendo-se das ondas, o remo de esparrela empunhado, os homens avançando para o combate sem pinga de sangue. No centro de tudo, Margarida carrega no dedo, até ao fim, um anel figurando uma serpente cega.
ESTEIROS
Não por acaso, oitenta anos após a primeira publicação de Esteiros, três edições distintas devolveram nos últimos meses aos escaparates das livrarias aquela que é uma obra fundamental do neorrealismo português e o retrato pungente da época em que os filhos dos homens não tinham, sequer, o direito a serem crianças — aos quais, de resto, Soeiro Pereira Gomes dedicou o livro.
Obra de denúncia da pobreza extrema, da injustiça social e do trabalho infantil enquanto regra essencial à sobrevivência de milhares de famílias de norte a sul do país durante o século XX português, o romance tem como cenário a vila de Alhandra, na margem direita do Tejo e às portas de Lisboa. Mas a intriga podia ser em Marte ou em qualquer outro planeta estranho e inóspito, tão distante está a realidade descrita no romance do quotidiano das mimadas crianças do século XXI, a despeito das desigualdades e iniquidades que, apesar de tudo, foram persistindo.
Para que a História não se esqueça nem se repita, Saguí, Gineto, Gaitinhas, Guedelhas e Maquineta estão, pois, de regresso, numa história que, pela sua frescura, lirismo e dimensão ética, foi capaz de superar os engulhos ideológicos e os atavismos estéticos do neorrealismo. Trabalham ora nos barcos que sulcam o rio, ora a descarregar vagonetas, ora numa fábrica de telhas que se alimenta da lama do Tejo vertida nos seus esteiros, e tudo lhes é negado — a infância, a escola, a comida, a roupa, o prazer, a família, o sonho e, às vezes, o próprio trabalho —, enquanto, ali ao lado, há cães de raça que só comem carne.
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SINAIS DE FOGO
Publicado postumamente em 1979 e concebido como parte de um projeto mais ambicioso que Jorge de Sena já não teve tempo de concluir, Sinais de Fogo é o retrato de um tempo (a década de 1930) e da geração que nele viveu, entre os primeiros sinais da ditadura que se instalava em Portugal e os ecos da guerra civil espanhola — mas também, e sobretudo, da descoberta do narrador, Jorge, enquanto persona poética. Atingido por um verso numa praia da Figueira da Foz – precisamente aquele em que percebe a humanidade como um conjunto de sinais de fogo no horizonte obscuro –, Jorge achar-se-á “transformado em poeta, por obra e graça”, e, portanto, “detentor da pedra filosofal (uma pedra filosofal que, em vez de fazer ouro com metais ignóbeis, abstraísse palavras da merda da vida)”.
O livro conta com um dos mais excitantes arranques narrativos de toda a literatura portuguesa do século XX e vagueia entre o ambiente estival da Figueira da Foz transformada pelas consequências da guerra no país vizinho e uma Lisboa opressiva e inimiga das liberdades individuais, cuja marginal de “azinhagas lúgubres”, entre Belém e Algés, se vê povoada de montanhas de carvão e barracas de madeira habitadas por gente miserável.
Recriação das experiências pessoais do autor e do tumultuoso e vibrante processo de entrada na idade adulta, Sinais de Fogo cruza os sinais da História com o processo criativo do narrador, as paixões e a descoberta sexual de uma geração angustiada pelas imprevisíveis tragédias que se pressentem nas vésperas do início da Segunda Guerra Mundial. É também, por isso, um reflexo (onírico, poético, realista, moderno e perturbador) da sociedade portuguesa da época e, necessariamente, um manifesto estético e político, no qual Jorge de Sena trabalhou durante o seu exílio no Brasil.
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