Descobertas literárias

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
5 de julho de 2024
Autores como estes têm o condão de nos surpreender sempre.

 
Nome de Guerra
Quando pensamos em Almada Negreiros, vem-nos à memória o artista plástico. A Gare Marítima de Alcântara e os seus murais são o exemplo por excelência de um homem modernista, um artista polémico pela forma de se expressar e contrariar as ideias vigentes. Lembramo-nos também do famoso Manifesto Anti-Dantas e da revista Orpheu. Mas poucos associarão Negreiros ao romance. Nome de Guerra já fez parte das leituras obrigatórias do ensino secundário, mas parece ter ganhado, ultimamente, uma pátina de invisibilidade que o único romance de Almada Negreiros não merece. Nele encontramos uma Lisboa de tascas e bordéis, aonde vai parar Luís Antunes, rapaz do campo enviado para a capital pelo seu tio, para que se fizesse um homem. Antunes vai cruzar os seus passos com os da anti-heroína Judite, mulher da vida. De várias vidas, aliás. Ela própria uma personagem de muitos ângulos, com traços de caráter dúbio e castiço ao mesmo tempo. «Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar» encerra um romance de uma contemporaneidade muito própria, que vale a pena ler e assim conhecer outra faceta do artista.
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Aprender a rezar na era da técnica
Poderá ser uma afirmação polémica, mas acreditamos que há livros que exigem uma certa maturidade literária e pessoal antes de chegarmos até eles. Este é um deles. Gonçalo M. Tavares é o escritor português vivo mais traduzido, com as suas obras a chegarem aos quatro cantos do mundo. A sua voz lembra-nos a crueza com que a realidade se nos apresenta, não obstante esse jogo constante de equilíbrio entre o indizível e a vida. Somos espectadores das cenas deste romance, inserido na série de livros O Reino, e tantas vezes se dá aquele momento de comoção que nos coloca num território incómodo, mas do qual não podemos sair. Em Aprender a rezar na era da técnica, encontramos um ser humano absolutamente execrável. Um médico-cirurgião, dos melhores, mas que contesta a ideia da bondade perante a da função. Esse médico decide abraçar o Partido, de forma a estender o seu raio de ação e mudança não apenas aos pacientes que trata, mas a toda a cidade. Vamos assistindo à perfídia da personagem, cuja curva atinge um clímax inesperado para depois entrar numa vertigem de decadência. A partir deste livro, uma coisa é certa: queremos conhecer a obra toda do autor.
QUERO LER!
Snow
Não restem dúvidas de que estamos perante um policial. Há um assassinato, um conjunto de suspeitos, uma casa misteriosa, um detetive e várias conjeturas. Mas este livro prova que também o género policial pode ter uma escrita literária rica. A forma como estão descritos aqueles lugares, sempre perante a asfixia de uma neve que não cessa, a casa de uma família em absoluto desconserto, com as suas feridas expostas, ainda que acreditem que ninguém as percebe. Um padre é encontrado morto, com sinais de asfixia e mutilação, na biblioteca da grande mansão e imediatamente todos são suspeitos. Onde é que já lemos isto antes? A homenagem a O Nome da Rosa fica-se, contudo, por aí. Porque estamos em terras isoladas da Irlanda, pequenas comunidades com os seus vícios e preconceitos e uma Igreja que em nada facilita o desempenho do inspetor. A meio do livro, um testemunho em primeira pessoa a que é impossível ficar indiferente. Passámos, de repente, do imaculado da neve ao que de mais pútrido pode existir na alma humana. No final, o desfecho é o que menos nos impacta porque a experiência de leitura em si, o nosso próprio envolvimento com os lugares e as personagens, foi o que de mais fascinante levámos deste romance.
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