Como pôr as crianças e jovens a ler

Entrevista a Sara de Almeida Leite
17 de janeiro de 2020
Como ajudar as crianças e jovens a criar hábitos de leitura? E como motivar os nossos adolescentes para o estudo dos grandes clássicos da literatura?

A esse propósito, estivemos à conversa com Sara de Almeida Leite, que tem publicado artigos sobre o tema e que é autora de uma coleção de sucesso para jovens.

Leia para saber mais!



Sara Almeida Leite
Sara de Almeida Leite, a autora da coleção Os Mega B.A.Y.T.E.S.
A Sara coordena uma pós-graduação em Arte de Contar Estórias. O que é isso da “arte de contar estórias”? É realmente algo que se aprenda?
Sem dúvida que sim! O curso é sobretudo vocacionado para a narração oral (valorizando o património tradicional), mas também tem uma componente dedicada à mediação do livro e da leitura. Há todo um saber teórico e um conjunto de práticas com que os formandos contactam, que os ajudam a desenvolver técnicas diversas para se especializarem nesta arte. Quando nos envolvemos de corpo e alma, percebemos que o poder das histórias é imenso, tanto para quem escuta como para quem conta. Eu diria que esta formação não serve apenas para aprendermos, porque é também reveladora e transformadora, a um nível pessoal e emocional.


Uma das suas áreas de especialização é o ensino da literatura. A esse nível, parece ser um desafio cada vez maior motivar os adolescentes para a leitura dos nossos grandes clássicos, como Os Maias. Enquanto pais e educadores, o que podemos fazer? Qual será a melhor abordagem?
As práticas escolares que centram a leitura literária na informação a saber sobre os clássicos acabam por desmotivar os jovens e por fazer com que a sua leitura pessoal dos textos seja dispensável, porque todos têm de se conformar a uma interpretação que já foi feita por outrem. O que eu defendo é que tanto os professores como os pais se preocupem sobretudo em transmitir aos jovens o gosto que eles próprios têm pela literatura. Isso consegue-se lendo para e com os alunos – dando-lhes a possibilidade de expressarem o que entendem dos textos – e também, claro, sendo um exemplo “contagiante”, como Daniel Pennac (aconselho todos os adultos que se preocupam com esta questão a lerem o seu livro Como um Romance).


E, antes disso, ainda na infância, como podemos estimular o gosto pelos livros nos mais pequenos, ajudando-os, tanto antes como depois de aprenderem a ler, a criar hábitos de leitura?
Dando-lhes muitas oportunidades de ver e manusear livros de diferentes formatos e géneros, contando-lhes histórias (não apenas à hora de dormir!), demonstrando de forma recorrente e convincente que nós também temos prazer em ler, criando momentos especificamente destinados à leitura, envolvendo-os em atividades divertidas e dinâmicas relacionadas com livros... enfim, insistindo. Sem forçar, mas sem nunca desistir!

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Os Mega B.A.Y.T.E.S. - Os escolhidos é o primeiro livro da nova série da autora.

Há muitos jovens que gostam de ler, mas que depois não conseguem fazer a transição das leituras infantojuvenis para uma literatura mais adulta. Tem algum conselho a esse nível?
Penso que a razão pela qual os adolescentes e jovens adultos perdem o interesse pela leitura se prende com a forma como as obras literárias são abordadas no ensino secundário. Ficam tão enfastiados pelo facto de serem obrigados a “ler” textos que mal compreendem, com os quais não se conseguem identificar e sobre os quais têm de fixar tanta informação, que acabam por ganhar aversão aos livros. Para além disso, como sabemos, as exigências e distrações da vida contemporânea, dominada pelo audiovisual, fazem com que a maior parte dos adultos considere que, no seu dia a dia, tem inúmeras prioridades que legitimam o argumento de “não ter tempo” para ler, por mais que gostassem de o fazer. Ora, se os pais pouco ou nada leem, como é que podem incentivar os filhos a fazê-lo? Só parando para repensar as suas prioridades!




Outra das suas áreas de trabalho está relacionada com o uso correto do português; já escreveu alguns livros sobre deslizes gramaticais que quase todos nós cometemos; qual é o que mais a irrita?
Ocorrem-me três erros que acho especialmente irritantes: “há um ano atrás”, “fazer uma rúbrica” e “estar encarregue”. Mas tenho de admitir que eu própria os cometeria, se não fosse professora de português. São erros muito comuns, por isso as pessoas têm toda a legitimidade para os dar, já que os ouvem e leem com frequência. Tenho a noção de que, dentro de alguns anos, até podem tornar-se perfeitamente aceitáveis, tal como sucedeu com bêbado, esparguete e ensonso...


Voltando aos jovens e à relação destes com a leitura, há alguns anos a Sara criou uma coleção de livros para jovens muito bem-sucedida: O Mundo da Inês. Como surgiu a ideia para essa série?
Surgiu muito espontaneamente, quando estava de férias com a família numa casa no campo, em agosto. A minha filha – que, na altura, tinha 11 anos – tinha levado um ou dois livros, mas já os tinha lido mais do que uma vez e estava bastante aborrecida, porque chovia, não havia wi-fi e os primos só chegariam daí a uns dias. Então, propus-me escrever uma história para ela se entreter. Como ela gostava muito das séries da Enid Blyton passadas em colégios internos, inventei um enredo em que uma menina se via obrigada a sair da sua escola normal e a ingressar no internato, para que a minha pequena leitora se sentisse identificada. E sentiu!


Não deve ser fácil escrever para esse público, até porque a “concorrência” é forte: as consolas de jogos, os tablets, os serviços de televisão em streaming, as redes sociais… Há algum “segredo” na escrita de ficção para jovens?
Talvez exista um segredo, não sei, mas penso que as razões para gostarem do que escrevo se prendem com a atualidade (o facto de a história se passar no presente, havendo diversas referências a pessoas que estão vivas e a realidades relativamente recentes, como o WhatsApp) e também com a proximidade (o facto de os leitores se poderem identificar facilmente com as personagens, porque elas pertencem ao mesmo contexto sociocultural e geracional). Mas penso que também é muito importante que o escritor seja genuíno, isto é, que ofereça algo de si, que o que escreve lhe saia da alma e revele a pessoa que ele ou ela realmente é.


Em setembro irá lançar uma nova coleção, Os Mega B.A.Y.T.E.S.. Pode explicar-nos em que consiste esta nova série? Quem são Os Mega B.A.Y.T.E.S., como surgiu a ideia para estes livros e a quem se destinam?
A ideia para esta nova coleção surgiu na sequência de um desafio que a Porto Editora me lançou: criar uma série com mais aventura, que pudesse interessar tanto a rapazes como a raparigas. Então, resolvi inventar um enredo cujo protagonista fosse um rapaz, mas logo me pareceu que ele devia ter um grupo de amigos com quem interagir e partilhar as suas descobertas. São eles próprios que se intitulam Os Mega B.A.Y.T.E.S. quando adquirem superpoderes, e o acrónimo baseia-se nos seus nomes: Bárbara, Afonso, Yara, Tiago, Eduardo e Soja, a cadela do Afonso.


Ainda se lembra qual era o seu livro preferido quando era criança?
Não sei bem... havia vários! Talvez Marcelo, Martelo, Marmelo, de Ruth Rocha, uma autora brasileira. O livro tem 3 histórias que me marcaram bastante, porque os protagonistas são crianças “reais” que têm problemas que as angustiam bastante, mas que elas conseguem resolver com uma atitude positiva. É realista, bem-humorado e bastante original. Nunca me esqueci dele, apesar de não saber já como é que me foi parar às mãos. Há uns anos, quando o procurei em casa dos meus pais, fiquei tristíssima, porque tinha desaparecido. Então, pedi a uns amigos que estavam no Brasil que me comprassem outro e eles, para minha grande alegria, encontraram um igualzinho ao que eu tinha, editado nessa altura.


E qual foi o último livro que leu e que adorou? A última obra que li e que me encantou ao ponto de andar a tentar convencer amigos e familiares a lerem-na também foram as Cartas do Japão de Wenceslau de Moraes (são vários volumes, mas eu só tenho os dois primeiros da segunda série), escritas entre 1907 e 1910 e publicadas, na altura, no jornal O Comércio do Porto. É um documento histórico interessantíssimo, que nos permite compreender muito do que aconteceu posteriormente, a nível de política internacional, e que contém descrições pormenorizadas da cultura japonesa, muitas lendas e histórias verídicas engraçadas e comoventes e, claro, diversas comparações entre a mentalidade e os hábitos de japoneses e europeus. A sensibilidade, o humor e a profundidade das considerações do autor fizeram-me sentir feliz por ter resolvido ler uns livros velhos que estavam esquecidos.

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