Desbravando a literatura complexa

Por Álvaro Curia/ Ludgero Cardoso
@literacidades
20 de abril de 2023
Alguns livros são autênticos quebra-cabeças. E não falamos de thrillers nem de policiais. Também não nos levem no sentido literal, estes livros não são forçosamente calhamaços! São romances cuja complexidade exige esforço. Há até quem estude antes de os ler. Se é daqueles leitores que aceita desafios, atente bem a estes títulos.
 
Ulisses
Se os nossos estudantes se queixam da complexidade de algumas obras que têm de ler no ensino secundário, imagine-se se entre o conjunto das obras de leitura obrigatória, à semelhança, por exemplo do ensino irlandês, figurasse este Ulisses, de James Joyce. Trata-se de uma obra e de uma escrita que desafiam até mesmo os leitores mais experientes. Muitos o iniciam, mas nem todos o terminam, deixando muitas vezes o dia de Leopold a meio. A narrativa segue precisamente um dia na vida de Leopold Bloom, mas apresenta inúmeras referências históricas, culturais e literárias que podem ser difíceis de compreender. Bem como a própria linguagem e o experimentalismo que contém. Apesar disso, o livro é frequentemente citado como um dos melhores textos já escritos, aparecendo amiúde em lugares cimeiros de listas de melhores livros de todos os tempos.
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Finnegans Wake
Ninguém estranhará bisarmos James Joyce.numa lista destas. Este irlandês, que viveu na primeira metade do séc. XX, parece ter tirado o dia para nos confundir. E para os que acreditam que Ulisses é complicado, eis que surge Finnegans Wake. Considerado um dos livros mais desafiantes da literatura ocidental, está escrito numa linguagem altamente experimental e quase indecifrável, sendo frequentemente descrito como um livro que estimula qualquer leitor a compreendê-lo por completo… mas a raras vezes o conseguir. É o último livro de Joyce e levou 17 anos a ser concluído. A obra é uma mistura de línguas e palavras criadas pelo autor, o que torna ainda mais difícil entendê-la completamente. Apesar disso, Finnegans Wake continua a ser estudado e admirado pela sua originalidade e complexidade.
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Arco-Íris da Gravidade
Agora, para a dose de complexidade ser ainda mais desafiante, trazemos as ciências e a matemática para a conversa. Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon, é um romance pós-modernista com narrativa fragmentada. O enredo segue as histórias de várias personagens, incluindo um matemático, que está a desenvolver uma nova teoria da relatividade, e um oficial da inteligência britânica durante a Segunda Guerra Mundial. A obra inclui referências a diversas disciplinas, incluindo história, matemática, física e filosofia, e apresenta uma visão crítica da ciência e da tecnologia. O livro é conhecido pela sua linguagem densa e técnica, sendo considerado um clássico da literatura pós-moderna. Um épico de culto que é um importante representante da literatura da segunda metade do século XX.
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Em Busca do Tempo Perdido
Neste caso, o nome diz tudo. A leitura deste portento de Proust leva tempo. Vamos ter momentos em que vamos achar que estamos à deriva, outros em que as divagações do narrador nos vão fazer suspirar por uma aceleração da prosa. Mas, no fim, provavelmente vai dar como ganho, e não como perdido, o tempo que passou às voltas com Proust. Trata-se de uma obra monumental e extensa que conta a procura do narrador pela sua identidade através de memórias da infância e da juventude. A obra é frequentemente descrita como constante, devido à sua estrutura repetitiva e detalhada. No entanto, muitos leitores consideram a leitura transformadora. O livro também é frequentemente associado a um certo elitismo literário, devido ao seu tom refinado e à preocupação com as nuances da vida aristocrática francesa do século XIX. Não obstante, ter Proust na literatura é por si só um monumento a esta arte.
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Mrs Dalloway
Começa com uma mulher que afirma que irá comprar sozinha as suas flores, para se tornar num clássico da emancipação feminina. A obra é uma narrativa interior que se passa ao longo de um único dia na vida da personagem principal, Clarissa Dalloway, uma mulher da alta sociedade londrina. A história é contada através de uma técnica literária conhecida como fluxo de consciência, que permite que o leitor entre na mente das personagens e experimente as suas emoções e pensamentos mais íntimos. Woolf utiliza uma linguagem que explora questões de identidade, alienação e mortalidade, fazendo de «Mrs. Dalloway» uma leitura desafiante, mas recompensadora, que continua a ser uma das obras mais importantes da literatura modernista. As Horas, um livro de Michael Cunningham, é diretamente inspirado nesta famosa personagem de Woolf.
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A Piada Infinita
Talvez Wallace queira mesmo rir-se de nós, neste que é um dos livros mais deixados a meio pelos leitores em todo o mundo. A Piada Infinita é um romance conhecido por ser uma das obras mais complexas da literatura contemporânea. A história passa-se (será?) num futuro próximo, numa universidade norte-americana, onde se desenvolve um enredo complexo que envolve drogas, política e entretenimento. O livro é conhecido pela estrutura não-linear, que inclui uma variedade de personagens e subenredos interligados. Além disso, o autor utiliza uma linguagem rebuscada e muitas vezes cómica para explorar questões profundas sobre a natureza da vida e da existência. E há ainda a questão das notas de rodapé, onde se desenvolve por si só outra história e que por isso não vale passar à frente!
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