Editorial da semana: A Piada Infinita

Lembro-me de ouvir alguém dizer que David Foster Wallace está para a sociedade atual como Kurt Cobain e Jim Morrisson estiveram para a sociedade dos anos 90 e 70, respetivamente. Na altura fiquei com a comparação na cabeça, mas não lhe fiz muito caso.
23 de janeiro de 2017
Em 2016, A Piada Infinita, um dos livros que Wallace escreveu antes de se suicidar aos 46 anos, completou 20 anos desde a edição original e eu, que sou uma fã do Kurt Cobain e do Jim Morrisson, encetei uma jornada pelo universo literário de David Foster Wallace, com a Smells Like Teen Spirit a tocar de fundo. A Piada Infinita é daqueles livros que não se pode ler nos transportes públicos a menos que se queira desenvolver uma tendinite. Isso, contudo, não deve ser motivo para não embarcar neste grande romance, aclamado pela crítica como "um marco literário" e “uma obra-prima”, e considerado um dos 100 melhores romances de língua inglesa publicados desde 1923, pela revista Time. A trama situa-se num futuro não muito distante, num mundo dominado pelo digital e pela perseguição obsessiva de entretenimento. No centro da narrativa está um filme realizado por James Orin Incandenza Jr., intitulado precisamente A Piada Infinita, do qual se diz que deixa os espetadores num estado de apatia permanente, incapazes de se preocupar com outra coisa que não seja ver o filme novamente.
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Frases soltas
Pouso o livro na mesa, abro-o, tentando não pensar demasiado nas 800 páginas que ainda me faltam ler e, ao virar suavemente a página, sem qualquer aviso, deparo-me com algumas frases que mesmo quem não tem a coragem de ler o livro na íntegra merece conhecer:
  • – "Por mais inteligente que alguém seja, é sempre muito menos inteligente do que isso";
  • – "A validade lógica não é garantia de verdade";
  • – "As pessoas más nunca acham que são más mas que todos os outros o são";
  • – "É possível aprender coisas importantes com pessoas estúpidas";
  • – "Se houver bastantes pessoas numa sala silenciosa a beber café é possível identificar o som do vapor que sai da chávena";
  • – "Pouco interessa o que os outros pensam de nós quando nos apercebemos da pouca importância que nos atribuem";
  • – "Cada pessoa espirra com um som diferente";
  • – "De quem se deve ter mais medo é das pessoas aterrorizadas";
  • – "Aceitação é normalmente mais uma questão de cansaço do que outra coisa";
  • – "Todas as pessoas são iguais na sua secreta e silenciosa crença de que no fundo são diferentes de todas as outras (...) isso não é obrigatoriamente perverso";
  • – "Provavelmente não há anjos mas há pessoas que bem podiam ser anjos".
É cedo para fazer mais observações sobre o livro (800 páginas to go!) mas três coisas são certas:
Dói-me o braço – deve ser uma tendinite!
Este livro vai muito bem com o último álbum dos Nirvana;
Provavelmente não há anjos mas, a cada capítulo terminado, apercebo-me que David Foster Wallace bem que podia ser um anjo. E, por isso, estou-lhe muito grata!
Tânia Azevedo, gestora de conteúdos culturais

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