Editorial da semana: carta ao leitor

Ao longo dos anos foste tendo vários autores e livros preferidos.
Os primeiros de que te lembras foram a série Uma Aventura, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e Rosa, Minha Irmã Rosa, de Alice Vieira, que relias de forma ávida muitas vezes, de um só fôlego. Nessa época achavas ingenuamente que estes livros continuariam sempre na tua lista de favoritos. Imaginavas-te outra pessoa, já adulta, a ler coisas de adulto, mas a ler sempre, também, estas autoras. É claro que apesar de essas primeiras leituras continuarem contigo, à medida que foste crescendo o teu top mudou e tiveste muitos outros livros favoritos. Lembras-te como choraste de cada vez que lias O Principezinho ou O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá?
Carta ao Leitor
Leitora omnívora
Aos quinze anos vibraste com A Insustentável Leveza do Ser, Os Maias e O Amor nos Tempos da Cólera. E, pouco tempo depois, com A Trilogia de Nova Iorque. Como os teus amores foram sempre múltiplos, apaixonaste-te também por Na praia de Chesil, Não me deixes, As Colinas de Nagasaki, O Verão Selvagem dos Teus Olhos, e ainda sabes de cor os primeiros versos de Clepsidra, de Camilo Pessanha, e de Aracne, de António Franco Alexandre. Continuas a gostar muito de alguns destes livros, de outros nem tanto e há ainda aqueles a que preferes não regressar, por medo de não os achares agora tão bons como achaste em tempos.

Na universidade escolheste estudar literatura, naturalmente. E apesar de estares grata à faculdade de letras por ter feito de ti uma leitora melhor, a verdade é que percebeste que quem lê apenas o que a academia estuda corre o risco de se tornar um snob, perdendo a ligação com o seu mundo e o seu tempo. Durante algum tempo foste assim, deixaste que essa educação formal te limitasse ao cânone e ao que os críticos consideram digno. Mas à medida que os anos passaram e que a distância foi redimensionando o que viveste, voltaste a ser uma leitora omnívora e a procurar outras coisas: intercalaste Harry Potter com Proust, John Green com Saramago e Nick Hornby com David Foster Wallace.

Mantém-te assim. Diverte-te, sem te acomodares: não esqueças os clássicos, os livros complexos, desafiantes e difíceis. Lê coisas do teu tempo e coisas de outros tempos. Lê coisas do sítio onde estás e de outras geografias. Preocupa-te pouco com os prémios, com o que dizem os críticos ou mesmo os escritores, em entrevistas. Ouve, sobretudo, outros leitores. E quando te cansares de ti própria, dos livros e do mundo, lê Haruki Murakami, que é agora o teu escritor preferido. Ler o teu autor favorito foi sempre como regressar confortavelmente a casa.


Patrícia Mota, gestora de conteúdos de literatura

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