Wook se escreve na Argentina – Os clássicos
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15 de julho de 2025
A literatura argentina é uma das mais ricas, complexas e influentes da América Latina. Marcada por uma constante tensão entre o erudito e o popular, entre o cosmopolitismo de Buenos Aires e as vozes do interior do país, as letras argentinas foram moldadas por figuras como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares, que representam o seu pilar clássico e, mais recentemente, por escritores inovadores como Samanta Schweblin ou Pedro Mairal.
Desde os jogos labirínticos e metafísicos de Borges até às provocações urbanas e sensuais de escritores contemporâneos, a Argentina tornou-se uma potência literária com ecos em todo o mundo, incluindo Portugal, onde muitos dos seus autores têm sido cada vez mais publicados e lidos. Nesta primeira parte, percorremos os clássicos.
Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontede de maio de 2025.
Desde os jogos labirínticos e metafísicos de Borges até às provocações urbanas e sensuais de escritores contemporâneos, a Argentina tornou-se uma potência literária com ecos em todo o mundo, incluindo Portugal, onde muitos dos seus autores têm sido cada vez mais publicados e lidos. Nesta primeira parte, percorremos os clássicos.
Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontede de maio de 2025.
Jorge Luis Borges (1899-1986) – a fundação de um universo literário
Poeta, ensaísta e ficcionista, Jorge Luis Borges é o arquiteto de um dos universos mais originais e influentes da literatura do século XX. O escritor fundou uma literatura em que o conto reina como forma suprema de expressão, e onde a imaginação supera a experiência vivida. Bibliotecas infinitas, labirintos, tigres, enciclopédias fictícias, silogismos e bestiários convivem com personagens fascinantes e inesquecíveis.
Obras como Ficções (1944) e O Aleph (1949) são autênticas cartografias do pensamento, explorando temas como o infinito, a memória e o tempo — símbolos recorrentes no seu imaginário. Aí encontramos ficções povoadas pelos elementos que farão de Borges uma figura mítica, como os labirintos, os espelhos, as bibliotecas e os tigres. Nas suas histórias, elementos, pessoas e cenários prosaicos são vistos em contextos incomuns e com significados extraordinários, ao mesmo tempo que fenómenos misteriosos e metafísicos se revelam em ambientes quotidianos.
A influência de Borges foi ainda determinante para a consolidação do fantástico como género literário moderno, sendo o autor reverenciada por Gabriel García Márquez, Umberto Eco e Italo Calvino.
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Obras como Ficções (1944) e O Aleph (1949) são autênticas cartografias do pensamento, explorando temas como o infinito, a memória e o tempo — símbolos recorrentes no seu imaginário. Aí encontramos ficções povoadas pelos elementos que farão de Borges uma figura mítica, como os labirintos, os espelhos, as bibliotecas e os tigres. Nas suas histórias, elementos, pessoas e cenários prosaicos são vistos em contextos incomuns e com significados extraordinários, ao mesmo tempo que fenómenos misteriosos e metafísicos se revelam em ambientes quotidianos.
A influência de Borges foi ainda determinante para a consolidação do fantástico como género literário moderno, sendo o autor reverenciada por Gabriel García Márquez, Umberto Eco e Italo Calvino.
Julio Cortázar (1914–1984) – O jogo literário
Nascido em Bruxelas e criado na Argentina, Julio Cortázar expandiu os horizontes da literatura latino-americana com o seu estilo único, a sua linguagem lúdica e o seu interesse pela cultura urbana e pelos mecanismos do poder, da arte e do desejo – o que o tornou numa das figuras centrais do Boom Latino-Americano da década de 1960.
O seu romance mais famoso, Rayuela (o jogo da amarelinha, 1963), rompe com as convenções narrativas ao propor uma leitura em múltiplas ordens. Este relato de amor entre um intelectual argentino no exílio, Horacio Oliveira, e uma misteriosa uruguaia, a Maga, ao acaso das ruas e das pontes de Paris, é um marco inovador na literatura do século XX. Obra lúdica, filosófica, urbana e existencial, convida o leitor a participar ativamente na construção da história. Ao longo de quase quatro décadas, escreveu 12 famosos volumes de contos, num estilo tão alucinante como o improviso no jazz e tão surpreendente como um combate de boxe.
A escrita de Cortázar, profundamente influenciada pelo surrealismo e pelo existencialismo europeu, reflete também um forte compromisso político. O escritor foi um intelectual engajado, defensor da revolução cubana e crítico das ditaduras sul-americanas.
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O seu romance mais famoso, Rayuela (o jogo da amarelinha, 1963), rompe com as convenções narrativas ao propor uma leitura em múltiplas ordens. Este relato de amor entre um intelectual argentino no exílio, Horacio Oliveira, e uma misteriosa uruguaia, a Maga, ao acaso das ruas e das pontes de Paris, é um marco inovador na literatura do século XX. Obra lúdica, filosófica, urbana e existencial, convida o leitor a participar ativamente na construção da história. Ao longo de quase quatro décadas, escreveu 12 famosos volumes de contos, num estilo tão alucinante como o improviso no jazz e tão surpreendente como um combate de boxe.
A escrita de Cortázar, profundamente influenciada pelo surrealismo e pelo existencialismo europeu, reflete também um forte compromisso político. O escritor foi um intelectual engajado, defensor da revolução cubana e crítico das ditaduras sul-americanas.
Adolfo Bioy Casares (1914–1999) – A literatura do insólito
Amigo íntimo e colaborador de Borges, Adolfo Bioy Casares destacou-se como autor de narrativas fantásticas, policiais e de ficção científica. A Invenção de Morel (1940) considerado a sua obra-prima, mistura ficção científica e filosofia para contar a história de um fugitivo que descobre uma ilha habitada por figuras enigmáticas que se repetem ciclicamente, levando à revelação de uma máquina capaz de reproduzir a realidade.
Outras obras, como Plano de Evasão e Diario da Guerra aos Porcos, aprofundam a reflexão sobre o controlo mental, a memória e a violência geracional. Bioy Casares combinou imaginação com uma narrativa precisa, em que sobressaem as questões filosóficas e éticas.
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Silvina Ocampo (1903–1993) – O maravilhoso perverso
Rebelde das letras argentinas, esta poeta e artista, e esposa de Bioy Casares, Silvina Ocampo é conhecida pelo seu imaginário inquietante e sofisticado. Silvina construiu uma obra onde a infância, o fantástico e o grotesco se entrelaçam. A coletânea A Fúria (1959) é um dos seus livros mais emblemáticos, com contos onde a crueldade e o insólito emergem de forma subtil e perturbadora. A sua escrita é enigmática, revelando uma sensibilidade aguda para os aspetos sombrios do quotidiano. Colaboradora próxima de Borges e Bioy e durante muito tempo subestimada, Silvina é hoje reconhecida como uma das grandes escritoras argentinas.
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Ricardo Piglia (1941–2017) – Narrar para pensar
Romancista, crítico e ensaísta, Ricardo Piglia foi uma figura central da literatura argentina contemporânea. A sua obra, que cruza a narrativa policial, o ensaio literário e a reflexão histórica, tem em Alvo Noturno (2010) e Respiración Artificial alguns dos seus pontos altos. Piglia explorou a tensão entre ficção e documento, verdade e representação, com uma prosa cerebral, envolvente e profundamente política. A sua contribuição crítica, nomeadamente com Los Diarios De Emilio Renzi, é também fundamental para compreender a tradição literária argentina.
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