Mini-entrevista a Dulce de Souza Gonçalves
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Dulce de Souza Gonçalves (Lisboa, 1973) é doutorada em Psicologia da Educação, e tem um Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa. Professora do Ensino Básico e Secundário, fundou a associação sem fins lucrativos Mentes Sorridentes. É autora de várias obras de literatura infantojuvenil. Recebeu o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís com o romance O Processo. A partir do pedido enigmático de um tio, ex-preso político do regime salazarista, uma mulher mergulha nos arquivos da Torre do Tombo. Encontra, para além do registo de uma prisão, o eco de uma história silenciada, feita de coragem e traição e de um amor que supera fronteiras. Um romance que entrelaça memória, resistência e amor, atravessando geografias e gerações.
Citação:
«Devemos sempre reconhecer que não escrevemos sozinhos e que chegamos ao destino porque temos quem nos alumie o caminho.»
Citação:
«Devemos sempre reconhecer que não escrevemos sozinhos e que chegamos ao destino porque temos quem nos alumie o caminho.»
Dulce de Souza Gonçalves
Como surgiu a ideia para este livro?
Partiu da consulta do processo de preso político do meu próprio tio, na Torre do Tombo. A partir da descoberta do seu conteúdo, iniciei um périplo que me levou a atravessar décadas e um oceano. Portanto, a obra tem base em factos reais, testemunhos verdadeiros e investigação cuidadosa, mas tudo assente numa narrativa literária que pretende reconstruir um tempo e uma história com alguma liberdade… Na verdade, foi como montar um puzzle de acontecimentos aparentemente separados.
Tem uma rotina de escrita?
Tento ter, mas confesso que, às vezes é difícil, porque sou professora, esposa, filha e mãe… Sempre que consigo, contudo, dedico as sextas-feiras a leituras, investigação e escrita.
Partiu da consulta do processo de preso político do meu próprio tio, na Torre do Tombo. A partir da descoberta do seu conteúdo, iniciei um périplo que me levou a atravessar décadas e um oceano. Portanto, a obra tem base em factos reais, testemunhos verdadeiros e investigação cuidadosa, mas tudo assente numa narrativa literária que pretende reconstruir um tempo e uma história com alguma liberdade… Na verdade, foi como montar um puzzle de acontecimentos aparentemente separados.
Tem uma rotina de escrita?
Tento ter, mas confesso que, às vezes é difícil, porque sou professora, esposa, filha e mãe… Sempre que consigo, contudo, dedico as sextas-feiras a leituras, investigação e escrita.
Como lida com um bloqueio criativo?
Vivemos numa era de hiperprodutividade em que o ruído e a estimulação sensorial são excessivas e esgotantes. Eu prefiro pensar que existe um período de silêncio, de pausa ou de interrupção criativa. Contudo, nesse intervalo a mente também processa informação, amadurece ideias, questiona e cria enraizamento. A criatividade surge associada à flexibilidade cognitiva (capacidade que temos para reestruturar o pensamento), mas também ao esforço, à motivação, à resiliência e à coragem. Qualquer artista pode dizer que não existe criatividade sem esforço. E sem pausa. É nesta pausa que é importante deixar a mente repousar. E pode, aliás, ser alimentada. No meu caso, faço-o com meditação mindfulness, treino da compaixão e caminhadas na Natureza. Na verdade, estas estratégias têm-me proporcionado soluções e motivação para lidar com desafios diferentes. Aconselho vivamente!
Qual é a pior e a melhor parte de ser escritora?
A pior é não poder assumir a escrita a tempo inteiro porque não existe salário… A melhor é a descoberta que lhe está associada – a investigação que subjaz a minha escrita leva-me a mergulhar em realidades distintas, o que eu adoro – posso viver a minha vida desmultiplicada em muitas outras!! Mas também ter a perspetiva dos leitores, isso enternece-me ;-)
Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Temas técnicos e excessivamente especializados, pois preciso de literatura na minha vida para respirar… Uma das coisas que mais me marcou na redação da minha tese de Doutoramento foi não poder usar adjetivação. Senti-me frustrada!!! Mas a ciência exige outra forma de pensar e escrever…
Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Vivos? Valter Hugo Mãe e Lídia Jorge, entre outros.
Desaparecidos? Saramago, sem dúvida, Virgínia Woolf e Rainer Maria Rilke. Acho que os sentava a todos na mesma mesa…
Qual o livro que já devia ter lido e ainda não leu?
Quero muito devorar grandes clássicos que me faltam na bagagem, como Dostoiévski e Victor Hugo.
Em breve, contudo, vou mergulhar em Ian McEwan.
Qual o livro que mais a marcou até hoje?
Era muito jovem quando li as duas obras que mais me marcaram e das quais guardo uma memória afetiva forte – O Palhaço Verde, de Matilde Rosa Araújo e O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro Vasconcelos. Em comum abordam a solidariedade e a capacidade de superação. Chorei com ambos e nunca mais os consegui reler. Como adulta já processo o que leio de outra forma e são múltiplas as obras que me inspiram. Mas aquelas duas foram, sem dúvida, iniciáticas.
Qual foi o último livro que ofereceu?
Ofereci O Processo a pessoas que me ajudaram a cumprir esta obra. Devemos sempre reconhecer que não escrevemos sozinhos e que chegamos ao destino porque temos quem nos alumie o caminho.
Vivemos numa era de hiperprodutividade em que o ruído e a estimulação sensorial são excessivas e esgotantes. Eu prefiro pensar que existe um período de silêncio, de pausa ou de interrupção criativa. Contudo, nesse intervalo a mente também processa informação, amadurece ideias, questiona e cria enraizamento. A criatividade surge associada à flexibilidade cognitiva (capacidade que temos para reestruturar o pensamento), mas também ao esforço, à motivação, à resiliência e à coragem. Qualquer artista pode dizer que não existe criatividade sem esforço. E sem pausa. É nesta pausa que é importante deixar a mente repousar. E pode, aliás, ser alimentada. No meu caso, faço-o com meditação mindfulness, treino da compaixão e caminhadas na Natureza. Na verdade, estas estratégias têm-me proporcionado soluções e motivação para lidar com desafios diferentes. Aconselho vivamente!
Qual é a pior e a melhor parte de ser escritora?
A pior é não poder assumir a escrita a tempo inteiro porque não existe salário… A melhor é a descoberta que lhe está associada – a investigação que subjaz a minha escrita leva-me a mergulhar em realidades distintas, o que eu adoro – posso viver a minha vida desmultiplicada em muitas outras!! Mas também ter a perspetiva dos leitores, isso enternece-me ;-)
Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Temas técnicos e excessivamente especializados, pois preciso de literatura na minha vida para respirar… Uma das coisas que mais me marcou na redação da minha tese de Doutoramento foi não poder usar adjetivação. Senti-me frustrada!!! Mas a ciência exige outra forma de pensar e escrever…
Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Vivos? Valter Hugo Mãe e Lídia Jorge, entre outros.
Desaparecidos? Saramago, sem dúvida, Virgínia Woolf e Rainer Maria Rilke. Acho que os sentava a todos na mesma mesa…
Qual o livro que já devia ter lido e ainda não leu?
Quero muito devorar grandes clássicos que me faltam na bagagem, como Dostoiévski e Victor Hugo.
Em breve, contudo, vou mergulhar em Ian McEwan.
Qual o livro que mais a marcou até hoje?
Era muito jovem quando li as duas obras que mais me marcaram e das quais guardo uma memória afetiva forte – O Palhaço Verde, de Matilde Rosa Araújo e O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro Vasconcelos. Em comum abordam a solidariedade e a capacidade de superação. Chorei com ambos e nunca mais os consegui reler. Como adulta já processo o que leio de outra forma e são múltiplas as obras que me inspiram. Mas aquelas duas foram, sem dúvida, iniciáticas.
Qual foi o último livro que ofereceu?
Ofereci O Processo a pessoas que me ajudaram a cumprir esta obra. Devemos sempre reconhecer que não escrevemos sozinhos e que chegamos ao destino porque temos quem nos alumie o caminho.