As famílias que marcaram a História do Mundo
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14 de dezembro de 2023
Enheduana, «poetisa, princesa, vítima, vingadora» da Casa de Sargão, viveu há 4 mil anos. É pela sua mão que mergulhamos numa História do mundo e da Humanidade que vai ao cerne de onde vimos: a família. Era preciso um mestre contador de histórias para tornar encantada esta viagem, e Simon Sebag Montefiori, além de historiador respeitado, tem esse dom. Com biografias premiadas como Os Romanov ou Young Stalin, é ainda autor do romance Sashenka, estando os seus livros traduzidos para 48 línguas e em processo de adaptação a filmes de cinema e séries de TV. Mas o que torna tão especial o novo O Mundo – Uma História da Humanidade?
Em primeiro lugar, o título, que no original, em inglês, é The World, A Family History of Events. Porque é isso que chama logo a atenção. Histórias do mundo há mais do que se poderão contar sem deixar alguma de fora. Mas uma História em que as protagonistas são as famílias, isso, já é algo novo (ou, pelo menos, pouco explorado). Sebag desemaranha habilmente o novelo da História, tricotada fio a fio por pessoas corajosas, benévolas, atrozes ou sonhadoras, sempre no entorno das suas famílias. Lembra-nos que, apesar de a palavra “família” ter algo de aconchego e afeto, «entre as famílias poderosas, o perigo vem da intimidade».
Em primeiro lugar, o título, que no original, em inglês, é The World, A Family History of Events. Porque é isso que chama logo a atenção. Histórias do mundo há mais do que se poderão contar sem deixar alguma de fora. Mas uma História em que as protagonistas são as famílias, isso, já é algo novo (ou, pelo menos, pouco explorado). Sebag desemaranha habilmente o novelo da História, tricotada fio a fio por pessoas corajosas, benévolas, atrozes ou sonhadoras, sempre no entorno das suas famílias. Lembra-nos que, apesar de a palavra “família” ter algo de aconchego e afeto, «entre as famílias poderosas, o perigo vem da intimidade».
1200 Páginas, em 23 Atos
Simon Sebag Montefiori
Mas há tanto para contar…. Pois há! Como já vamos com uns bons milhares de anos de História, não espanta que este livro some mais de 1200 páginas – e, ainda assim, não serem mais é, em si, um feito. Como dificilmente se leriam todas, muito menos de seguida, sem algo que nos faça voltar a abrir este volumoso livro, Sebag apimenta a narrativa com episódios de vilania que superam qualquer ficção, e detalhes de sexo perverso ou apenas do tipo de fazer corar.
O livro, enorme sim, torna-se ainda mais apetecível e fácil leitura pela forma como está estruturado. O autor dividiu a História em 23 Atos, nos quais entramos, como se estivéssemos a ver um filme, na vida e no legado de várias famílias. Dentro de cada Ato, há vários capítulos e, dentro destes, “episódios” empolgantes e com títulos tão chamativos como «O rei impossível de envenenar, o ditador com monorquidia e o carniceiro adolescente», este último epíteto referindo-se a Caio Júlio César. E que tal «Guerra das Estrelas, pénis perfurados, escravos sexuais e banhos de vapor»? Os títulos são suculentos, sim, mas não enganadores. Tudo o que o livro conta – porque é de contar que se trata – aconteceu mesmo, e encontra-se bem documentado.
O livro, enorme sim, torna-se ainda mais apetecível e fácil leitura pela forma como está estruturado. O autor dividiu a História em 23 Atos, nos quais entramos, como se estivéssemos a ver um filme, na vida e no legado de várias famílias. Dentro de cada Ato, há vários capítulos e, dentro destes, “episódios” empolgantes e com títulos tão chamativos como «O rei impossível de envenenar, o ditador com monorquidia e o carniceiro adolescente», este último epíteto referindo-se a Caio Júlio César. E que tal «Guerra das Estrelas, pénis perfurados, escravos sexuais e banhos de vapor»? Os títulos são suculentos, sim, mas não enganadores. Tudo o que o livro conta – porque é de contar que se trata – aconteceu mesmo, e encontra-se bem documentado.
DINASTIAS E AS SUAS GRANDES FIGURAS, ERA A ERA
A ordem do livro é cronológica, mas em cada Ato convivem pessoas e famílias não totalmente contemporâneas, situadas em diferentes geografias, o que faz tanto mais sentido se pensarmos que impérios, casas reais, famílias e indivíduos acabam sempre por se relacionar. Enquanto humanos, podemos viver em tempos ou circunstâncias diferentes, mas sofremos ânsias e alimentamos desejos comuns.
Há todo um desfile de importantes e poderosas dinastias que reinaram na Europa (Médici, Bonaparte, Habsburgo), na Ásia (Ming, Jenjis e Song), em África (Shabaka, Kenyatta, os faraós do Antigo Egipto), no Médio Oriente (Maomé, os Severo e Zenónia) ou nas Américas (Rockefeller, Kennedy, e até Obama; mais e incas), só para citar algumas. De uma dinastia governante para a seguinte, este livro destrinça até as formas inventivas a que os antigos líderes recorriam para matar os seus inimigos, frequentemente seus familiares, olhando, a cada momento, para as interligações e teias de interesses e influências que unem ou separam famílias e indivíduos. Ato a ato, vão-se desenrolando os momentos mais marcantes da História. De tantos em tantos anos, surge um génio criativo que molda o curso desta e nos presenteia com novas visões do mundo, e Sebag dá-lhes a plateia que merecem – Sócrates, Miguel Ângelo, Newton, Mozart, Balzac, Bowie e Freud estão neste pódio.
Há todo um desfile de importantes e poderosas dinastias que reinaram na Europa (Médici, Bonaparte, Habsburgo), na Ásia (Ming, Jenjis e Song), em África (Shabaka, Kenyatta, os faraós do Antigo Egipto), no Médio Oriente (Maomé, os Severo e Zenónia) ou nas Américas (Rockefeller, Kennedy, e até Obama; mais e incas), só para citar algumas. De uma dinastia governante para a seguinte, este livro destrinça até as formas inventivas a que os antigos líderes recorriam para matar os seus inimigos, frequentemente seus familiares, olhando, a cada momento, para as interligações e teias de interesses e influências que unem ou separam famílias e indivíduos. Ato a ato, vão-se desenrolando os momentos mais marcantes da História. De tantos em tantos anos, surge um génio criativo que molda o curso desta e nos presenteia com novas visões do mundo, e Sebag dá-lhes a plateia que merecem – Sócrates, Miguel Ângelo, Newton, Mozart, Balzac, Bowie e Freud estão neste pódio.
A batalha dos três reis mortos: D. Sebastião, o Adormecido, e Mansur, o Dourado
Para nós que estamos a ler em português, é uma boa surpresa descobrir que Portugal não foi esquecido neste livro, com várias figuras proeminentes do nosso passado a merecerem destaque, Uma delas é D. Sebastião, aqui retratado com detalhes que, apostamos, poucos portuguese conhecem. Eis como Sebag relata o que se passou por cá, há 445 anos:
«D. Sebastião, usufruindo da companhia de jovens monges e evitando a companhia feminina, liderou a continuidade da expansão imperial: ao largo da China, Macau foi assegurada, enquanto no sudoeste de África fundou a fortaleza de São Sebastião (Moçambique) e, a oeste, construiu um novo porto de escravos em Luanda (Angola), além de se ter expandido para o reino de Ndongo – tornando os portugueses, até então, os únicos europeus a construírem em África um império territorial e não costeiro. Mais próximo de casa, D. Sebastião aspirava a tornar-se «imperador de Marrocos», explorando uma fissura na dinastia reinante, Saadi, e protegendo um pretendente contra o seu tio pró-otomano, o sultão.
Filipe aconselhou D. Sebastião contra o seu plano, mas, em 1577, o Desejado desembarcou em Tânger com a nata da nobreza portuguesa, 17 mil homens e muitos voluntários, que marcharam de armadura completa pelo interior. O calor era tão intenso que D. Sebastião despejava água fria na sua armadura. Mas não estava preparado quando, a 4 de agosto de 1578, em Alcácer Quibir, se encontrou com 60 mil tropas marroquinas. (…) Foram abatidos três cavalos montados por D. Sebastião. Depois, carregou e foi abatido; o seu pretendente marroquino foi afogado e o vitorioso sultão Abd al Malik expirou – três reis mortos durante uma batalha. (…) Oito mil portugueses foram mortos, 15 mil – muitas mulheres que seguiam o exército – foram feitos escravos. O corpo de D. Sebastião nunca foi encontrado: tornou-se o Rei Adormecido, esperando-se que despertasse e governasse o Fim dos Dias. (…)
Filipe foi um dos beneficiários desta loucura. A casa de Avis estava quase extinta e Filipe era o herdeiro: tomou Portugal e uniu os primeiros dois impérios mundiais.»
«D. Sebastião, usufruindo da companhia de jovens monges e evitando a companhia feminina, liderou a continuidade da expansão imperial: ao largo da China, Macau foi assegurada, enquanto no sudoeste de África fundou a fortaleza de São Sebastião (Moçambique) e, a oeste, construiu um novo porto de escravos em Luanda (Angola), além de se ter expandido para o reino de Ndongo – tornando os portugueses, até então, os únicos europeus a construírem em África um império territorial e não costeiro. Mais próximo de casa, D. Sebastião aspirava a tornar-se «imperador de Marrocos», explorando uma fissura na dinastia reinante, Saadi, e protegendo um pretendente contra o seu tio pró-otomano, o sultão.
Filipe aconselhou D. Sebastião contra o seu plano, mas, em 1577, o Desejado desembarcou em Tânger com a nata da nobreza portuguesa, 17 mil homens e muitos voluntários, que marcharam de armadura completa pelo interior. O calor era tão intenso que D. Sebastião despejava água fria na sua armadura. Mas não estava preparado quando, a 4 de agosto de 1578, em Alcácer Quibir, se encontrou com 60 mil tropas marroquinas. (…) Foram abatidos três cavalos montados por D. Sebastião. Depois, carregou e foi abatido; o seu pretendente marroquino foi afogado e o vitorioso sultão Abd al Malik expirou – três reis mortos durante uma batalha. (…) Oito mil portugueses foram mortos, 15 mil – muitas mulheres que seguiam o exército – foram feitos escravos. O corpo de D. Sebastião nunca foi encontrado: tornou-se o Rei Adormecido, esperando-se que despertasse e governasse o Fim dos Dias. (…)
Filipe foi um dos beneficiários desta loucura. A casa de Avis estava quase extinta e Filipe era o herdeiro: tomou Portugal e uniu os primeiros dois impérios mundiais.»
Um trabalho gigantesco, das fontes primárias a importantes figuras vivas
«A História tem um poder especial, quase místico, para moldar (e, se maltratada, distorcer) o presente», diz Sebag, acrescentando que «O seu poder moral inflama instantaneamente tochas de conhecimento e incêndios na lixeira da ignorância».
Para este «trabalho de síntese, produto de uma vida de leitura», Simon Sebag Montefiori utilizou fontes primárias sempre que possível. Contou ainda com a validação dos pares – e que pares! «Entre os historiadores vivos, uma galáxia de estudiosos distintos e brilhantes leu, discutiu e reviu todo este livro ou parte dele», conta o autor. «Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA entre 1973 e 1977, leu a parte relativa a esse período» e Sebag teve «a honra de falar sobre a criação da Internet com sir, Tim Berners-Lee. Isto já dá uma ideia da pesquisa que sustenta esta obra.
E assim, apoiando-se nas histórias das famílias ao longo do tempo, Sebag oferece-nos uma perspetiva inovadora e diferente, relacionando grandes acontecimentos com dramas humanos individuais, da primeira dinastia governante à guerra de Putin contra a Ucrânia, dramaticamente, ainda em curso. Um trabalho minucioso capaz de informar e entreter, ao longo de muitas e boas horas.
Para este «trabalho de síntese, produto de uma vida de leitura», Simon Sebag Montefiori utilizou fontes primárias sempre que possível. Contou ainda com a validação dos pares – e que pares! «Entre os historiadores vivos, uma galáxia de estudiosos distintos e brilhantes leu, discutiu e reviu todo este livro ou parte dele», conta o autor. «Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA entre 1973 e 1977, leu a parte relativa a esse período» e Sebag teve «a honra de falar sobre a criação da Internet com sir, Tim Berners-Lee. Isto já dá uma ideia da pesquisa que sustenta esta obra.
E assim, apoiando-se nas histórias das famílias ao longo do tempo, Sebag oferece-nos uma perspetiva inovadora e diferente, relacionando grandes acontecimentos com dramas humanos individuais, da primeira dinastia governante à guerra de Putin contra a Ucrânia, dramaticamente, ainda em curso. Um trabalho minucioso capaz de informar e entreter, ao longo de muitas e boas horas.