5 suculentos episódios da nossa História

Por Vera Dantas
10 de outubro de 2023
«Há um potencial suculento na nossa História, (…) desde os rudes matagais dos nossos primórdios até à urbana assinatura da nossa última Constituição, em 1976». A garantia é de Maria João Lopo de Carvalho, escritora prolífica de romances (cinco deles históricos), livros, crónicas, infantis, e até manuais escolares. A autora sabe a História de Portugal de Cor e Salteada e apresenta a sua versão bem-humorada, e bem fundamentada, do nosso passado coletivo. Com tantos anos para trás, não faltam episódios para recordar. Espreite já este livro que conta tudo de forma, no mínimo, inédita, com estes cinco*:
 
Blá blá blá… (A língua portuguesa)
«(…) ainda antes do século I a.C., as incontáveis línguas que aqui se mesclavam umas com as outras num indecifrável “blá, blá, blá” tinham sido varridas para a poesia sideral pelo latim misturado com o árabe, a sul do rio Douro; e pelo dialeto galaico-português, a norte do rio Douro.
O português, filho do latim, língua viva que nem sardinhas na rede, língua repescada em muitos mares e a saltar em muitos pratos, foi desde cedo regado com azeite árabe. E se almoçamos, somos altruístas, gostamos do Algarve e bendizemos ou maldizemos a tribo das saltitantes papoilas benfiquistas, foi porque os mouros alcançaram a Hispânia e deixaram algures as suas marcas e os seus salamaleques…».
Portucale, terra de ninguém: o recomeço da porrada (A conquista do território)
«Foram anos e anos nisto. Em 740, nobres, senhores feudais e soldados cristãos ainda continuavam à batatada pela “Reconquista”, e durante cinco séculos, o que hoje se chama Portugal esteve num constante vai-não-vai entre Maomé e Cristo: os reinos cristãos aconchegados mais a norte e os islâmicos de Al-Andaluz mais a sul, alternando-se a presidência entre cristãos e muçulmanos. Até que o resultado começou a inverter-se a norte, na fronteira do Douro, e os adeptos de JC, ganhando ânimo, foram descendo para o Mondego, e para o Tejo. Porém, a coisa complicou-se e os mouros só foram escorraçados de vez no século XII, com a vitória dos exércitos cristãos por uma goleada sem precedentes a que se somou a inesperada reconquista do Algarve, louvado seja Deus!»
Enfim, renascidos! (O Renascimento)
«É aqui que entra em cena uma novidade clássica: o Renascimento. E o nosso D. João II ia ser um “mestre na moderna arte de reinar”. (…)nas passerelles que ditavam a moda, a Antiguidade era o top model do momento.
(…) com o vaivém das caravelas a funcionar como publicidade não paga, Portugal andava nas bocas do mundo (civilizado e por civilizar). Por aqui, estava tudo impecavelmente organizado, com check lists para os embarcadiços e debriefings para os pilotos, de forma a que botassem cá para fora tudo o que tivessem visto, medido, desenhado, recolhido. Até parecia que estávamos no estrangeiro, tal era a eficiência.»
O cavalo do D. José e o leão do Sebastião José (O Marquês de Pombal)
«Mal o herdeiro do Magnânimo, El-rei D. José I, subiu ao trono, correu a empossar como Secretário de Estado um fidalgote alto e carismático, com posse de estadista, que já fora embaixador em Londres e em Viena. Tratava-se de Sebastião José de Carvalho e Melo, figurão por quem a rainha – D. Mariana Vitória de Bourbon – nutria um ódio vesgo. (…) o futuro marquês tinha, pelo menos, um plano para o Reino: queria reformá-lo, desse para onde desse e custasse o que custasse. (…) estava determinado a instaurar aqui na parvónia, onde imperavam a Igreja e os grandes senhores, “o Progresso” – a material, cultural, científico.
Carvalho e Melo também sabia agradar ao povo: acabava com o Tribunal do Santo Ofício (…); acabava com a escravidão na metrópole – os filhos de escravas nascidos em Portugal, seriam livres; apagava a distinção entre cristãos velhos e novos, e inundava de luz as ruas de Lisboa.»
A guerra quente e a guerra fria
«O que o doutor António menos queria era que a Espanha de Paco se juntasse à Alemanha de Adolfo e à Itália de Benito e lhes segredasse ao ouvido que em Portugal é que se comia e bebia bem. Não havia férias para ninguém: os Estados Unidos lutavam para sair da depressão provocada pelo crash de 1929 e os países europeus lutavam para ultrapassar o horror e a devastação da Primeira Grande Guerra de forma a poderem entrar na Segunda de uniforme a rebrilhar e de armas limpas e polidas.»

A História continua. Divirta-se a (re)descobri-la com este divertido livro!



*Os textos aqui apresentados são excertos de alguns dos capítulos do livro História de Portugal de Cor e Salteada. Leia-os na íntegra no livro.

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