As bactérias que nos curam

Por Vera Dantas
3 de julho de 2023
Alexandra Vasconcelos deixou o universo da farmacêutica para se dedicar à medicina integrativa, uma prática médica focada em tratar a saúde com base nas causas da doença, e não apenas em mitigar os sintomas. Fê-lo por não se sentir bem consigo própria a vender químicos prejudiciais, tendo presenciado, ao longo de 20 anos, os efeitos gravíssimos da polimedicação. Especializou-se ainda em nutrição ortomolecular, micronutrição, neuronutrição e nutrição molecular ativa.
Desde 2017, já publicou cinco livros com o objetivo de melhorar a saúde das pessoas. Esta primavera lançou As Bactérias que Nos Curam, um livro inovador e muito detalhado sobre a importância do microbioma no sistema intestinal. Além de toda a teoria subjacente, este livro funciona como um guia prático, com receitas e um plano de 14 dias para equilibrar o microbioma e reforçar o sistema imunitário.
Em entrevista ao Wookacontece, a autora destaca a importância de olhar para a pessoa como um todo, com a sua individualidade única, pois só assim podemos atingir uma vida plena e saudável.
Alexandra Vasconcelos
Alexandra Vasconcelos. Foto © Daniela Sousa
 
«Na medicina integrativa, primeiro apuramos as causas e depois ajustamos o modo de vida do paciente. Tratamos a saúde, e não apenas os sintomas».
Em que consiste a medicina integrativa?
A medicina integrativa tem o objetivo maior de tratar a saúde, e não os sintomas. É uma perspetiva completamente diferente da que se foca no diagnóstico, e tem uma abordagem terapêutica que vê a pessoa como um todo, apurando as causas das doenças crónicas, por exemplo.

É um pouco como a patologia?
Em parte, mas a patologia determina o que está mal num determinado tecido. Na medicina integrativa, podemos ir a causas muito diferentes: um choque emocional, um conflito interno que se mantém a vida inteira, como nos casos de violação na infância, um problema na boca…. Há pessoas que vivem em ambientes tóxicos, pelo que o seu sistema imunitário não consegue ser saudável e eficiente. E isso é epigenético, ou seja, causa alterações no DNA que condicionam os genes. Portanto, na medicina integrativa, primeiro apuramos as causas e depois ajustamos o modo de vida do paciente.

No seu novo livro, As Bactérias que Nos Curam, refere que o microbioma (o conjunto dos microorganismos e os seus genes) é já considerado um órgão. Essa visão é reconhecida pelos médicos?
O grande problema é que, infelizmente, os médicos pararam de estudar a parte geral. A medicina é cada vez mais específica, de especialidade. Os novos estudos, que saíram nos últimos anos, demonstram que o microbioma tem de ser tido em conta e que temos de trabalhar de mãos dadas, porque entender e estudar o intestino é fulcral.  
imagem
As Bactérias que nos Curam, o novo livro de Alexandra Vasconcelos


De que forma se pode integrar o seu Plano de 14 dias para Equilibrar o Microbioma num tratamento nutricional, implementado de forma autónoma pelos leitores de As Bactérias que Nos Curam?
Desde 2017, em que lancei O Segredo Para se Manter Jovem e Saudável, já publiquei cinco livros. Muitas das pessoas que chegam à minha consulta já leram esses livros, e frequentemente já implementaram os meus planos práticos. As pessoas melhoram imenso só com o meu Plano de 14 dias que engloba alimentação e mudança de estilo de vida, incluindo desde suplementos a programas de limpeza do intestino e do fígado. Uma pessoa que não se sinta bem ou que tenha uma doença crónica, após uma limpeza intestinal hepática vai ficar muito melhor. Mas para apurar a causa associada ao mal-estar da pessoa nós precisamos de intervir, tratando a parte física e a psicológica. O intestino tem uma relação direta com o cérebro e não se pode tratá-los separadamente.

O jejum intermitente é também uma forma de regular os microrganismos?
O jejum intermitente regula muitos metabolismos, que normalmente estão desregulados na doença crónica. Se conseguirmos associá-lo ao respeito do ciclo circadiano, os benefícios são inúmeros, não só no microbioma intestinal (os microorganismos deste órgão e os seus genes), mas também em todos os metabolismos – nas partes psicológica, das doenças alérgicas, das doenças autoimunes, entre outras. O intestino contém entre 70% a 80% das células imunitárias do nosso corpo e a flora intestinal contribui muito para a sua integridade.
 
 
«A polimedicação é uma grande causa de morte (…). Isso é gravíssimo e eu não me sentia coerente a vender químicos prejudiciais.»
Tendo vindo da área farmacêutica, o que a levou a especializar-se em medicina integrativa?
A minha grande motivação é dizer às pessoas que existe outra forma e que as pessoas, que têm doenças crónicas, andam enganadas e que esta medicinal alopática não ajuda para nada, muito pelo contrário. Soma medicamento atrás de medicamento, e pões as pessoas cada vez piores. Essa noção, eu tive-a ao longo de 20 anos de farmácia, porque os meus doentes tinham cada vez mais medicamentos e, ao fim da vida, tinham uma polimedicação, que é uma grande causa de morte nessa faixa etária. Isso é gravíssimo e eu não me sentia coerente a vender químicos prejudiciais.

 
imagem
O Poder do Jejum Intermitente, de Alexandra Vasconcelos
O que a move a escrever e a publicar os seus livros?
É passar às pessoas a mensagem de que só é possível viver de forma saudável se mudarmos algumas coisas na nossa vida – a alimentação, o modo de vida, as toxicidades, os microrganismos, a falta de nutrientes. Esta forma de abordar a saúde é a única capaz de controlar a doença crónica, porque infelizmente a medicina alopática não está formatada para prevenção, para envelhecimento saudável e para tratar a doença crónica. Eu trabalho nesta área há 20 anos; quando comecei a tratar pessoas que, ao fim de seis meses, dizem que já não tomam medicamentos, já não têm dores, ou fibromialgia, ou doença autoimune, o mínimo que posso fazer é deixar escrita e passar esta informação às pessoas.
Há alguma história que tenha vivido com os seus pacientes que a tenha marcado e que queira partilhar connosco?
Tantas! Tenho uma que se passou há dias. Foi com uma senhora que comprou o meu primeiro livro em 2017, o interiorizou, mas perdeu-se no caminho. Entretanto comprou o livro O Poder do Jejum Intermitente, pôs em prática este regime, e começou a sentir-se muito bem. O jejum intermitente é uma ferramenta fácil: é não comer numa janela de tempo. Aconselhei a senhora em relação a esse horário, numa mensagem de Whatsapp. Ela disse-me que foi à consulta porque se sentia ótima, apenas para me agradecer obter ajuda com os suplementos que tomava. Contou-me que tinha fibromialgia, mas que seguiu o jejum intermitente e deixou de tomar qualquer medicação, além de ter perdido 20 kg. O que é bonito é que nós chegamos às pessoas, mudamos a vida delas, damos-lhes qualidade de vida e mostramos a versão real da doença crónica.

Livros relacionados

Wook está a dar

Subscreva!