O que pensa António Lobo Antunes?
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20 de março de 2017
António Lobo Antunes (LA): "O grande livro da nossa poesia é o Só. Uma vez disse isto ao Eugénio e estávamos de acordo os dois, é o grande livro. Escrito entre os 17 e os 24 anos, e depois a tuberculose já não o deixou fazer mais nada. Morreu com 33 anos. Ainda fez mais alguns poemas, mas muito poucos. O Cesário [Verde] deixou de escrever com 24 anos. Um grande poeta. Disso orgulho-me. E depois temos uma língua maravilhosa, dúctil. O francês é uma língua tramada para escrever, mas em todo o caso no século XX tiveram o Céline e o Proust, o que já não é nada mau. A nossa poesia, na minha opinião, é melhor do que a francesa, do que a alemã, do que a inglesa. Na poesia do Século XX talvez só a polaca seja equivalente à nossa. Têm grandes, grandes poetas.
O autor, António Lobo Antunes
Celso Filipe (CF): Em Portugal a poesia ainda é menos lida do que a prosa.
LA: Sempre foi pouco lida. O Stendhal, em vez do pôr «fim» nos romances, punha sempre «para os felizes poucos». É curioso, somos um país de poetas que não lê os poetas. É uma pena.
CF: Por que é que acha que isso acontece?
LA: Por uma variedade grande de razões. Sobretudo por questões de educação e culturais. Obrigarem, como me obrigaram a mim, a dividir Os Lusíadas em orações tira a vontade de ler seja o que for. O prazer da leitura não é ensinado às crianças.
CF: O romance tem previsivelmente uma história, a poesia não.
LA: Não sei o que as pessoas esperam. Eu não faço isso e as pessoas lêem. Tenho livros com mais de trinta edições e não conto histórias. Deus me livre.
CF: Disse-me que vai voltar a escrever poesia.
LA: A minha poesia é má. Não tenho talento.
CF: Mas vai escrever.
LA: Só vou fazer mais três livros e depois acabou.
CF: E depois poesia.
LA: Mas é só para mim, não posso ter a vaidade de me intitular poeta, não sou. Sou apenas uma pessoa que deve muito à poesia pelo prazer que me deu, pelo que me ensinou sobre mim e sobre o mundo e pelo respeito que tenho pelos grandes poetas que escreveram na minha língua, no meu país."
Este artigo não foi escrito segundo o novo Acordo Ortográfico, com vista a respeitar o texto original.